Em tempos de menos leitores, clube de leitura aposta no diálogo para formação
Criado a partir de uma inquietação simples e, ao mesmo tempo, urgente, o ComLiteratura nasce no Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como uma resposta concreta ao esvaziamento dos hábitos de leitura no Brasil. Em um país que perdeu 6,7 milhões de leitores nos últimos quatro anos, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, o clube surge como um convite coletivo ao encontro com os livros, com o outro e consigo mesmo.
Idealizado por estudantes do Decom, o ComLiteratura se propõe a ser mais do que um espaço de debate literário. É, sobretudo, uma experiência de formação humana, crítica e comunicativa. A iniciativa foi pensada e apresentada pelo estudante Tiago Eneas, que percebeu a ausência de um clube de leitura dentro do próprio departamento em que estuda, apesar da presença significativa desse tipo de ação em outros espaços da universidade.
“Ler é uma atividade fundamental não só para o desenvolvimento intelectual, mas humano”, afirma Tiago. Para ele, o afastamento dos livros não se explica apenas pela falta de interesse, mas também pela dificuldade de acesso e pela escassez de iniciativas que apresentem a leitura como algo possível e prazeroso. A ideia encontrou eco imediato no professor Adriano Medeiros, que acolheu o projeto e assumiu a coordenação da ação, viabilizando sua implementação como atividade de extensão.
A proposta do ComLiteratura está diretamente ligada à compreensão da leitura como um processo coletivo. Nos encontros mensais, leitores de diferentes cursos e trajetórias se reúnem para compartilhar impressões, atravessamentos e interpretações das obras escolhidas. Já passaram pelo clube estudantes de Letras, Biblioteconomia, Enfermagem, Engenharia Química, Arquitetura, entre outros cursos, o que amplia o repertório das discussões e reforça o caráter interdisciplinar da iniciativa.
Para Tiago, pensar a leitura apenas como um exercício solitário é limitar seu potencial formativo. “Quando se pensa na academia, não se deve considerar somente a produção de conteúdos que circulam exclusivamente em um grupo letrado num determinado assunto. Para que haja uma formação estudantil plena, é preciso pensar na alteridade”, explica. O contato com realidades distintas, mediado pela literatura, permite o reconhecimento do outro em sua complexidade e, ao mesmo tempo, provoca revisões profundas sobre a forma como cada leitor se coloca no mundo.
Essa concepção dialoga diretamente com o pensamento de Paulo Freire, uma das referências do grupo. Ao lembrar que “a educação é comunicação, é diálogo”, Tiago reforça que os encontros do ComLiteratura não se estruturam de maneira hierárquica. Não há especialistas e ouvintes passivos, mas sujeitos interlocutores que ensinam e aprendem em um processo horizontal de troca de saberes.
O funcionamento do clube reflete esse compromisso com a participação democrática. A escolha das obras é feita de forma coletiva, a partir de sugestões enviadas pelos próprios participantes por meio de formulários. Após uma curadoria realizada pela equipe de monitoria, que considera critérios como a disponibilidade das obras em formato digital e no sistema de bibliotecas da UFRN, três títulos são colocados em votação. O livro mais votado se torna a leitura do mês.
Esse engajamento prévio fortalece o vínculo dos leitores com o clube e amplia o interesse pelas discussões. Mesmo aqueles que não conseguem participar presencialmente dos encontros seguem acompanhando as leituras e interagindo no grupo de WhatsApp, principal canal de comunicação do ComLiteratura. “Muitas pessoas já relataram que, por mais que não participem dos encontros presenciais, realizam as leituras. Para mim, pessoalmente, é isso o que mais importa”, destaca Tiago.
Além de estimular a constância da leitura, o clube também tem sido um espaço de descobertas literárias. Obras fora do circuito mais popular ganham visibilidade entre os participantes, como Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil. A circulação desses títulos contribui para a ampliação do cânone pessoal de cada leitor e para o reconhecimento de vozes historicamente silenciadas.
Como todo projeto nascente, o ComLiteratura também enfrentou desafios em sua fase inicial. A ausência de auxílio financeiro exigiu criatividade da equipe para viabilizar a divulgação, especialmente na impressão e colagem de cartazes. Além disso, foi necessário ouvir os estudantes para definir dias e horários que não entrassem em conflito com a rotina acadêmica. Um formulário de interesse enviado ao grupo do departamento ajudou a mapear essas demandas e a estruturar os encontros de forma mais acessível.
Outro diferencial do clube é sua abertura ao público externo à universidade. Essa característica reforça o papel extensionista da iniciativa e amplia a diversidade de olhares presentes nas discussões. “Esse intercâmbio torna o ambiente mais rico em quesitos analíticos e demonstra que as universidades podem e devem ultrapassar os confins das salas de aula”, afirma Tiago. Ainda que alcançar esse público seja um desafio, a presença de leitores de fora da UFRN é vista como essencial para o fortalecimento do projeto.
O engajamento contínuo entre um encontro e outro é sustentado pelas redes sociais e, principalmente, pelo grupo de WhatsApp, onde circulam sugestões, críticas e comentários dos participantes. Esse retorno constante orienta as decisões da equipe e contribui para tornar o clube cada vez mais democrático e interessante.
Para 2026, o ComLiteratura já projeta novos passos. Uma das novidades é a construção de uma agenda anual de leituras, a partir de um formulário aberto para sugestões de livros ao longo de todo o ano. A iniciativa permitirá um planejamento mais organizado, oferecendo mais tempo tanto para a leitura quanto para a divulgação dos encontros. Também estão em análise a realização de encontros híbridos e a experimentação de novos dias e horários, possibilidades que ainda serão discutidas ao longo do ano.
Atualmente, a equipe de monitoria do ComLiteratura é formada por Tiago Eneas, Larissa Silva, Maíra Cecília Oliveira e Gabriel da Costa. Juntos, eles conduzem um projeto que reafirma a leitura como prática coletiva, acessível e transformadora.
Aberto a toda a comunidade, o Clube de Leitura da UFRN realiza encontros mensais, com direito à certificação de horas complementares para os participantes. As informações sobre os livros escolhidos e as datas das discussões são divulgadas pelo Instagram e pelo grupo de WhatsApp do projeto. Em um tempo de dispersões e leituras fragmentadas, o ComLiteratura propõe uma pausa necessária. Um convite para ler, conversar e, sobretudo, compartilhar sentidos.
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