IFRN inicia formação para levar saberes quilombolas ao centro da escola
A escola não é o único lugar onde se aprende. Foi a partir dessa premissa que o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) deu início, nesta quarta-feira (16), ao curso Aquilombar, uma formação voltada à Educação Escolar Quilombola que pretende capacitar 240 professores, gestores, coordenadores pedagógicos e lideranças comunitárias de diferentes regiões do estado.
Realizada no Centro Municipal de Referência em Educação Aluízio Alves (Cemure), em Natal, a aula inaugural reuniu representantes do IFRN, da Secretaria Estadual de Educação (SEEC), da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e dos campi envolvidos no projeto.
Com carga horária de 180 horas, o curso será desenvolvido em quatro polos — Natal/Central, João Câmara, Apodi e Parnamirim — utilizando a chamada Pedagogia da Alternância. A proposta divide igualmente a formação entre o “tempo escola”, desenvolvido nos campi do IFRN, e o “tempo comunidade”, realizado nos próprios territórios quilombolas.

Para o coordenador-geral do projeto, Valdemiro Severiano Filho, essa escolha rompe com uma lógica histórica que legitimou apenas determinados conhecimentos.
“É justamente por isso que este curso foi pensado na perspectiva da pedagogia da alternância. O tempo escola e o tempo comunidade possuem a mesma importância porque compreendemos que a aprendizagem não acontece apenas na sala de aula. Ela acontece também nos territórios, nas comunidades, na oralidade, na memória, na relação com a terra, nas experiências coletivas e nos saberes ancestrais que atravessam gerações.”
Segundo ele, a proposta parte do reconhecimento de que, durante muito tempo, a educação brasileira definiu quais conhecimentos eram considerados legítimos e quais deveriam permanecer invisíveis.
O Rio Grande do Norte possui mais de 60 comunidades quilombolas, sendo 35 certificadas pela Fundação Cultural Palmares, além de 17 escolas localizadas nesses territórios. A formação busca contribuir para que essas unidades implementem uma educação alinhada às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola e revisem seus Projetos Político-Pedagógicos a partir das especificidades culturais e históricas de cada comunidade.
Educação antirracista como reparação
Durante a abertura, o reitor do IFRN, José Arnóbio de Araújo Filho, afirmou que a política de educação para as relações étnico-raciais deve ser compreendida como um processo de reparação histórica.
“É preciso que a universidade esteja em nós. A política antirracista não é sobre culpa, é sobre cura. É olhar para o passado e entender que o Brasil foi construído sob o corpo negro. Foi construído sob o corpo indígena que foi dizimado pelos europeus que invadiram esse país.”
A formação integra as ações desenvolvidas pela Assessoria de Educação para as Relações Étnico-Raciais do IFRN, criada para ampliar políticas institucionais voltadas à equidade racial e ao enfrentamento do racismo no ambiente educacional.

Representando a Secretaria de Estado da Educação, a assessora pedagógica do Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais, Diversidade e Cidadania (NECAD), Jacilene Dantas Viana, destacou que o governo estadual também avança na construção de instrumentos normativos voltados especificamente às escolas quilombolas.
“Estamos em processo de construção das diretrizes operacionais da educação escolar quilombola, para que a gente possa contribuir normativamente, enquanto Estado, para a implementação da educação escolar quilombola no território.”
Formação alcançará quatro regiões do estado
Ao longo dos próximos meses, os participantes desenvolverão atividades presenciais nos campi do IFRN e vivências nas próprias comunidades quilombolas, buscando aproximar a formação acadêmica das experiências produzidas nos territórios.
A aula inaugural contou ainda com palestra da coordenadora nacional da CONAQ no Rio Grande do Norte, Cyntia Jussara Barbosa de Melo, que abordou o tema “Aquilombar para Educar”, reforçando o papel da ancestralidade e da organização comunitária na construção de uma educação comprometida com a identidade e os direitos das populações quilombolas.