Sebo Balalaika une literatura, arte e música na Cidade Alta em Natal
Chegando na Rua Vigário Bartolomeu, 565, na Cidade Alta, uma placa incomum recepciona os visitantes: “Aqui nasceu um sonho que se fez realidade. América Futebol Clube 1915-2015”. É lá, no endereço onde hoje funciona o Sebo Balalaika, que foi fundado um dos principais clubes desportivos do Rio Grande do Norte, há mais de um século. Hoje, o prédio é refúgio de músicos, artistas plásticos e leitores que vão ao sebo de Severino dos Ramos Duarte em busca de novas obras para suas coleções ou, simplesmente, uma boa prosa com o responsável pelo lugar.
O Balalaika não vende apenas livros. Logo na entrada, quadros dispostos pelas paredes mostram que o espaço também abriga uma galeria de arte. Aos fundos, onde antes funcionava um estúdio musical, hoje virou uma pequena loja de instrumentos, onde o cliente encontra violões, guitarras, contrabaixos… Ramos, como é mais conhecido o dono do Balalaika, reconhece a variedade que há no local.
“O meu sebo é um pouco misturado. Como eu convivi e convivo muito com artistas plásticos e músicos, eu vendo quadros e vendo instrumentos musicais”.
A relação do sebista com o universo literário começou cedo. Nascido no município de Espírito Santo, interior do estado, chegou a Natal com 3 anos e, já na infância, diz que conviveu com uma geração de músicos e artistas. Na idade adulta, trabalhou por 10 anos na Livraria Universitária, onde conviveu com intelectuais como Newton Navarro, Dorian Gray Caldas, Luís Carlos Guimarães, Sanderson Negreiros e uma meia dúzia de médicos que eram professores da Escola de Medicina.
“Esses médicos e intelectuais se encontravam semanalmente na Livraria Universitária. Depois que eu saí da livraria eu fui bancário por um tempo, mas eu vi que minha aptidão não era para banco”, reconhece.
Depois, ele mesmo decidiu empreender. Seu primeiro sebo foi em parceria com Abimael Silva (do atual Sebo Vermelho), numa cigarreira próxima ao Beco da Lama. A parceria durou pouco tempo e cada um decidiu ter seu próprio sebo. Ramos também foi um dos responsáveis pelo Espaço Cultural Jorge Fernandes, junto a outros sebistas, onde também funcionava um bar.

“Esse bar teve uma ascensão muito grande e estava ficando muito cansativo para mim, era muito frequentado”, lembra. Na época, um dos frequentadores era Carlos de Souza (1949-2019), o Carlão, jornalista e escritor potiguar reconhecido pelo trabalho de décadas na Tribuna do Norte. O bar foi vendido para o jornalista e Ramos ficou só com o sebo. Depois, o Espaço Cultural Jorge Fernandes também fechou as portas.
Já no atual endereço, o Balalaika funciona há 35 anos. O nome é uma homenagem a um poema de Vladimir Maiakovski, recordação de um tempo em que o sebista diz que lia muito a literatura russa. De um acervo que já chegou a 20 mil livros, hoje o local concentra cerca de oito mil.
Sábado de Ramos
O dono do Balalaika já realizou 10 feiras de sebo na Praça André de Albuquerque, em parceria com outros sebistas na produção. A feira reunia uma multiplicidade de atividades culturais, como folclore, música e palestras. Depois que os recursos para novas edições ficaram escassos, Ramos iniciou uma nova empreitada: o Sábado de Ramos, projeto em que homenageia escritores que foram destaque na poesia potiguar. A primeira edição ocorreu em 2013.
“E, na homenagem a esse poeta, eu contrato um ator para recitar os poemas do poeta e faço um mural com os poemas. Porém, de manhã eu boto folclore, um bumba meu boi, violeiros, no meio-dia eu costumo botar um chorinho, à tarde MPB”, conta.
O projeto resiste até hoje e terá sua próxima edição neste mês. Os futuros homenageados já estão definidos: José Bezerra Gomes, Ferreira Itajubá, Othoniel Menezes e Palmyra Wanderley.
“São quatro edições de quatro homenagens, com o mesmo perfil: recital da poesia do poeta homenageado, um mural com os poemas para que leiam, e a música local, de músicos potiguares”, explica.
Para quem já viu e viveu de tudo pelo Centro Histórico de Natal, Ramos reconhece que hoje a realidade do comércio na Cidade Alta está mais difícil.
“A gente não está conseguindo vender o que vendia antes, de forma alguma. Eu sobrevivo mais porque eu trabalho com produção cultural, faço show de artistas, faço feiras de arte, e na parte comercial mesmo acho que foi reduzido em 70% a parte de vendas”, diz.
Ainda assim, Severino dos Ramos Duarte não pensa, jamais, em parar com o Balalaika.
“Nunca vou parar com o sebo, não, porque é um sustentáculo para mim. Eu faço as duas coisas, eu sou produtor e comerciante”. Recentemente, o Balalaika foi classificado pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura; o certificado deve ser recebido também neste mês.