Tânia Maria: a artesã potiguar que costurou seu destino no cinema e é cotada ao Oscar
Natal, RN 8 de jul 2026

Tânia Maria: a artesã potiguar que costurou seu destino no cinema e é cotada ao Oscar

21 de setembro de 2025
14min
Tânia Maria: a artesã potiguar que costurou seu destino no cinema e é cotada ao Oscar
Foto: Cedida

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

A artesã, costureira e agora atriz Tânia Maria não era muito chegada em filmes, até que um dia se viu ali, refletida no brilho da telona ao aparecer como figurante em Bacurau, longa-metragem do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho lançado em 2019, que ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes, além de ter sido indicado à Palma de Ouro. Aos 78 anos, a seridoense nascida no povoado de Santo Antônio da Cobra, no município de Parelhas, descobriu, enfim, o encanto do cinema: “Eu acho bom me ver. É bom demais a gente ver que está sendo aplaudida”, diz, com a simplicidade de quem ainda se espanta com o rumo inesperado do seu destino, mas, ao mesmo tempo, com a inocência da vaidade que remete ao famoso verso de Caetano Veloso na canção “Sampa”: “É que Narciso acha feio o que não é espelho”.

A revelação dessa epifania sobre o cinema veio após ela ter sido cotada pela Variety, uma das principais revistas de entretenimento dos Estados Unidos, para o Oscar 2026, na categoria de “Melhor Atriz Coadjuvante”, pela sua atuação em outro filme de Kleber Mendonça Filho: “O Agente Secreto”.

Imagem: Reprodução Variety

O filme foi ovacionado na estreia em maio no 78ª Edição do Festival de Cannes. Tânia se ressente de não ter participado do pré-lançamento com o elenco na França. A festa no tapete vermelho, ao som de uma orquestra de frevo, foi puxada pelo ator Wagner Moura, protagonista do longa, que conta ainda com Maria Fernanda Cândido e os potiguares Alice Carvalho e Kaiony Venâncio.

Fumante há 65 anos, ela reclama que o cigarro a “empatou” de ir. Apesar do perfil resistente, Tânia percebeu que não aguentaria a viagem longa do Brasil à França.

Elenco do filme “O Agente Secreto” no Festival de Cannes. Cigarro impediu Tânia Maria de participar da festa. Foto: Reprodução Redes Sociais

“O cigarro me empatou de ir, aí eu disse: então pronto, a partir de hoje não fumo mais. O último cigarro que fumei foi no dia 30 de maio de 2025. De lá pra cá, nenhum cigarro mais. Já engordei 8 kg. Vou ter que renovar o guarda-roupa”, brinca.

Em “O Agente Secreto”, ao contrário de Bacurau, onde era apenas uma figurante anônima, Tânia Maria interpreta Sebastiana. Ela é a dona de um prédio em Recife (PE), onde funcionava um “aparelho” que abrigava dissidentes da ditadura militar brasileira na década de 1970, entre os quais o professor universitário Marcelo, personagem de Wagner Moura.

Ele é lindo, lindo, lindo”, derramou-se a seridoense sobre Wagner Moura

Tânia Maria com Wagner Moura nos intervalos das gravações de “O Agente Secreto”. Foto: Cedida

Ela deixou escapar que todas as suas cenas no longa são com Wagner. Perguntada sobre como tinha sido contracenar com o consagrado ator, respondeu com tranquilidade que foi “normal”, assegurou não ter ficado nervosa e confessou ter se admirado com a beleza do astro ao vivo: “Ele é lindo, lindo, lindo”, repetiu.

O novo longa de Kleber Mendonça Filho, com estreia prevista para o dia 6 de novembro de 2025, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país no Oscar 2026, na categoria de “Melhor Filme Internacional”.

Foto: Divulgação

Em Cannes, o filme obteve duas premiações: melhor ator para Wagner Moura e melhor diretor para Kleber Mendonça Filho. A Palma de Ouro ficou com o longa “Um simples Acidente”, do cineasta dissidente iraniano Jafar Panahi.

Tânia está na torcida para que o filme seja de fato indicado ao Oscar, mas, quando questionada se também esperava estar no próximo ano em Hollywood, disse que não “pensava assim tão alto”.

Tânia soube de menção na Variety pelo Instagram

Kleber Mendonça Filho comemorou citação de Tânia Maria na Variety. Foto: Cedida

Ela ficou sabendo que foi cotada pela revista norte-americana, ao lado de atrizes como Emma Stone (Bugonia), Kate Hudson (Song Sung Blue) e Samantha Morton (Anemone), através da publicação de Kleber Mendonça Filho no Instagram.

“Eu sempre tive certeza de que Hollywood fica onde você quiser. Dona Tânia, a minha querida Sebastiana, na lista com outras grandes estrelas para atriz coadjuvante em O Agente Secreto”, comemorou o diretor.

Para Tânia, “a ficha ainda não caiu”, mas, apesar de dizer que não se imagina passando pelo tapete vermelho do Dolby Theatre, na cidade de Los Angeles, Califórnia, onde acontece a tradicional premiação do Oscar, a atriz afirma sem titubear que “se der certo, eu vou”.

