Corpos dissidentes inspiram projeto fotográfico que percorre Acari, Natal e Mossoró
Natal, RN 1 de jul 2026

Corpos dissidentes inspiram projeto fotográfico que percorre Acari, Natal e Mossoró

1 de julho de 2026
8min
Corpos dissidentes inspiram projeto fotográfico que percorre Acari, Natal e Mossoró

Ajude o Portal Saiba Mais a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Uma travesti desfila entre as paisagens áridas do Seridó. Na Ribeira, integrantes de uma casa Ballroom ocupam a noite com figurinos criados por eles mesmos, transformando a rua em passarela. Em Mossoró, um corpo dança pelas vias da cidade carregando memórias, afetos e a presença de outras travestis que ajudaram a construir caminhos antes dela. Embora tenham surgido em contextos distintos, essas imagens compartilham uma mesma intenção, a de reivindicar espaço, existência e autonomia sobre as próprias narrativas.

Essas cenas integram “Desviação”, projeto do fotógrafo potiguar Zé Lucas que reúne três ensaios fotoperformáticos criados em diferentes regiões do Rio Grande do Norte a partir de experiências ligadas à identidade, ao pertencimento e à dissidência.

Contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o projeto nasceu da pesquisa que o artista desenvolve sobre fotografia, performance e autoinscrição do corpo. A ideia, segundo ele, era construir um trabalho que ultrapassasse os limites da capital e promovesse conexões entre diferentes territórios do estado. “Por se tratar de um edital estadual, eu queria ampliar o alcance territorial do projeto e promover um intercâmbio cultural entre diferentes localidades”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais.

A escolha das cidades também dialoga com trajetórias pessoais e artísticas do fotógrafo. Acari, sua cidade natal, foi incluída pela importância afetiva, mas também pelo desejo de desenvolver ações culturais em um contexto marcado pelo avanço do conservadorismo e pela permanência de diferentes formas de preconceito. Natal surgiu da aproximação com a cultura Ballroom, que vem fortalecendo sua presença na cena cultural potiguar por meio de oficinas, treinos e eventos. Já Mossoró foi incorporada ao projeto pela relação da cidade com a linguagem da performance e pelos vínculos construídos por Zé Lucas com artistas locais ao longo dos últimos anos.

O primeiro ensaio, “Ímpetofluxo”, foi realizado em Acari com a performer Vera 007. As fotografias aproximam a estética da categoria Runway, uma das especialidades da artista na cultura Ballroom, das paisagens naturais do município. O contraste entre o Açude Gargalheiras, um dos principais cartões-postais da região, e o desfile pelas ruas da cidade se tornou um dos elementos centrais do trabalho.

“Eu e Vera somos de Acari. Quando conversamos sobre a concepção do ensaio, falei que gostaria de fazer as fotos nas paisagens naturais da cidade. Construímos esse contraste entre a paisagem natural do Açude Gargalheiras e o desfile pelas ruas do centro, colocando em diálogo esses dois universos”, explica o fotógrafo.

Em Natal, o ensaio “FashionKilla” coloca em evidência a potência estética e política da cultura Ballroom. Produzidas durante a noite na Rua Chile, no bairro da Ribeira, as imagens reúnem integrantes da Casa de Acúenda, uma das referências da cena local. Participam do trabalho Vitória Um Milhão de Acúenda, Jai de Acúenda, Jan de Acúenda e Maria de Acúenda, que também assinam a criação dos figurinos utilizados nas fotografias.

Inspirado na categoria Fashion Killa, conhecida por valorizar criatividade, atitude e referências à alta-costura, o ensaio explora acessórios pontiagudos, poses marcantes e uma ocupação intensa do espaço urbano. Para Zé Lucas, o resultado sintetiza a força da presença daqueles corpos. “Acho que o ensaio traduz muito bem essa ideia do ‘killa’: alguém que é fatal pela estética, que atravessa o olhar do outro pela intensidade da sua presença. Isso aparece no uso de acessórios pontiagudos, facas estilizadas e poses que lembram golpes ou ataques, criando uma atmosfera de força, elegância e confronto.”

O terceiro trabalho, “Rainha dos Cafonas”, foi desenvolvido em Mossoró com a performer Yris Costa. Diferentemente dos outros ensaios, o conceito surgiu a partir de reflexões que a artista vinha desenvolvendo em sua trajetória. Uma das inspirações veio de uma oficina ministrada pela dramaturga e diretora teatral Ave Terrena, que propôs aos participantes uma pergunta simples e profunda: qual é a primeira lembrança de uma pessoa trans?

