Na semana em que os festejos juninos se despedem da agenda do Nordeste brasileiro, e os sanfoneiros podem, enfim, descansar do peso do instrumento e contabilizar o apurado pelas tantas horas, dias e noites de abre e fecha do fole, confesso que senti falta de uma das marcas mais presentes em minha memória de menino: as fogueiras de Santo Antônio, São Pedro e São João.
Lembro das ruas embandeiradas, da criançada soltando traques e da competição entre os vizinhos para saber quem faria a fogueira mais alta ou aquela que permaneceria acesa por mais tempo, espantando os males que nos afligem desde os tempos ancestrais.
Era um tempo em que o coração festeiro que habita o peito de todos nós explodia de alegria.
Mas a modernidade apagou das ruas essa tradição, e as noites juninas ficaram mais frias e mais tristes, sobretudo para aqueles que não encontraram seu novo amor nas quadrilhas ingênuas que um dia dançamos.
Pelas fotos que vejo das festas, todos se vestem com o mesmo figurino, como se fossem cowboys de filme americano: camisa quadriculada, calça jeans, cintos de fivelões, saias de couro brilhante e chapéus de abas largas.
Nos palcos financiados com emendas milionárias, cantores de sucesso, com suas calças apertadas, enchem os bolsos com o dinheiro que deveria ir para quem faz forró de verdade e anima o povo nas ruas.
Neste ano, duas figuras presentes em qualquer playlist junina ficaram de fora de muitas festas. Santana, o Cantador, querido intérprete da alma e do cancioneiro nordestino, e Flávio José, sanfoneiro que conheço há anos — fui eu quem levou os LPs de Caboclo Sonhador para tocar nas rádios de Natal — ficaram sem se apresentar onde sempre foram atrações.
Outros artistas se submeteram a ocupar palcos menores ou a encerrar seus shows antes da hora porque um DJ paulista ou um cantor sertanejo — que só sobem ao palco com o dinheiro no bolso — precisavam antecipar suas apresentações para voar de volta ao Sudeste.
É mais uma festa que termina, e a saudade aumenta a cada ano, porque “aquele tempo em que o São João ainda era fogueira e o levantar da poeira do arrastado do chinelo do povo no chão” ficou apenas na lembrança da música Saudade de São João, de Maciel Melo, gravada por Félix Porfírio.
http://www.youtube.com/watch?v=Y2OTkxOglAM
Chora, coração…