Tânia com Maria Fernanda Cândido na pré-estreia de “O Agente Secreto” em Recife. Foto: Cedida

“O passaporte tá quase pronto e o ‘look’ sou eu mesma que vou fazer”, disse, lembrando que não abandonou o ofício de costureira, profissão que exerce desde os 15 anos, que lhe permitiu criar sua filha única, Shyrley Virdjnia.

“Fique feliz demais, porque só em saber quem eu sou, uma costureira da zona rural, uma artesã simples, não é isso? Valeu a pena o meu trabalho”, comentou, sobre a emoção de figurar como possível concorrente ao Oscar.

Tânia participou da sessão especial de “O Agento Secreto” no Palácio da Alvorada, com o presidente Lula e a primeira-dama Janja. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

“Eu já me senti feliz ao lado de Lula, quanto mais no Oscar”, acrescentou, citando o encontro com o presidente e a primeira-dama, Janja da Silva, que receberam membros da equipe e o elenco do filme, no início de agosto, em uma sessão especial no Palácio da Alvorada.

Atriz já tem seis filmes no currículo

No dia em que conversou com a reportagem da Agência Saiba Mais, Tânia disse que estava de “ressaca”, porque, na noite anterior, havia participado das gravações de “Almeidinha”, o seu sexto filme, que está sendo rodado em Caicó, também na região Seridó, com direção de Gustavo Guedes e Júlio Castro.

Ela garantiu que está disposta a seguir na carreira de atriz: “Eu vou até os 100 anos se me chamarem”. Tânia também gravou os filmes “Yellow Cake” e “O Delegado”, dirigidos, respectivamente, pelos pernambucanos Tiago Melo e Juliano Dornelles.

Tânia posa com os diretores Tiago Melo e Juliano Dornelles. Fotos: Cedidas

O outro longa-metragem no currículo de Tânia Maria é “Seu Cavalcanti”, uma mistura realidade com ficção, que foi gravado ao longo de duas décadas e estreou recentemente nos cinemas brasileiros.

O filme acompanha a vida do carismático Severino Cavalcanti, de mais de 90 anos, avô do diretor pernambucano Leonardo Lacca, que conheceu a atriz potiguar nas filmagens de Bacurau.

O diretor Leonardo Lacca conheceu Tânia em Bacurau e a convide para participar do filme sobre o avô dele: “Seu Cavalcanti”. Foto: Cedida

“Seu Cavalcanti”, no entanto, não é só sobre o avô do diretor Leonardo Lacca. O filme também conta um pouco da história da própria Tânia, que, assim como sua personagem no longa-metragem, foi mãe solteira ainda jovem.

Fui mãe solteira para não ficar sozinha”, diz Tânia Maria

Tânia foi mãe solteira de Virdjnia aos 27 anos para, segundo ela, “não ficar sozinha”. A gravidez, na época, causou um escândalo em Parelhas. Foto: Cedida

Filha mais nova dos agricultores José Alexandre de Medeiros e Sebastiana Maria de Medeiros, ambos já falecidos, Tânia disse que decidiu ser mãe solteira aos 27 anos porque “não queria ficar sozinha na vida”.

“Não foi por amor, eu queria uma filha pra não ficar sozinha. Essa filha eu criei sozinha, costurando, nunca disse a ela nem que era o pai”, contou.

Quando Shyrley Virdjnia completou 15 anos, pediu de presente que a mãe lhe dissesse o nome do pai. Tânia hesitou, mas diante da insistência da filha, terminou cedendo.

“Ela foi conhecer o pai com 15 anos, lá no Açude Boqueirão, aqui em Parelhas. Quando ela chegou lá, ele tava numa mesa bebendo água com uma cocada. Ele perguntou se ela queria uma cocada, mas ela disse que não queria e foi embora”, narrou.

Depois disso, Shyrley Virdjnia nunca mais teve contato com o paí, que já faleceu, mas mantém até hoje boa relação com os irmãos da parte dele.

“Hoje ela tem 11 irmãos, todos consideram ela, porque eu não queria nada dele, ele era casado”, relevou.

Tânia contou que, quando engravidou, “foi um escândalo na cidade”. Na época, ela trabalhava na área da saúde na Prefeitura de Parelhas. Uma amiga a avisou que fizeram um abaixo-assinado para pedir ao prefeito que a exonerasse.

“Quando eu soube que fizeram essa lita, fui lá e pedi demissão. Quando a lista chegou na prefeitura, há tempos que eu não era mais empregada”, disse, rindo.

Por causa do “escândalo” da gravidez, Tânia teve que se mudar para João Pessoa

Até hoje, Tânia segue fazendo suas costuras e disse que, se for mesmo inidcada ao Oscar, vai fazer o prórprio “look” para ir a Hollywood. Foto: Cedida

O preconceito, porém, não diminuiu. Dois meses após o nascimento da filha, Tânia teve que ir embora para João Pessoa (PB), onde viveu 15 anos, trabalhando como costureira em casa de família.

