A oclocracia no Brasil
Natal, RN 10 de jul 2026

A oclocracia no Brasil

29 de marƧo de 2026
5min
A oclocracia no Brasil
Jair Bolsonaro / Foto: Gabriela Biló

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faƧa parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

No dicionĆ”rio Houaiss da LĆ­ngua Portuguesa, oclocracia Ć© definida como o ā€œexercĆ­cio do poder ou do governo pela multidĆ£o, pela plebeā€. Etimologicamente, o termo tem origem grega (ochlokratĆ­a), formado por ochlos (multidĆ£o) e kratos (poder). Segundo o Wisdom Library, kratos significa ā€œforƧaā€, ā€œpoderā€, ā€œdomĆ­nioā€ ou ā€œsoberaniaā€ e, na mitologia grega, Ć© a personificação da forƧa e do poder, associado Ć  autoridade implacĆ”vel. Assim, ochlokratĆ­a designa o governo exercido pela multidĆ£o.

O conceito Ć© atribuĆ­do a PolĆ­bio, geógrafo e historiador grego do sĆ©culo II a.C. (203 a.C. – 120 a.C.). Ao estudar a sociedade de seu tempo, sistematizou reflexƵes posteriormente reunidas na obra Histórias (publicada no Brasil em 2016 pela Editora Perspectiva, com tradução, introdução e notas de Breno Battistin Sebastiani).

Entre outros aspectos, PolĆ­bio analisou o ĆŖxito militar e cultural do ImpĆ©rio Romano, bem como a invasĆ£o da GrĆ©cia por Roma no inĆ­cio do sĆ©culo II a.C., examinando seus impactos polĆ­ticos e culturais. A partir dessas observaƧƵes, refletiu tambĆ©m sobre as formas de governo e identificou o que chamou de ā€œgoverno da multidĆ£oā€: situaƧƵes em que hĆ” aparĆŖncia de apoio popular, mas, na prĆ”tica, o poder atende aos interesses de uma minoria.

Nesse sentido, a democracia — tal como concebida Ć  Ć©poca — poderia degenerar em oclocracia, entendida como o ā€œgoverno dos pioresā€. Essa preocupação jĆ” havia sido antecipada por Aristóteles e PlatĆ£o, que viam riscos quando as decisƵes polĆ­ticas fossem capturadas pela irracionalidade das massas.

Ambos não eram defensores da democracia nos moldes modernos e alertavam para o perigo da demagogia. Platão, por exemplo, recorria à condenação de Sócrates como evidência dos excessos da decisão popular. Esse tipo de fenÓmeno se repetiu em diversos momentos históricos, quando multidões legitimaram a violência contra adversÔrios, participando inclusive de execuções públicas.

No Brasil, ao longo da história — da ColĆ“nia Ć  RepĆŗblica —, Ć© possĆ­vel identificar momentos com traƧos de oclocracia. Em um exemplo mais recente, o artigo A oclocracia brasileira, publicado no Congresso em Foco em julho de 2021 por AndrĆ© Sather, Ricardo de JoĆ£o Braga, Sylvio Costa e Rudolfo Lago, utiliza o conceito para analisar o governo Bolsonaro (2019–2022).

Com base em pesquisas de opinião, como a do Datafolha realizada em julho de 2021, os autores apontaram níveis elevados de rejeição ao governo. Segundo o levantamento, 51% avaliavam a gestão como ruim ou péssima; 54% defendiam a abertura de impeachment; e 70% percebiam a existência de corrupção. A imagem pessoal do presidente também era amplamente negativa.

Ainda que pesquisas representem retratos momentâneos, houve esforços para reverter esse cenÔrio às vésperas das eleições de 2022, incluindo a ampliação de benefícios sociais, como o Auxílio Brasil, e a criação de auxílios específicos para categorias profissionais.

Entretanto, tais medidas não foram suficientes para garantir a reeleição. Posteriormente, investigações da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República apontaram a existência de articulações golpistas, incluindo planos para impedir a posse do presidente eleito, o que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023.

Os autores também destacam o papel das redes sociais e das novas tecnologias na política contemporânea. Segundo essa anÔlise, tratava-se de um governo fortemente influenciado pela lógica das redes, capaz de mobilizar apoiadores, mas não necessariamente de fortalecer prÔticas democrÔticas.

Outro ponto relevante é o papel simbólico da liderança. Teorias políticas e organizacionais indicam que líderes com forte rejeição tendem a produzir efeitos negativos que se irradiam pela sociedade, especialmente entre seus seguidores.

Cabe ainda observar que a vitória eleitoral de 2018 nĆ£o representou o apoio da maioria absoluta da população, mas de uma parcela mobilizada politicamente — base que, em grande medida, permanece ativa. Isso ajuda a explicar a forƧa eleitoral desse campo polĆ­tico em diferentes nĆ­veis institucionais.

Em artigo publicado no jornal O Globo em julho de 2022, a jornalista Dorrit Harazim faz uma crítica contundente ao ambiente político da época, apontando a degradação do debate público e a presença recorrente de figuras e prÔticas que tensionam os limites institucionais.

Esse cenÔrio evidencia um dos grandes desafios da sociedade brasileira contemporânea: evitar retrocessos democrÔticos e impedir que prÔticas políticas marcadas pela irracionalidade, pela desinformação e pela mobilização acrítica das massas se consolidem como forma de governo.

Em outras palavras, trata-se de enfrentar, com maturidade polĆ­tica e compromisso democrĆ”tico, o risco sempre presente daquilo que PolĆ­bio definiu como oclocracia — o governo dos piores.

As mais quentes do dia

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate pĆŗblico

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faƧa parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.