Jamil Chade: “A condenação do Bolsonaro não é o final da história”
Natal, RN 26 de jul 2026

Jamil Chade: “A condenação do Bolsonaro não é o final da história”

6 de setembro de 2025
6min
Jamil Chade: “A condenação do Bolsonaro não é o final da história”

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Um dos mais atuantes e respeitados jornalistas brasileiros na área de política internacional, Jamil Chade não tem ilusões sobre as consequências da provável condenação do ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado no país.

Ele reconhece o momento histórico que o Brasil atravessa sob os olhares atentos da comunidade internacional, mas não acredita que a prisão de Bolsonaro seja o último ato de uma quase tragédia à brasileira.

“A condenação do Bolsonaro não é o final da história nem o fim do bolsonarismo”, afirma.

Ao contrário, o jornalista demonstra preocupação com o cenário político internacional em razão do crescimento das autocracias e do desaparecimento das democracias mundo afora. E cita um levantamento de 2024 realizado pela Universidade de Gotemburgo, entidade que reúne o maior banco de dados sobre a saúde das democracias no planeta. Segundo o estudo, apenas 12% da população mundial vive sob a guarda de democracias liberais, o equivalente a 900 milhões de pessoas. Esse é o menor índice em 50 anos. São 88 democracias hoje no mundo, incluindo as liberais e eleitorais, e 91 autocracias.

“Quase 3 em cada 4 pessoas no mundo – 72% do planeta – agora vivem em autocracias”, revela com base nos dados da instituição:

“A extrema direita não vive de ciclos eleitorais, mas de projetos a longo prazo. Com muito dinheiro e muita ambição”, diz.

Tomara que você seja deportado

Jornalista lançou 9º livro com histórias sobre a distopia americana. foto: Rafael Duarte / Saiba Mais

Jamil Chade participou na quarta-feira (3) do projeto “Sempre um Papo”, no auditório da Caixa Cultural, em Brasília. Ele está percorrendo algumas cidades brasileiras para lançar “Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”, nono livro do autor e o primeiro no qual aborda o esfacelamento da democracia dos EUA.

A agência Saiba Mais acompanhou o debate com Chade, mediado pelo jornalista Matheus Leitão.

Na obra, Jamil Chade reúne uma série de crônicas e reflexões pessoais sobre o ano em que passou cobrindo a última campanha eleitoral norte-americana, vencida pelo atual presidente Donald Trump. A apresentação do livro é do cineasta Walter Salles, diretor do filme “Ainda estou aqui”, primeiro longa brasileiro a vencer o Oscar, na categoria Filme Estrangeiro.

Durante o debate, o jornalista falou sobre seu trabalho como correspondente internacional e também contou algumas das histórias narradas no livro, como as que vivenciou na cobertura do resultado da apuração que deu maioria à Trump. Ele decidiu acompanhar a contagem de votos ao lado dos eleitores considerados mais radicais:

“Quando saiu o resultado (da eleição) eu não vi sorrisos, não vi abraços, não vi nenhuma demonstração de afeto. Eu vi um sentimento de vingança. As pessoas gritavam como se quisessem se vingar. Minha casa ficava a uns 2 quilômetros de distância do local e, quando acabou, já era 3 horas da madrugada, decidi voltar a pé para ver se tirava aquele sentimento ruim de mim. Lembro que no trajeto comecei a chorar copiosamente. Chorei não pelo medo de acontecer algo ali, mas pelo que estava por vir. E talvez não comigo, mas com a comunidade LGBQIA+, com as negras e negros, com os afro-americanos, com os imigrantes… e muito do que pensei aconteceu e está acontecendo agora”, disse.

Outra história que deixou o jornalista em choque ocorreu em novembro de 2024, poucas semanas antes da posse de Donald Trump. Numa manhã, afro-americanos de vários estados do país receberam, ao mesmo tempo, uma mensagem racista pelo celular pedindo que se dirigissem a um local definido porque “a colheita do algodão iria recomeçar”.

Nos EUA, a expressão “colheita de algodão” está relacionada ao trabalho forçado realizado por negros escravizados no país.

“Milhares de pessoas receberam a mensagem, amigos dos meus filhos receberam. Quem mandou aquela mensagem?  A mando de quem? Como conseguiram aquele banco de dados? Qual o papel da operadora de telefone? Gostaria de saber como está essa investigação”, questiona.

Tarifas não, sanções

Sobre as recentes tarifas de 50% sobre os produtos brasileiros anunciadas por Trump no final de julho, Jamil corrigiu o apresentador:

“Não são tarifas, são sanções. Precisamos deixar claro e mostrar o que está por trás desse ataque ao país. Os EUA não estão preocupados com tarifas, o objetivo é a desestabilização do Brasil”, afirmou o jornalista, antes de lembrar como o tabuleiro eleitoral na região está favorável aos EUA:

“Na Bolívia, a direita chegará ao poder agora com os dois candidatos indo ao 2º turno. No Chile, embora a candidata de esquerda lidere, todas as projeções de 2º turno dão a vitória da extrema-direita. Ano que vem teremos eleições na Colômbia e a situação do (Gustavo) Petro não é nada boa. E aqui no Brasil será a eleição mais estratégica da América Latina. Os EUA só consolidarão sua influência na América Latina com o domínio sobre o Brasil, a joia da coroa”, analisou.

Na avaliação de Jamil Chade, o julgamento de Jair Bolsonaro pode servir de exemplo para o mundo. Vários países destacaram profissionais para acompanhar os trabalhos conduzidos pela Suprema Corte. Para ele, a condenação do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado pode soar como um recado sobre os limites do autoritarismo no mundo:

“Nós já sabemos como as democracias morrem, agora temos a oportunidade de entender como as democracias sobrevivem. Esse é o nosso papel”, afirmou.

Quem é Jamil Chade

Cruzando fronteiras com refugiados, testemunhando crimes contra a humanidade, viajando com papas ou cobrindo cúpulas diplomáticas, Jamil Chade percorreu mais de 70 países. Com seu escritório na sede da ONU em Genebra, e vivendo hoje em Nova York, o jornalista venceu diversos prêmios no exterior e no Brasil por sua defesa da democracia e dos direitos humanos. Entre 2024 e 2025, percorreu milhares de quilômetros em mais de uma dezena de estados americanos para testemunhar a encruzilhada que vive a sociedade nos EUA. Chade publicou nove livros, três dos quais foram finalistas do prêmio Jabuti. Ele é embaixador do Instituto Adus, membro do conselho do Instituto Vladimir Herzog e integrante da equipe de pesquisa sobre Memória, Justiça e Verdade do Instituto de Estudos Avançados da USP. O autor também foi um dos pesquisadores da Comissão Nacional da Verdade.

SERVIÇO:

Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana”

Autor: Jamil Chade

Editora NOZ

256 páginas

R$ 79

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.