Museu Quilombola preserva memórias de comunidade no interior do RN
No município de São Tomé, interior do Rio Grande do Norte, o Museu Quilombola Gídeo Véio atua para preservar a história da comunidade Gameleira e garantir que os conhecimentos dos seus ancestrais continuem sendo transmitidos para as novas gerações. O museu nasceu a partir da atuação de Maria Lúcia Nascimento, pedagoga e assistente social que é bisneta de Gídeo Véio.
“Gídeo Véio foi uma das figuras fundamentais na formação da nossa comunidade. Ele representa a resistência, a ancestralidade e a luta do povo negro pela construção de um território de pertencimento”, conta Lúcia, sobre a memória do seu bisavô.
“Ele era um homem negro, descendente africano e ex-escravizado, que chegou ao território do Olho D’água em busca de liberdade e refúgio, construindo sua história junto com outros povos que já habitavam aquele espaço”, afirma.
O projeto do Museu Quilombola começou a ser pensado em 2015, inicialmente como uma pesquisa para conclusão dos dois cursos que Lúcia fazia: Pedagogia e Serviço Social. A partir das pesquisas realizadas na comunidade, principalmente com os moradores mais antigos, utilizando a oralidade como principal fonte de conhecimento, ela diz que percebeu a necessidade da criação de um espaço de memória dentro do próprio território.
A pesquisa também contou com o embasamento teórico do trabalho desenvolvido anteriormente pelo professor Flávio Ferreira, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em sua pesquisa de mestrado em Antropologia realizada na comunidade Gameleira. O estudo contribuiu para identificar a comunidade como um povo tradicional e fortaleceu o processo de reconhecimento quilombola.
“A partir dessas pesquisas, das memórias compartilhadas pelos moradores e das parcerias construídas com a comunidade e instituições apoiadoras, surgiu a necessidade de criar um espaço destinado à salvaguarda das nossas histórias, memórias e raízes ancestrais”, diz Maria Lúcia.
Um decreto municipal da Prefeitura de São Tomé, em 2016, criou oficialmente o museu. Na ocasião, o espaço também foi pensado como parte de uma rota turística, ambiental e cultural para o Rio Grande do Norte, com o objetivo de salvaguardar o patrimônio material e imaterial do povo negro, valorizar a memória, a ancestralidade e os saberes tradicionais da comunidade.
“A proposta buscava instituir uma rota de turismo cultural, museológico, geográfico e arqueológico, promovendo o reconhecimento do território quilombola Gameleira como espaço de preservação histórica, cultural e de fortalecimento da identidade negra no estado”, afirma a pedagoga e assistente social.
Preservação
O Museu Quilombola Gídeo Véio preserva objetos, documentos, fotografias, histórias e memórias que representam a trajetória da comunidade Gameleira e das famílias que construíram esse território.
Mais do que guardar objetos materiais, conta a bisneta de Gídeo Véio, o local preserva uma memória viva dos seus antepassados, principalmente por meio da oralidade dos moradores mais antigos, que guardam conhecimentos sobre costumes, tradições, modos de vida, relação com a terra e nossa ancestralidade.
“O visitante encontra no museu a história da formação da comunidade, marcada pelo encontro de duas importantes raízes: a presença indígena do Olho D’água e a chegada de Gídeo Véio, homem negro, descendente africano e ex-escravizado, que chegou ao território em busca de liberdade e refúgio, passando a conviver nesse mesmo espaço e tornando-se um dos primeiros habitantes da nossa comunidade quilombola”, aponta.
O Museu é mantido por meio do compromisso da própria comunidade em preservar sua história, contando também com parcerias, apoios institucionais e ações culturais e educativas.
As visitas são realizadas mediante agendamento prévio, através do Instagram oficial do museu: @museugideoveio.
Reconhecimento
A Comunidade Quilombola da Serra da Gameleira engloba as localidades de Gameleira de Baixo e Gameleira de Cima, ambas no município de São Tomé. A Gameleira de Baixo é composta por aproximadamente 135 famílias, considerando uma estimativa, pois ainda não foi realizado um mapeamento atualizado de todo o território. O Museu Quilombola Gídeo Véio possui, inclusive, um projeto voltado para o mapeamento das famílias da comunidade, com o objetivo de fortalecer o registro da memória, da história e da organização social do território.
Já a localidade de Gameleira de Cima ainda não possui um levantamento populacional concluído, principalmente em razão das questões relacionadas à delimitação e ocupação territorial, explica Maria Lúcia Nascimento.

“Trata-se de um território marcado por diferentes processos históricos de ocupação, que remontam à presença indígena na região e, posteriormente, à formação do território quilombola a partir da chegada de Gídeo Véio e da construção das relações comunitárias que deram origem à identidade quilombola da Serra da Gameleira.”
Em 2009, a comunidade de Gameleira recebeu a certidão de comunidade quilombola emitida pela Fundação Cultural Palmares. “Foi um momento muito importante para a Gameleira, pois trouxe visibilidade para nossa história e fortaleceu nossa identidade enquanto povo tradicional”, conta Nascimento.
De acordo com a responsável pelo museu, esse reconhecimento possibilitou que a comunidade passasse a acessar políticas públicas específicas, além de fortalecer a luta pela preservação da cultura, da memória e dos direitos quilombolas.
“Também trouxe um sentimento maior de pertencimento, pois reafirmou aquilo que nossos antepassados já sabiam: temos uma história própria, construída através da resistência, da ancestralidade e da nossa relação com o território”, destaca.
A oralidade é uma marca forte do museu. Maria Lúcia diz que muitas das histórias da comunidade permanecem apenas na memória dos moradores mais antigos, por isso defende a importância de registrar, valorizar e criar espaços como o Museu Quilombola Gídeo Véio.
“Outro desafio é manter ações permanentes de preservação cultural, garantindo apoio, recursos e políticas públicas que reconheçam a importância dos territórios quilombolas e de suas memórias. O Museu é uma ferramenta de resistência, porque preservar nossa história é também preservar nossa identidade e nossa existência enquanto comunidade quilombola”, aponta.