A resposta encontrada por Yris levou à memória de Bia Beatriz, artista e travesti mossoroense cuja trajetória passou a influenciar a construção das imagens. A partir desse encontro entre memória, afeto e criação artística, surgiu uma narrativa visual marcada pela liberdade de movimento e pela reivindicação de presença. “As fotoperformances nasceram do atravessamento entre as trajetórias de Yris e de Bia Beatriz para construir uma narrativa visual que reivindica a presença de corpos dissidentes como protagonistas de suas próprias histórias”, explica Zé Lucas.

Embora cada ensaio tenha sido construído a partir de experiências distintas, todos compartilham uma mesma reflexão sobre deslocamento e transformação. Curiosamente, o conceito que dá nome ao projeto só surgiu depois que as fotografias estavam prontas. Durante o processo de curadoria, o fotógrafo percebeu que as imagens eram atravessadas por ideias de errância, insurgência, desobediência e dissidência.

“Desviar, aqui, é um verbo em estado de urgência performativa. É produzir deslocamentos. É expandir as possibilidades de ser e de estar no mundo. É compreender o corpo como um manifesto vivo e como um espaço de resistência”, define.

A construção dos ensaios ocorreu de forma coletiva. Segundo o artista, performers e equipe participaram de todas as etapas do processo, desde a concepção das imagens até a escolha dos figurinos, acessórios, cenários e fotografias que integrariam o resultado final. As experiências pessoais de cada participante também foram incorporadas à criação.

“Cada fotoperformance foi pensada a partir da relação com a cidade onde as fotografias foram realizadas e das vivências pessoais de cada participante. Seja a relação com a cultura Ballroom, as pesquisas acadêmicas, os atravessamentos pessoais ou as preferências estéticas, tudo foi incorporado ao processo de criação”, afirma.

A proposta dialoga diretamente com o conceito de autoinscrição do corpo, tema que acompanha a trajetória artística e acadêmica de Zé Lucas e que também é objeto de sua pesquisa de mestrado em Artes Cênicas. Para ele, a fotografia pode funcionar como uma ferramenta capaz de devolver às pessoas o controle sobre a própria representação.

“Ela possibilita que as pessoas assumam o controle sobre como desejam ser vistas, representadas e lembradas por meio das imagens que produzem”, afirma. Segundo o fotógrafo, essas produções não se limitam à criação de novos retratos. Elas também questionam formas históricas de visibilidade marcadas por lógicas coloniais, disciplinadoras e classificatórias.

Ao falar sobre o impacto que espera provocar no público, Zé Lucas destaca a importância de ampliar os repertórios sobre as experiências LGBTQIAPN+. “Espero que essas imagens provoquem o público a pensar nas infinitas possibilidades de narrativas que os corpos LGBTQIAPN+ podem contar.”

Fotografando desde muito jovem e atuando profissionalmente há cerca de quatro anos, o artista divide seu trabalho entre coberturas culturais e projetos autorais ligados à performance, ao autorretrato e às questões de gênero e sexualidade. Entre suas produções recentes estão “Quanta violência uma cidade tão pequena suporta?” e “Travessia: quanta violência cabe em uma cidade?”, desenvolvidas com o coletivo Eskambau para denunciar a violência doméstica e o feminicídio.

Ao refletir sobre o papel da fotografia, Zé Lucas recorre a uma frase da cantora e artista Jup do Bairro. “Eu preciso acreditar que a vida é fabulosa.” Para ele, é justamente essa percepção que orienta seu olhar. “Fotografar, para mim, é perceber as coisas com poesia. Entendo a poesia como um modo de elaborar sentidos a partir da experiência.” Em “Desviação”, essa poesia se manifesta em imagens que celebram a imaginação, os afetos e a potência criativa de corpos que durante muito tempo foram empurrados para as margens.

SERVIÇO
Abertura: 6 de julho, às 19h
Período de visitação: de 6 a 17 de julho
Local: Galeria Laboratório do Departamento de Artes (Deart/UFRN)

SAIBA MAIS:
Fotografia, memória e o pálido ponto azul
Ballroom: entenda como a comunidade cresceu no RN

Apoiar Saiba Mais

Pra quem deseja ajudar a fortalecer o debate público

QR Code

Ajude-nos a continuar produzindo jornalismo independente! Apoie com qualquer valor e faça parte dessa iniciativa.

Quero Apoiar

Este site utiliza cookies e solicita seus dados pessoais para melhorar sua experiência de navegação.