Curta potiguar usa cenário às margens da BR-101 para discutir a mentira e o cinema
“Se todo início é uma mentira, então, quando começar?” A pergunta abre caminho para “A Arte da Mentira”, curta-metragem que estreiou nesta última terça-feira (2). Além de apresentar um filme, o lançamento marca a chegada oficial do selo criativo potiguar ÁRSED, formado por jovens artistas que transitam entre cinema, moda, fotografia, teatro e artes visuais.
Escrito e dirigido por Joni Kleyson, de 23 anos, o curta parte de uma provocação simples e ao mesmo tempo inquietante: se toda obra nasce primeiro como imaginação, até que ponto criar não é também inventar? A partir dessa ideia, o filme investiga os mecanismos da própria linguagem cinematográfica, expondo ao público aquilo que normalmente permanece escondido atrás das câmeras.
A inspiração surgiu durante viagens pela BR-101, no trecho entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba. Chamado a atenção pelos extensos campos verdes às margens da estrada, Joni passou a enxergar na paisagem uma espécie de não-lugar, um espaço sem identidade definida, aberto a projeções e possibilidades. Foi nesse cenário, localizado em Extremoz, que o curta ganhou forma.
“O cinema é a arte da mentira. Por isso, juntei as duas coisas. O curta se passa num fundo verde, infinito, mas ali você vê toda a plasticidade, o set de madeira construído, o trilho da câmera, a interpretação dos atores. Queria saber o quão genuíno dá pra ser mentindo, e deixar na cara que estou mentindo”, explica o diretor.
Em vez de esconder os artifícios da produção, “A Arte da Mentira” os transforma em parte da narrativa. A câmera revela estruturas, cenários e mecanismos, evidenciando que toda imagem é construída. A proposta dialoga com uma tradição do cinema que volta o olhar para si mesmo, mas o faz a partir da sensibilidade e das inquietações de uma nova geração de realizadores potiguares.
O elenco reúne Uriel Diogo, Bruna Morais, Bibia e Andrxzim, responsáveis por dar vida ao roteiro. Nos bastidores, o filme também funciona como uma vitrine para talentos emergentes da cena artística local. As integrantes da Ársed BD, que assina a direção de arte e produção, Gabriela Cortez, responsável pelos figurinos, e Laís Ralline, na produção de set, também participam diretamente da construção do projeto. A direção de fotografia é assinada por Erick Farias e pelo próprio Joni Kleyson.
Segundo o diretor, o curta representa apenas o primeiro passo de um conjunto de trabalhos que vêm sendo desenvolvidos nos últimos meses. “Se todo início é uma mentira, talvez a única resposta possível seja começar mesmo assim. Talvez a hora seja agora”, afirma.
“A Arte da Mentira” apresenta ao público a proposta da Ársed. O selo nasce com o objetivo de desenvolver, produzir e circular projetos artísticos a partir do encontro entre diferentes linguagens e criadores, acompanhando processos que vão da concepção à realização. Entre o experimental e o comercial, a iniciativa aposta na colaboração como ferramenta para transformar ideias dispersas em obras concretas. Confira:
Ao escolher a mentira como tema inaugural, o coletivo parece sugerir que toda criação começa justamente onde a realidade ainda não existe. E que, antes de ganhar forma, toda arte é apenas uma possibilidade à espera de alguém disposto a acreditar nela.
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