Livro de autor potiguar reflete sobre preconceito contra nordestinos
O incômodo moveu Octávio Santiago. Nascido em Natal, o jornalista e escritor já ouviu frases como “você não tem cara de nordestino” ou outras que questionavam a competência, “apesar de ser do Nordeste” — afirmações que passaram não só pelos seus ouvidos, mas também pelo de colegas, amigos e familiares. A inquietação o levou a escrever “Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste”, lançado neste ano pela Autêntica Editora.
A obra já pode ser considerada um sucesso. Lançada no final de maio, acabou a primeira tiragem em 29 dias. Santiago foi convidado para o palco principal da Feira do Livro de São Paulo e também passou pela Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). Na última quinta (14), esteve na Feira do Livro de Mossoró para um bate-papo. A publicação ainda chegou a figurar entre as mais vendidas na Amazon.
A obra, resultado de sua pesquisa de doutorado na Universidade do Minho, em Portugal, percorre o modo como, ao longo do último século, discursos políticos, culturais e midiáticos forjaram uma identidade subalterna para o povo nordestino.
No livro de 256 páginas, Octávio Santiago investiga as raízes da construção do estereótipo sobre esse povo, e porque ainda persiste no imaginário brasileiro uma imagem que atrela o Nordeste a um suposto atraso, miséria e ignorância.
“Me incomodava muito a recorrência de frases do tipo ‘você não tem cara de nordestino’, ‘você é bem competente, apesar de ser do Nordeste’. Eu mesmo ouvi essas frases e muitos colegas, amigos, familiares, ouviram ou experienciaram coisas piores, situações discriminatórias ainda mais graves. Até mesmo o impedimento de acessar oportunidades pelo fato de serem do Nordeste”, explica.
“Então, isso me incomodava, como também me incomodavam as representações artísticas, a forma como o Nordeste é enlatado pela teledramaturgia, por exemplo, que insiste em enlatar nove estados, 60 milhões de pessoas como uma coisa só, e sempre com um filtro do atraso. E eu perguntava muito que lugar é esse menor que o nordestino se acomodou no imaginário nacional e encontrava poucas respostas”, continua.
O livro nasceu, então, como resultado do trabalho de pesquisa para o seu doutorado na área de comunicação na Universidade do Minho, em Portugal. Em cinco atos, que remetem à estrutura da dramaturgia clássica, Octávio Santiago discorre sobre mão de obra e desigualdades, racialização, monotematização (seca, fanatismo, violência), oposição e interesses, e estereótipos físicos e culturais.
O Nordeste da contrariedade
Segundo o jornalista, alguns fatos marcam a gênese desse preconceito, ainda no século XX. Um deles é a delimitação da própria região, que ocorreu por força das secas e da reivindicação de atenção governamental e de recursos públicos.
“E isso cria ressentimentos, sobretudo no Sul do Brasil. E eu falo Sul porque a gente está falando em um Brasil que era dividido entre Norte e Sul, apenas”, explica.

Nesse contexto, há também o registro de fluxos migratórios de nordestinos que iam ao Sul em busca de oportunidades.
“E essas oportunidades existiam para agregar, para receber uma mão de obra branca europeia, importada, desde um projeto de branqueamento da população do Brasil. E aí, nesse contexto, o Nordeste nasce dessa contrariedade, e o nordestino também. A gente contraria essa vontade do Sul de prosperar absoluto e de concentrar os esforços e a atenção governamental, e a gente contraria um projeto de branqueamento da população. Quando nós, tratados como miscigenados em excesso, chegamos ao Sul e colocamos ali, reposicionamos no centro da sala o que o Brasil tentava colocar para debaixo do tapete”, aponta.
Entre os pontos de destaque, Santiago resgata a figura de Macabéa, personagem de A hora da estrela, de Clarice Lispector, como metáfora do apagamento da identidade nordestina, moldada de fora para dentro. O autor propõe o conceito de “Complexo de Macabéa”, em referência à postura submissa, invisível e culpada atribuída a essa população.
A obra também se debruça sobre representações recentes que demonstram como esses estigmas ainda operam. O autor analisa, por exemplo, a recepção crítica à novela da TV Globo No rancho fundo, cuja caracterização dos personagens reacendeu debates sobre caricaturas nordestinas no audiovisual. E comenta o emblemático caso do “homem gabiru”, personagem de uma matéria da Folha de S. Paulo, de 1991, que comparava nordestinos pobres a uma “nova espécie humana”, desumanizando seus corpos e modos de vida.
Nas frases preconceituosas em que explora no livro, Santiago vê uma recorrência com discursos que já atravessam 100 anos, “só sendo moldado e fortalecido por outras formas, por discursos políticos, pelo cinema, pela literatura, pela televisão, e que nos leva a entender que a gente ainda está preso a essas linhas de 1920.”
Santiago diz que vê um avanço nas formas de representação que atingem outras populações, como negros e LGBT, mas o atraso para a representação nordestina permanece. Uma das razões é o que chama de “enlatamento”, uma ideia de que todos os nove estados são uma coisa só.
“A partir disso, você entra por um caminho que vai ser a reprodução de sucessivos erros, de leituras reducionistas, homogeneizantes, generalizadoras. E essa ideia de reduzir a população do Nordeste a uma coisa só é parte de um projeto. Quer dizer, você na hora que diz que o Nordeste é uma palavra, é uma linha, que a população nordestina cabe em uma caricatura, como é feito ainda pelo audiovisual, você reduz uma população, você reduz uma pauta, você reduz uma agenda. Isso é um projeto político, econômico, que ainda insiste porque ele serve a interesses”, explica.
Apesar das narrativas, o escritor diz que o Nordeste sempre se valeu do conhecimento para poder escapar dessa dinâmica nacional, com exemplos positivos na ciência e na educação. Ele cita as notas altas obtidas por alunos nordestinos na redação do Enem, por exemplo.
“Isso mostra que o nosso caminho sempre foi pautado pelo conhecimento. Esse discurso de que somos fatalistas, fanáticos, violentos, isso é uma construção para nos diminuir. E o que sempre nos fez valer, enquanto população forte mesmo, resistente, capaz de driblar essa situação desse projeto nacional, é o nosso conhecimento e é a partir dele que a gente também vai conseguir virar essa página do preconceito”, destaca.