Doutoranda da UFRN acusa universidade espanhola de copiar método de ensino
Natal, RN 17 de jun 2026

Doutoranda da UFRN acusa universidade espanhola de copiar método de ensino

17 de junho de 2026
7min
Doutoranda da UFRN acusa universidade espanhola de copiar método de ensino

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

A bióloga, mestre e doutoranda da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Gláucia Lidiane Silva, acusa a Universidad Miguel Hernández de Elche (UMH), na Espanha, de utilizar sem o devido crédito uma metodologia de ensino desenvolvida por ela e reconhecida internacionalmente. Conhecido como “Método Taylor Swift”, o trabalho utiliza músicas e videoclipes da cantora norte-americana para facilitar o ensino de botânica e foi apresentado em um dos principais eventos científicos da área antes de ser publicado em uma revista de alcance internacional.

A denúncia ganhou repercussão após a pesquisadora tornar público que pretende ingressar com uma ação judicial internacional contra a instituição espanhola e um professor vinculado à universidade. Segundo ela, a decisão foi tomada após meses de tentativas frustradas de resolver o caso por vias administrativas e acadêmicas. Para custear o processo, Gláucia iniciou uma campanha de arrecadação online e afirma precisar de aproximadamente R$ 30 mil para cobrir despesas jurídicas.

O método que está no centro da disputa começou a ser desenvolvido em 2020, durante a pandemia de Covid-19. Na época, Gláucia buscava formas de despertar o interesse dos estudantes por conteúdos de botânica, área que frequentemente enfrenta dificuldades para atrair a atenção dos alunos. Ao perceber que diversos videoclipes de Taylor Swift continham referências a plantas, florestas e outros elementos da natureza, ela passou a utilizar esse universo cultural como ferramenta pedagógica para aproximar os estudantes dos conceitos científicos.

A proposta consiste em analisar letras, imagens e metáforas presentes nas músicas da artista para discutir conteúdos relacionados aos diferentes grupos vegetais. Videoclipes como “Cardigan”, “Out of the Woods” e “Willow” são usados para introduzir temas ligados a briófitas, pteridófitas, gimnospermas e angiospermas. Além de facilitar a aprendizagem, a metodologia busca combater a chamada “impercepção botânica”, fenômeno descrito pela literatura científica que se refere à dificuldade das pessoas em perceber e valorizar as plantas presentes no ambiente ao seu redor.

O reconhecimento acadêmico veio em 2024, quando o trabalho foi selecionado entre mais de 1.500 propostas para uma apresentação oral durante o Congresso Internacional de Botânica, realizado em Madri. No ano seguinte, a pesquisa foi publicada na revista científica Annals of Botany, ligada à Universidade de Oxford e considerada uma das mais importantes da área. A partir daí, o método passou a ser conhecido por pesquisadores de diferentes países.

Segundo Gláucia, a suspeita de apropriação indevida surgiu no início deste ano, quando ela encontrou uma reportagem internacional divulgando um projeto desenvolvido na universidade espanhola. A notícia descrevia uma metodologia baseada em videoclipes de Taylor Swift para ensinar botânica, mas sem qualquer menção ao trabalho já publicado pela pesquisadora brasileira.

“Eu achei o capítulo dele no dia 1º de março, através de uma matéria no Eureka Alert. Nessa matéria, a pessoa de comunicações da universidade descreve o projeto do Joaquín e em nenhum momento aparece o meu nome. Aquilo ali me assustou porque ele estava usando os mesmos vídeos que eu uso, o mesmo método”, afirmou.

Após localizar o material completo, a pesquisadora diz ter identificado uma série de semelhanças entre as duas propostas. Segundo ela, além da utilização dos mesmos videoclipes para abordar os mesmos conteúdos, o autor espanhol apresenta a estratégia como uma criação inédita. “Quando eu li, fiquei muito indignada. Ele vai dizer que criou uma nova metodologia usando videoclipes da Taylor Swift e que estava apresentando uma metodologia inovadora. Outra coisa: ele não me cita em nenhum momento em materiais e métodos. Ele faz praticamente a mesma coisa que eu, usa os mesmos videoclipes para os mesmos conteúdos de botânica”, declarou.

Gláucia também afirma que dados produzidos por sua pesquisa teriam sido utilizados sem referência ao trabalho original. “Lá no final do artigo, ele usa dados do meu artigo de 2025 sem citar, que é a experiência da UFRN. Quando ele atribui o método a ele e a universidade divulga como se fosse uma criação dele na Espanha, isso para mim é uma apropriação de ideias”, disse.

A pesquisadora ressalta que não se opõe à utilização ou replicação da metodologia por outros cientistas. Segundo ela, a reprodução de métodos faz parte do próprio funcionamento da ciência. O problema, afirma, está na ausência de reconhecimento da autoria original. Na avaliação dela, o caso também levanta um debate mais amplo sobre o chamado extrativismo epistêmico, conceito utilizado para descrever situações em que conhecimentos produzidos por pesquisadores de países do Sul Global são apropriados por instituições de países mais ricos sem o devido crédito.

Antes de anunciar a intenção de recorrer à Justiça, Gláucia afirma ter buscado uma solução amigável. Ela entrou em contato diretamente com o professor espanhol, com o departamento ao qual ele está vinculado e com setores administrativos da universidade. Posteriormente, a própria UFRN passou a acompanhar o caso e encaminhou comunicações formais à instituição espanhola, ao pesquisador e à editora responsável pela publicação questionada.

“O estopim foi porque eu esgotei todas as vias institucionais possíveis. Em março eu entrei em contato com a UFRN, com o professor, com o departamento dele, com o pessoal de comunicações, eu não tive sucesso. Recentemente a UFRN entrou em contato com eles, o reitor da UFRN notificou o reitor da universidade espanhola, o professor e a editora, sem sucesso. Só me restou a via judicial”, afirmou.

Além das consequências acadêmicas, a pesquisadora relata que a situação trouxe impactos pessoais significativos. Segundo ela, os últimos meses foram marcados por desgaste emocional e profissional, agravados pelo fato de o projeto desenvolvido na Espanha ter recebido financiamento institucional.

“Isso está rolando desde 1º de março. Eu também fui prejudicada nessa situação fisicamente, emocionalmente e academicamente. O professor Joaquín recebeu um prêmio e foi financiado pela universidade com um projeto que não foi ele que criou. Ele ganhou dinheiro com algo que eu criei, e eu acho isso muito injusto”, declarou.

Em nota enviada à equipe de reportagem da Agência Saiba Mais, a UFRN informou que acompanha o caso por meio da Secretaria de Relações Internacionais (SRI) e confirmou que realizou contatos formais em busca de esclarecimentos. “A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) informa que analisou o caso, por meio da Secretaria de Relações Internacionais (SRI), juntamente à pesquisadora. Nesse sentido, em maio, a instituição de ensino enviou comunicado às entidades espanholas em busca de solucionar o ocorrido. Até o momento, a UFRN não recebeu retorno”, informou a universidade.

Até o fechamento desta reportagem, a Universidad Miguel Hernández de Elche não havia se manifestado sobre as acusações. Enquanto aguarda uma resposta formal da instituição espanhola, Gláucia segue mobilizando apoiadores para financiar a ação judicial que pretende mover no exterior, sustentando que o caso vai além de uma disputa individual e envolve o reconhecimento da produção científica desenvolvida por pesquisadores brasileiros em espaços acadêmicos internacionais.

SAIBA MAIS:
Pesquisa potiguar sobre Taylor Swift e botânica ganha repercussão internacional

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.