Até poucos anos atrás, a presença de uma travesti no Congresso Nacional era uma hipótese distante para a política brasileira. Hoje, a discussão já não gira apenas em torno da possibilidade de eleger uma parlamentar trans, mas da construção de uma bancada capaz de atuar de forma articulada em Brasília. Em diferentes estados, pré-candidaturas começam a se consolidar em torno desse objetivo comum, reunindo mulheres trans e travestis de partidos distintos que compartilham a ideia de ampliar a diversidade da representação política brasileira. No Rio Grande do Norte, uma das protagonistas desse movimento é Thabatta Pimenta (PV), primeira mulher trans eleita vereadora no estado e agora pré-candidata à Câmara dos Deputados.
Para Thabatta, a construção dessa representação passa justamente pela superação da ideia de que pessoas trans chegam à política apenas para tratar de questões relacionadas à identidade de gênero. Sua trajetória, afirma, nasceu em outro lugar: da experiência cotidiana como mãe atípica e da convivência direta com os desafios enfrentados por famílias de pessoas com deficiência, especialmente nos pequenos municípios do interior nordestino. É essa vivência que pretende levar ao Congresso caso seja eleita.
“Uma coisa que eu não abro mão é reafirmar o que o Brasil precisa pautar em relação às famílias atípicas, às mães atípicas. Eu digo muito que nós, mães atípicas, somos as barbiprofissões, porque temos que ser cuidadoras, professoras, médicas. Muitas deixam suas profissões para viver integralmente essa maternidade, e até hoje o Congresso não fez um debate amplo sobre um auxílio legítimo para essas mulheres”, afirma em entrevista à Agência Saiba Mais.
Natural de Carnaúba dos Dantas, no Seridó potiguar, Thabatta diz que sua origem determina a forma como enxerga a política pública. Ao falar das famílias atípicas, ela faz questão de deslocar o olhar para além dos grandes centros urbanos. Lembra das mães que vivem na zona rural, das dificuldades de acesso aos serviços públicos e da ausência do Estado em localidades onde a sobrecarga do cuidado costuma recair exclusivamente sobre as mulheres.
“Imaginem a primeira desconstrução: uma travesti nordestina chegando ao Congresso e indo direto para a Comissão da Pessoa com Deficiência. Eu sei o que passam essas mães no interior, sei o que é viver essa realidade. Essa voz precisa chegar ao Parlamento porque só sabe quem passa por isso.”
A candidatura também representa, para ela, uma ruptura simbólica. Antes de disputar uma vaga na Câmara Federal, Thabatta já havia quebrado outro paradigma ao se tornar a primeira mulher trans eleita vereadora no Rio Grande do Norte — não em Natal, mas em Caicó, município do interior. Agora, pesquisas eleitorais divulgadas no estado a colocam entre os nomes competitivos para a disputa federal, cenário que ela interpreta como uma resposta da sociedade aos preconceitos historicamente dirigidos às pessoas trans.
“O Rio Grande do Norte está dizendo que sim, uma travesti pode sonhar com esse espaço. As minhas eleições sempre responderam aos preconceitos contra a população LGBT, mas também contra as famílias atípicas, as pessoas com deficiência, os nordestinos. Quando estou em espaços nacionais faço questão de manter meu sotaque, de dizer de onde venho e do orgulho que tenho das minhas origens.”
Embora sua candidatura seja marcada por pautas específicas, Thabatta faz questão de inseri-la em um movimento político mais amplo que vem sendo costurado nacionalmente. A eleição de Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG), em 2022, inaugurou uma nova etapa da representação trans na política institucional brasileira. Desde então, lideranças de diferentes estados passaram a articular novas candidaturas para ampliar essa presença no Congresso Nacional. A expectativa de movimentos LGBTQIA+ é que as eleições de 2026 possam resultar na maior representação trans já registrada na Câmara dos Deputados.
Entre os nomes que despontam nesse cenário estão Benny Briolly, no Rio de Janeiro; Linda Brasil, em Sergipe; Robeyoncé Lima, em Pernambuco; Gabi Benvenutty, na Paraíba; Filipa Brunelli, em São Paulo; Atena Beauvoir e Natasha Ferreira, no Rio Grande do Sul, além das próprias Erika Hilton e Duda Salabert, que devem disputar a reeleição. Embora pertençam a partidos distintos e defendam agendas próprias, essas lideranças compartilham a percepção de que ampliar a presença de pessoas trans nos espaços de decisão é uma estratégia para democratizar o Parlamento e romper com a histórica exclusão dessa população da política institucional.
Na Paraíba, por exemplo, a pré-candidata Gabi Benvenutty voltou ao centro do debate nacional após denunciar um episódio de transfobia durante uma conferência ligada ao próprio campo progressista. Tratada por pronomes masculinos por um organizador do evento, interrompeu a fala para exigir respeito: “Eu sou uma travesti. Me trate no feminino.” A repercussão levou o Partido dos Trabalhadores da Paraíba a divulgar uma nota oficial repudiando o episódio e reafirmando o compromisso da legenda com o combate à transfobia. O caso expôs que, mesmo em ambientes considerados aliados, pessoas trans ainda enfrentam disputas cotidianas por reconhecimento e legitimidade.
Para Thabatta, essas experiências ajudam a explicar por que a formação de uma bancada trans possui um significado que ultrapassa a representatividade simbólica. Segundo ela, quando parlamentares trans ocupam espaços institucionais, também transformam a percepção social sobre quais corpos podem exercer o poder e quais temas podem ser tratados por essas lideranças.
“Esse movimento acontece junto com Erika Hilton, Duda Salabert, Benny Briolly e várias lideranças trans do país inteiro. A gente quer uma pluralidade maior no Congresso Nacional. As pessoas ainda insistem em dizer que nossa luta é apenas pela pauta LGBT, mas nós defendemos educação, saúde, assistência social, cultura, pessoas com deficiência. Somos um corpo político, mas governamos para toda a sociedade.”
Ao olhar para a própria trajetória, Thabatta resume o sentido dessa disputa em uma frase que se repete ao longo da entrevista e sintetiza o momento vivido por diversas candidaturas trans espalhadas pelo país: “A gente não quer ser apenas as primeiras. A gente quer muitas de nós nesses lugares.” Se as urnas confirmarão essa expectativa, ainda é cedo para afirmar. O que já parece consolidado, porém, é que a política brasileira presencia uma articulação inédita entre mulheres trans e travestis de diferentes regiões, que pretendem chegar a Brasília não como exceções, mas como parte de uma geração que reivindica ocupar, de forma permanente, os espaços de decisão do país.
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