Museu Quilombola preserva memórias de comunidade no interior do RN
Natal, RN 12 de jul 2026

Museu Quilombola preserva memórias de comunidade no interior do RN

12 de julho de 2026
6min
Museu Quilombola preserva memórias de comunidade no interior do RN
Museu Quilombola Gídeo Véio fica localizado na comunidade Gameleira, município de São Tomé - Foto: Acervo do MQGV

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No município de São Tomé, interior do Rio Grande do Norte, o Museu Quilombola Gídeo Véio atua para preservar a história da comunidade Gameleira e garantir que os conhecimentos dos seus ancestrais continuem sendo transmitidos para as novas gerações. O museu nasceu a partir da atuação de Maria Lúcia Nascimento, pedagoga e assistente social que é bisneta de Gídeo Véio.

“Gídeo Véio foi uma das figuras fundamentais na formação da nossa comunidade. Ele representa a resistência, a ancestralidade e a luta do povo negro pela construção de um território de pertencimento”, conta Lúcia, sobre a memória do seu bisavô.

“Ele era um homem negro, descendente africano e ex-escravizado, que chegou ao território do Olho D’água em busca de liberdade e refúgio, construindo sua história junto com outros povos que já habitavam aquele espaço”, afirma.

O projeto do Museu Quilombola começou a ser pensado em 2015, inicialmente como uma pesquisa para conclusão dos dois cursos que Lúcia fazia: Pedagogia e Serviço Social. A partir das pesquisas realizadas na comunidade, principalmente com os moradores mais antigos, utilizando a oralidade como principal fonte de conhecimento, ela diz que percebeu a necessidade da criação de um espaço de memória dentro do próprio território. 

A pesquisa também contou com o embasamento teórico do trabalho desenvolvido anteriormente pelo professor Flávio Ferreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em sua pesquisa de mestrado em Antropologia realizada na comunidade Gameleira. O estudo contribuiu para identificar a comunidade como um povo tradicional e fortaleceu o processo de reconhecimento quilombola. 

“A partir dessas pesquisas, das memórias compartilhadas pelos moradores e das parcerias construídas com a comunidade e instituições apoiadoras, surgiu a necessidade de criar um espaço destinado à salvaguarda das nossas histórias, memórias e raízes ancestrais”, diz Maria Lúcia.

Um decreto municipal da Prefeitura de São Tomé, em 2016, criou oficialmente o museu. Na ocasião, o espaço também foi pensado como parte de uma rota turística, ambiental e cultural para o Rio Grande do Norte, com o objetivo de salvaguardar o patrimônio material e imaterial do povo negro, valorizar a memória, a ancestralidade e os saberes tradicionais da comunidade. 

“A proposta buscava instituir uma rota de turismo cultural, museológico, geográfico e arqueológico, promovendo o reconhecimento do território quilombola Gameleira como espaço de preservação histórica, cultural e de fortalecimento da identidade negra no estado”, afirma a pedagoga e assistente social.

Preservação

O Museu Quilombola Gídeo Véio preserva objetos, documentos, fotografias, histórias e memórias que representam a trajetória da comunidade Gameleira e das famílias que construíram esse território. 

Mais do que guardar objetos materiais, conta a bisneta de Gídeo Véio, o local preserva uma memória viva dos seus antepassados, principalmente por meio da oralidade dos moradores mais antigos, que guardam conhecimentos sobre costumes, tradições, modos de vida, relação com a terra e nossa ancestralidade. 

“O visitante encontra no museu a história da formação da comunidade, marcada pelo encontro de duas importantes raízes: a presença indígena do Olho D’água e a chegada de Gídeo Véio, homem negro, descendente africano e ex-escravizado, que chegou ao território em busca de liberdade e refúgio, passando a conviver nesse mesmo espaço e tornando-se um dos primeiros habitantes da nossa comunidade quilombola”, aponta.

O Museu é mantido por meio do compromisso da própria comunidade em preservar sua história, contando também com parcerias, apoios institucionais e ações culturais e educativas. 

As visitas são realizadas mediante agendamento prévio, através do Instagram oficial do museu: @museugideoveio

Reconhecimento

A Comunidade Quilombola da Serra da Gameleira engloba as localidades de Gameleira de Baixo e Gameleira de Cima, ambas no município de São Tomé. A Gameleira de Baixo é composta por aproximadamente 135 famílias, considerando uma estimativa, pois ainda não foi realizado um mapeamento atualizado de todo o território. O Museu Quilombola Gídeo Véio possui, inclusive, um projeto voltado para o mapeamento das famílias da comunidade, com o objetivo de fortalecer o registro da memória, da história e da organização social do território. 

Já a localidade de Gameleira de Cima ainda não possui um levantamento populacional concluído, principalmente em razão das questões relacionadas à delimitação e ocupação territorial, explica Maria Lúcia Nascimento. 

Maria Lúcia Nascimento é pedagoga e assistente social, além de fundadora do Museu Quilombola Gídeo Véio – Foto: Acervo do MQGV

“Trata-se de um território marcado por diferentes processos históricos de ocupação, que remontam à presença indígena na região e, posteriormente, à formação do território quilombola a partir da chegada de Gídeo Véio e da construção das relações comunitárias que deram origem à identidade quilombola da Serra da Gameleira.”

Em 2009, a comunidade de Gameleira recebeu a certidão de comunidade quilombola emitida pela Fundação Cultural Palmares. “Foi um momento muito importante para a Gameleira, pois trouxe visibilidade para nossa história e fortaleceu nossa identidade enquanto povo tradicional”, conta Nascimento.

De acordo com a responsável pelo museu, esse reconhecimento possibilitou que a comunidade passasse a acessar políticas públicas específicas, além de fortalecer a luta pela preservação da cultura, da memória e dos direitos quilombolas. 

“Também trouxe um sentimento maior de pertencimento, pois reafirmou aquilo que nossos antepassados já sabiam: temos uma história própria, construída através da resistência, da ancestralidade e da nossa relação com o território”, destaca.

A oralidade é uma marca forte do museu. Maria Lúcia diz que muitas das histórias da comunidade permanecem apenas na memória dos moradores mais antigos, por isso defende a importância de registrar, valorizar e criar espaços como o Museu Quilombola Gídeo Véio. 

“Outro desafio é manter ações permanentes de preservação cultural, garantindo apoio, recursos e políticas públicas que reconheçam a importância dos territórios quilombolas e de suas memórias. O Museu é uma ferramenta de resistência, porque preservar nossa história é também preservar nossa identidade e nossa existência enquanto comunidade quilombola”, aponta.

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