Saravá shalom: a espiritualidade da memória ancestral à resistência contra a morte
Por Daniel Dantas Lemos
O mundo ocidental capitalista maltrata a nossa memória. Esse destrato envolve cuidar mal de nossos documentos, de nossas histórias e, também, de nossos antepassados.
Ainda que a cristandade se relacione à história de um judeu-palestino morto há dois mil anos, que os crentes consideram estar vivo, seus rituais de fé se fundamentam na ideia de que sua presença se faz viva e atual. Jesus é a história do cristão, mas que só faz sentido quando se atualiza na comunhão e sacramentos presentes. Ou seja: uma fé que olha de hoje em diante até o futuro no céu.
A alienação capitalista quer nos tirar de contexto para melhor nos ter em seu seio. Maltratar a história, desfazer dos nossos antepassados e excluir nossa ancestralidade é parte desse processo acelerado em tempos de vida on-line e em tempo real. Mesmo a fé religiosa, que aponta para a história, hoje é experimentada em versão tiktok.
O apagamento de nossa memória histórica, a diminuição dos afetos pessoais e a exclusão de nossa ancestralidade em termos sociais e espirituais são sinais de um mesmo processo.
Nesse sentido, a espiritualidade africana e indígena surgem como elementos de resistência. Se o ser humano nasceu na África, se a vida social nasceu no continente, a busca de um sentido espiritual das coisas humanas nasceu naquele solo sagrado. A religião africana é o encontro com a ancestralidade de todos nós, humanos.
Igualmente, em solo indiígena como o brasileiro, reverenciamos a história de resistência em uma espiritualidade ancestral que se nomeou de várias formas – de pajelança ao catimbó. A espiritualidade indígena se atualiza em vários de nossos hábitos seculares e em manifestações religiosas – o mais das vezes tomadas como puro folclore, em um estado em que seu maior folclorista contribuiu ao genocídio indígena ao afirmar que aqui não haveria mais povos originários. Mas a espiritualidade, a ancestralidade e a cultura indígena sempre resistiram bravamente e nos ensina, hoje, o valor da relação entra a vida (incluindo a humana), a terra e a força ancestral. Quando a maraca toca, quando a fumaça sobe, é a memória indígena que se resgata em qualquer forma de culto. Porque o que é importante gira.
Muitos sinais e símbolos das religiões de matriz afroameríndia, em virtude de todo sincretismo que os ajudaram a sobreviver, advém não somente do cristianismo católico, mas também de uma matriz de cultura e fé judaica. Como se as diásporas negra, indígena e judaica se cruzassem em algum horizonte espiritual. E talvez seja isso porque coube aos descendentes de Abraão, assim como aos ciganos desde que fugiram de ser mortos em sua terra natal na Índia, aos negros escravizados e seus descendentes, aos indígenas que escaparam ao genocídio, sobreviverem. Ciganos, indígenas, negros e judeus são sobreviventes e, nessa condição, se espalharam pelo mundo e trouxeram ao horizonte de todo o mundo traços de uma rica espiritualidade que ajuda a dar sentido ao mundo. espiritualidades que nos falam de resistência, de vítimas históricas e ancestrais de genocidios e destruição ao longo da história, que no sertão do nordeste se misturaram com as lutas populares nos quilombos, nos cangaços, nas empreitadas sebastianistas e messiânicas. A nossa ancestralidade comum conta a nossa história nordestina e brasileira.
sarava shalom é um documentário que nos fala do encontro desses mundos que se cruzam nas formas de respeitar a ancestralidade, a fé famíliar, a história de resistência de povos que se irmanam numa espiritualidade que aponta a vida e a vida plena. A partir da vivência de judeus que encontraram sua relação com gerações ancestrais nos terreiros de candomblé, de umbanda, da jurema sagrada, como na história inicialmente registrada do artista e pesquisador cearense André Feitosa, cuja dedicação à sua genealogia honra sua origem judaica e sua religiosidade afroameríndia.
No dia 29 de outubro, a partir das 15h no auditório do DECOM da UFRN, o documentário dirigido pelo antropólogo visual Alex Minkin será exibido em pré-estreia. Nascido na Rússia, radicado nos Estados Unidos, o judeu Minkin debaterá o filme em seguida com a mãe Ritinha, mãe de sacerdotisa de Jurema e mestra em Ciências Sociais, Romulo Angélico, também sacerdote juremeiro e professor da rede pública, e o professor Marcos Silva, historiador da Universidade Federal de Sergipe. O evento de extensão é aberto a toda comunidade e tem inscrições abertas pelo SIGAA da UFRN (entre na aba Extensão, em seguida Evento e pesquise “Saravá Shalom”.
Mo juba.