”Precisamos parar o sistema”: o alerta de Sidarta Ribeiro
Pipa (RN) – O auditório silencia quando o neurocientista Sidarta Ribeiro começa a falar. É manhã na praia da Pipa, mas o que ele descreve não é o futuro — é o agora. “A gente está vivendo um momento de ficção científica. E não é metáfora,” afirma.
Com voz calma e olhar de quem mede o tempo entre as ideias, Sidarta costura ciência, espiritualidade e política como quem redesenha o mapa de uma humanidade em colapso. Fala da guerra em Gaza, da ascensão da extrema-direita no mundo, do patriarcado que apodreceu. Fala do trabalho precarizado, das telas que sequestram o sonho e da urgência de parar o sistema.
“A pandemia provou que é possível. O sistema pode ser parado e consertado. A gente precisa de urgência. O ano que vem temos encontro marcado com o fascismo”, diz.
É mais do que uma análise política: é um aviso biológico. Para o pesquisador, o planeta vive uma febre alta. A espécie humana está em um “banzeiro” — o ponto em que o barco vira no rio. “A gente está nesse momento. E quem está fazendo isso tem arma atômica”, completa, lembrando que a inteligência artificial, se alcançar controle total sem uma renda básica universal, “vai concluir, com boas razões, que o problema somos nós”.
Sidarta não fala em apocalipse por prazer estético, mas por precisão científica. Ele descreve o tempo presente como uma transição decisiva entre a extinção e a chance de regenerar a vida. “A gente já se desenvolveu demais. Agora é hora de se envolver”, resume.
As telas que sonham por nós
Antes de chegar à guerra e à política, ele começa pelos sonhos.
“Nos últimos 15 anos, as telas estão sonhando por nós”, diz. “Se cada cinco minutos livres a gente olha para o celular, quando é que a nossa máquina de sonhar sonha?”
Sidarta fala de empatia — a capacidade de imaginar-se no lugar do outro, de sentir a dor alheia, de entender o que o outro precisa como reparação. “Isso é o que constrói a coesão social. E estamos perdendo”, alerta.
No laboratório do Instituto do Cérebro da UFRN, ele pesquisa o sono, os sonhos e a aprendizagem. Mas o que o move, diz, é mais do que ciência: é o desejo de reencantar o humano. “A literatura, o canto coral, as rodas de capoeira… tudo depende de gente viva. Não dá pra ver samba de roda, tem que sambar.”
Ficção científica e o patriarcado doente
O neurocientista recusa o discurso do progresso infinito, que chama de “metástase econômica”.
“O discurso do crescimento sem fim é o discurso do câncer. O problema é que a doença está no topo, entre quem tem todas as armas, os data centers e as IAs.”
Ele cita a filósofa bell hooks para falar do “patriarcado supremacista branco capitalista predatório” e de sua expressão mais brutal: as guerras. “Quem destruiu Gaza são pessoas muito doentes. É o patriarcado completamente apodrecido.”
Ainda assim, Sidarta acredita que há uma chance. Uma fresta. “Talvez seja possível convencer os financiadores do Netanyahu a parar com a guerra. E quando eu digo parar com a guerra, é parar com todas as guerras: contra as pessoas, os seres vivos, as montanhas.”
O sonho de parar o sistema
A fala, marcada por pausas longas e imagens vivas, ganha o tom de manifesto:
“Cinco anos atrás, a pandemia parou o mundo. Foi um freio de arrumação. Então não é verdade que o sistema não pode parar.”
O neurocientista insiste que o problema não é técnico, mas ético. “Hoje não há nenhuma razão objetiva para a humanidade viver tão mal. As melhores coisas da vida são baratas ou de graça. O que falta é gestão coletiva dos recursos e vontade de mudar o curso.”
A mudança, acredita, começa pela consciência e pela escola. “A escola é a instituição mais estratégica da humanidade. É onde pode começar a expansão planetária de consciência”, afirma.
Maconha: a pauta progressista que mais avançou
E é justamente no terreno da consciência que Sidarta vê o maior avanço político dos últimos anos: a cannabis.
“A pauta da maconha é talvez a única pauta progressista que realmente avançou nos últimos 15 anos. A maconha é remédio. Um remédio milenar.”
Ele recorda que a criminalização da planta foi uma operação racista. “A demonização da maconha começou há menos de cem anos e sempre teve cor. Quem fumava? Negros, indígenas, mexicanos. A guerra às drogas é o eixo central do problema — o mecanismo que autoriza o massacre nas favelas.”
Mas algo começou a mudar.
“Quando mães de crianças com epilepsia descobriram que o óleo de cannabis podia salvar suas filhas, a luta mudou de lugar. A aura divina da maternidade venceu o argumento do Estado,” defende.
Essas mães, diz, romperam o estigma. Foram ajudadas pelos mesmos “growers cabeludos” perseguidos como traficantes. “Quando isso chegou ao Fantástico, o debate estava vencido. A própria Anvisa teve que admitir: maconha é planta medicinal.”
Hoje, Sidarta defende que o tema entre no SUS, nas farmácias vivas e nos quintais das casas. “A maconha tem que estar do lado do boldo, da carqueja e do alecrim. É fitoterapia, é autocuidado, é reparação social.”
“Se a guerra às drogas vai acabar — e precisa acabar —, quem vai ganhar dinheiro com isso? Tem que ser as pessoas pretas e indígenas que foram presas por portar maconha. É uma questão de reparação.”
Urgência
No encerramento da fala, Sidarta volta ao ponto de partida: o tempo.
“A gente tem urgência. O ano que vem temos encontro marcado com o fascismo. E a gente precisa vencer — mas vencer para mudar o país. Para fazer uma revolução ficcional, artística, esportiva.”
O público se levanta. Aplausos longos. Sidarta sorri, sereno, como quem sonha acordado — e pede, mais uma vez, o que parece impossível: “parar o sistema”.
Mas, diante do que descreve, talvez impossível seja continuar do jeito que está.