RN inicia formação de profissionais do SUS para ampliar acesso à cannabis medicinal
O debate sobre a cannabis medicinal no Rio Grande do Norte deixou o campo da proposta e avançou para uma nova etapa: a preparação dos profissionais que estarão na linha de cuidado dos pacientes. Médicos, enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, assistentes sociais e farmacêuticos da rede pública estadual começaram a ser incluídos em uma formação voltada ao uso terapêutico dos canabinoides no Sistema Único de Saúde (SUS).
A Capacitação de Profissionais da Saúde em Endocanabinologia e Aplicações Médicas de Canabinoides foi lançada na sexta-feira (3), na Escola de Saúde Pública do Rio Grande do Norte (ESPRN), em Natal. O curso é desenvolvido pela Associação Reconstruir Cannabis Medicinal (ARCM), em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap-RN), a ESPRN e o mandato da deputada estadual Isolda Dantas, responsável pela emenda parlamentar que viabilizou a iniciativa.
A formação é uma das etapas previstas na Lei Estadual nº 11.055/2022, que estabeleceu diretrizes para pesquisa, capacitação de profissionais, disseminação de informações e acesso a produtos derivados da cannabis na rede pública estadual. A expectativa dos organizadores é que o preparo técnico da rede seja um passo necessário para ampliar a discussão sobre a incorporação desse tipo de tratamento pelo SUS no estado.
“Não existe acesso sem profissional preparado, e não existe profissional preparado sem enfrentarmos o preconceito com ciência. É isso que esse evento representa: o Rio Grande do Norte escolheu cuidar de quem cuida, para que nenhum paciente fique sem o tratamento de que precisa”, afirmou Felipe Farias, presidente da Associação Reconstruir Cannabis Medicinal.
Da demanda das famílias à formação da rede pública
A capacitação responde a uma demanda que vem sendo apresentada por pacientes e familiares que buscam tratamentos à base de cannabis e encontram dificuldades para localizar profissionais habilitados a orientar o uso terapêutico.
Para a advogada e diretora da Associação Reconstruir, Carla Coutinho, a formação representa a continuidade de uma mobilização iniciada com a aprovação da legislação estadual.
“Esse curso nasce de uma demanda das famílias, que sempre procuram tratamento à base de cannabis. Agora conseguimos, de fato, capacitar o profissional de saúde”, afirmou durante o lançamento.
Segundo dados apresentados pela associação durante o evento, o Brasil ultrapassou, em 2025, a marca de 873 mil pacientes em tratamento com cannabis medicinal. O levantamento também aponta que entre 5,9 mil e 15,1 mil profissionais de saúde prescrevem a terapêutica mensalmente no país.
Ainda de acordo com as informações apresentadas pela entidade, desde 2015 os gastos públicos com fornecimento de produtos à base de cannabis somam pelo menos R$ 378 milhões, enquanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) recebeu 978 pedidos relacionados ao tema desde 2013.
Formação baseada em evidências científicas
O curso terá aulas em plataforma de ensino a partir de outubro e deve beneficiar 500 profissionais do SUS. A formação reúne conteúdos sobre história da cannabis, processo de proibição, legislação, sistema endocanabinoide, farmacocinética dos fitocanabinoides e aplicações clínicas em diferentes áreas da saúde.
A programação inclui temas relacionados à neurologia, psiquiatria, reumatologia, endocrinologia, oncologia, odontologia e enfermagem. Entre os integrantes do corpo docente está o neurocientista Sidarta Ribeiro. Segundo a organização, o conteúdo será baseado em pesquisas com maior nível de evidência científica, como ensaios clínicos, revisões sistemáticas e meta-análises.
Uma nota técnica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), citada no material da formação, aponta evidências sobre segurança e eficácia dos canabinoides em condições como dor crônica, epilepsia refratária, espasticidade, náuseas e vômitos associados à quimioterapia e alguns transtornos neuropsiquiátricos.
A farmacêutica Larissa Pereira, representante da Farmácia Viva — iniciativa da Sesap em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) — destacou que a capacitação também dialoga com o avanço das políticas de fitoterapia no SUS.
“Esse curso traz a oportunidade de os profissionais de saúde entenderem mais sobre a cannabis medicinal e os endocanabinoides. Ele também destaca a importância da fitoterapia no SUS”, afirmou.
Atendimento a pacientes e interiorização do debate
Além da formação dos profissionais, o projeto prevê tratamento gratuito com produtos à base de cannabis para 42 pacientes durante dois anos. A iniciativa também inclui atividades de divulgação e discussão em municípios do interior, com seminários previstos em Ceará-Mirim, Currais Novos, Mossoró e Assú, além de um encontro em Natal.
A médica Emanuella Renata, que participou do lançamento representando profissionais de Santana do Seridó, afirma que a capacitação pode ampliar a capacidade de atendimento da rede pública.
“Essa capacitação vai ser importante não só para a nossa formação e autonomia no atendimento ao paciente. Nós vamos ser porta de acesso quando essa medicação estiver disponível no SUS”, declarou.
O desafio colocado agora para o Rio Grande do Norte é transformar a formação técnica em uma política permanente de cuidado, com profissionais preparados, acompanhamento adequado e discussão sobre como garantir que pacientes tenham acesso ao tratamento dentro da rede pública.
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