O fetiche
Natal, RN 11 de jul 2026

O fetiche

11 de julho de 2026
5min
O fetiche

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Há quem diga que o desejo é cego. Discordo. O desejo enxerga muito bem; o problema é que, às vezes, finge miopia quando chega a hora de assumir aquilo que vê e quer.

Hoje resolvi falar de um assunto que costuma ser empurrado para debaixo do tapete, como se seu sumisso tivesse o poder de absolver as contradições humanas. Não tem. A invisibilidade apenas muda o endereço da hipocrisia.

Existe uma curiosa categoria de homens que passa boa parte da vida defendendo a família tradicional, a masculinidade inabalável e uma moral de porcelana, dessas que racham ao menor toque da realidade. São os autoproclamados “cidadãos de bem”.

Durante o dia, condenam Travestis nas redes sociais, repetem piadas requentadas, defendem projetos de lei contra pessoas Trans e juram que a sociedade acabará se uma mulher Trans usar o banheiro feminino. À noite, porém, a cruz que carregam no peito parece pesar menos que o histórico de pesquisas do navegador.

É curioso como a masculinidade de alguns funciona como um condomínio fechado: o discurso mora na fachada, mas o desejo entra pela garagem.

Boa parte desse fascínio nasce de uma operação mental engenhosa. Para preservar intacta a própria identidade de “homem hétero”, esses sujeitos não enxergam Travestis e mulheres Trans como mulheres. Reescrevem nossa existência conforme a conveniência do próprio imaginário. Transformam-nos em personagens de um roteiro particular, em que nossa identidade deixa de importar para dar lugar à fantasia que construíram. Não desejam pessoas; desejam ficções cuidadosamente editadas para que o espelho continue devolvendo a imagem do macho incontestável.

É um malabarismo curioso: negam nossa feminilidade em praça pública para consumi-la em segredo. Chamam-nos de homens quando querem nos desumanizar e de mulheres quando querem fantasiar. Somos aquilo que melhor acomoda a consciência deles em cada momento.

Há também um fetiche específico que raramente aparece nas conversas de bar ou nos púlpitos das igrejas. Muitos homens descobrem prazer em práticas que associam ao pênis alheio, mas não suportam a ideia de que esse desejo possa deslocar a imagem de masculinidade que passaram a vida inteira aprendendo a representar.

Então inventam um atalho psicológico. Projetam esse desejo sobre o corpo de uma Travesti ou de uma mulher Trans, convencidos de que, por estarem diante de uma figura feminina, sua identidade permanece intacta. Para alguns, a fantasia vai além: imaginam ser penetrados por nós ou fantasiam suas próprias esposas sendo penetradas por mulheres Trans e Travestis, como se nossos corpos existissem para dar forma às suas contradições, ou aos seus fetiches.

Enquanto isso, muitas Travestis, sobretudo aquelas que encontram na prostituição uma estratégia de sobrevivência diante da exclusão social, acabam sendo pressionadas a corresponder a expectativas que pouco têm a ver com seus próprios desejos e muito com as fantasias de quem paga. O mercado do sexo, afinal, costuma remunerar melhor as projeções do que as subjetividades.

No fundo, a ironia é quase literária. O mesmo homem que faz discursos inflamados sobre moral, costumes e “ideologia” é frequentemente o primeiro a depender da imaginação para sustentar a própria coerência. Não é a Travesti que ameaça sua masculinidade; é a fragilidade da definição que ele aprendeu a defender.

Talvez o problema nunca tenha sido o desejo. O desejo é apenas humano. O problema começa quando ele precisa vestir uma máscara de moralidade durante o dia para poder respirar escondido durante a noite.

Mas há algo ainda mais perverso nessa história. O fetiche não termina no desejo; ele exige que nossa identidade seja desmontada para que a fantasia permaneça de pé.

Não importa quem somos, o que desejamos ou como nos reconhecemos. Para certos homens, nosso corpo existe apenas como palco para a confirmação de suas próprias narrativas. Nossa feminilidade é colocada entre parênteses para que o pênis ocupe o centro da cena e a fantasia masculina continue funcionando sem provocar rachaduras na imagem que construíram de si mesmos.

O maior fetiche desses homens nunca foi o pênis de uma Travesti. Foi o poder de decidir, conforme sua conveniência, quando somos mulheres e quando deixamos de ser. Quando desejam, somos mulheres suficientes para alimentar suas fantasias; quando nos reivindicamos mulheres diante da sociedade, voltamos a ser “homens” aos seus olhos. Nossa identidade torna-se um interruptor acionado pela conveniência alheia.

Porque reconhecer plenamente nossa condição de mulheres exigiria abandonar uma fantasia construída justamente sobre a sua negação. E há fantasias que só sobrevivem quando transformam pessoas em personagens e identidades em objetos descartáveis.

Talvez seja por isso que tantos nos desejem no escuro e tantos insistam em nos negar à luz do dia. Não porque desconheçam quem somos, mas porque admitir nossa feminilidade significaria encarar, sem os disfarces da moral e da heteronormatividade, os próprios desejos. E essa continua sendo a única travessia que muitos “cidadãos de bem” jamais tiveram coragem de fazer.

Acho que essa versão ganha mais densidade ao deslocar a discussão do comportamento sexual para a disputa pelo direito de nomear. A crônica deixa de ser apenas sobre o fetiche e passa a denunciar um mecanismo de poder: homens que reivindicam para si a prerrogativa de definir quando uma mulher Trans é mulher e quando deixa de sê-lo, conforme as necessidades de suas fantasias ou de seu preconceito.

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