“Eu ia pra casa da família, fazia costura para aquela família todinha. Aí quando terminava, eu ia pra casa da outra família. Fazia enxoval de casamento. Era eu quem vestia a noiva, a madrinha, a dama de honra. Do noivo, eu só não fazia o paletó, mas fazia a calça e a camisa social”.

Após esse período, retornou ao povoado da Cobra, onde seguiu fazendo seu artesanato, trabalhando na máquina de costura e levando a vida no ritmo lento do interior seridoense, até o dia em que a produção de Bacurau chegou a Parelhas em 2018.

O “boa noite” que transformou a artesã em atriz

“Bacurau” foi filmado na comunidade da Barra, na zona rural de Parelhas. Foto: Reprodução

Jácylla Kenya, neta única de Tânia Maria, conta que a produção do filme marcou uma reunião em sua casa, no povoado da Cobra, para explicar como seria a participação das crianças da comunidade no longa-metragem.

Quase no final do encontro, aquela mulher baixinha, mas de presença marcante, surgiu na sala e cumprimentou os visitantes com um “boa noite”.

Foi o suficiente para uma das produtoras do filme se encantar pela artesã, que até então nunca havia tido nenhum contato com a arte da interpretação, a não ser quando participava das “dramatizações” na época da escola.

Tânia só estudou até o quinto ano, mas foi o suficiente para apender a ler e a escrever. “Parei porque não tinha mais estudo aqui naquela época”.

“Quando vó apareceu e disse ‘boa noite’, Renata Roberta [produtora do filme] falou: ‘É da senhora que nós estamos precisando’. Foi aquela emoção. De lá pra cá, ela não parou mais”, disse a neta de Tânia Maria, que também fez sua estreia no cinema contracenando com a avó em “Seu Cavalcanti”.

Os bastidores de Bacurau

Tânia, no canto à esquerda, fazendo figuração em “Bacurau”. Foto: Reprodução

Tânia relembra com alegria as histórias dos bastidores de Bacurau, que foi gravado na Barra, outra comunidade rural de Parelhas, com algumas cenas feitas também no Açude Gargalheiras, na vizinha cidade de Acari.

O filme é uma distopia sobre uma cidade fictícia isolada no sertão nordestino onde a calmaria do cotidiano se transforma quando drones começam a atravessar os céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez e os moradores descobrem que estão sendo caçados como animais. É quando o povo decide se unir para enfrentar a ameaça externa.

Sônia Braga é uma das estrelas de “Bacurau”, filme em que Tânia Maria estreou como figurante em 2018. Foto: Reprodução

A produção tem no elenco Sônia Braga, Silvero Pereira e Karine Teles, entre outros nomes conhecidos. No filme, Tânia faz figuração nas cenas das dezenas de mortes que ocorrem no povoado fictício.

Ela conta que não tinha roteiro para seguir. Kleber Mendonça Filho apenas orientava como a figurante deveria passar em cada velório.

“Morreu mais de 30 pessoas no filme. Aí quando vinha um velório, Kleber [Mendonça] dizia como era pra eu passar. Tinha dia que era correndo, tinha dia que era olhando, tinha dia que não era pra olhar. Cada dia era de um jeito diferente”.

Uma vez, o diretor cochichou a orientação no ouvido de Tânia, mas ela não entendeu direito o que era para fazer.

“Eu simplesmente fechei meus olhos e fui passar, tropecei no tripé e derrubei a câmera. Aí Kleber disse: ‘O que foi isso menina?’. Eu disse: ‘Você não me mandou passar cega?’. Ele disse: ‘Não, mandei você passar séria’”, contou, aos risos.

Tânia ficou “no radar” de Kleber Mendonça Filho

Depois de Bacurau, Tânia nunca mais saiu do radar de Kleber Mendonça Filho, que não pensou duas vezes antes de convidá-la para “O Agente Secreto”.

Tânia fala do diretor com muito carinho, além de descrevê-lo como um pregador de peças. Ela disse que, em um mês, decorou o roteiro do novo filme. Ao chegar para gravar em Recife, disse a Kleber Mendonça Filho: “Já sei de tudo”.

Tânia disse que em um mês decorou sua parte no roteiro de “O Agente Secreto”, mas ao chegar para gravar em Recife, Kleber Mendonça Filho “mudou tudo”. Foto: Cedida

Para surpresa dela, o diretor retrucou: “Não vai saber de nada, porque eu mudei foi tudo”.

“Ele mudou o roteiro todinho. Tudo que eu estudei foi perdido. Aí eu decorei de novo. Tive que decorar tudo de novo”, contou, rindo novamente.

Tânia conta que depois que foi cotada pela Variety para concorrer ao Oscar 20206, as pessoas começaram a “fazer fila” para tirar uma foto com ela no povoado da Cobra. Ela reforça a ligação com a comunidade, aliás, ao dizer: “Eu nasci em casa na Cobra, não foi em Parelhas”.

Ao enfatizar sua origem, Tânia parece evocar a criança do filme, que ao ser questionada sobre “quem nasce em Bacurau é o quê?”, dá a icônica resposta que reflete a dignidade, a coragem e a resistência dos sertanejos: “É gente”.

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.