Sobre medos e fantasias
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Sobre medos e fantasias

10 de setembro de 2018
Sobre medos e fantasias

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O medo cria, na cabeça de quem o sente, fantasias de violência. São maneiras de o sujeito sentir-se, ainda que ilusoriamente, no controle da situação. Bradar, ameaçar, criar guerras verbais e imagéticas servem pra crer e tentar fazer os outros crerem que se pode vencer quem ou o quê supostamente nos ameaça.

Atualmente, pessoas de todas a idades, de todos os gêneros, de todas as raças e classes sociais já sofreram violências dos mais variados tipos: do assalto ao sequestro, do assédio moral ao estupro, do desemprego à fome... Não há quem não tenha medo de passar por essas situações. E a cada dia as tensões crescem, o sentimento de impotência aumenta e possíveis soluções radicais proliferam.

Dentre todos, talvez seja o homem branco, adulto, heterossexual e de classe média quem mais esteja sofrendo com as angústias criadas pelos medos que nos assombram a todos e todas. Os papéis que ele próprio se atribuiu têm sido ameaçados pelas mudanças tecnológicas, econômicas e sociais que este século XXI trouxe.

As transformações promovidas pela introdução da informática no mundo são uma das fontes geradoras de tensões. Quem já estava na casa dos 40 anos quando essa novidade chegou aos escritórios, bancos, escolas etc., se não se espertou, ficou de fora da revolução nos meios de produção, de comunicação, de sociabilização, e pode estar correndo o risco de não conseguir mais trabalhar, entender o mundo e ser independente nas suas tarefas diárias. E pedir ajuda nunca foi o forte dos homens. Porém, é na sua performance de “provedor” que essa defasagem de conhecimento mais pode interferir. A possibilidade (muito concreta) de deixar de ser ele quem sustenta esposa e filhos pode reduzir sua autoridade a zero. E como pode viver sem autoridade quem se acostumou a estar no topo da cadeia alimentar, na ponta da mesa, no banco da frente, em cima da fêmea e acima de todos? O medo grassa diante dessa possibilidade.

A liberação dos costumes – com o avanço do feminismo, a liberdade para o debate e a vivência das questões de gênero – também mexe com a autoridade do “macho alfa”. Os questionamentos sobre igualdade de direitos e condições de vida perante o Estado e a sociedade, as leis específicas para a proteção às mulheres e aos indivíduos LGBT terminam por colocar limites às possíveis reações violentas, que sempre foram “um direito” do pai de família quando ele pensa estar a defendê-la. A liberdade de pensamento e ação desses grupos, antes reprimidos, também tornou muito difícil o dia-a-dia dos machos convictos: nem de brincadeira eles podem se referir de forma jocosa ou ofensiva aos demais. Muitos já foram parar nos tribunais e saíram de lá como réus. E o que dizer do jogo de sedução a que estavam acostumados? Hoje, as possibilidades são tão variadas que, ser uma alternativa dentro de tantas opções, diminui o protagonismo que sempre teve nesse campo.

Quanto ao terceiro papel que o homem tomou para si na vida em sociedade desde há muito – o de protetor –, ele tem tido enorme dificuldade em cumpri-lo. Os bandidos não ameaçam cortar nossas bolsas com gilete para levar as carteiras ou entram em casas vazias para levarem os objetos, como antigamente. Os bandidos agora andam armados de pistolas automáticas, fuzis AR-15, granadas e que tais... Podem nos pegar nos pontos de ônibus, na saída de casa, dentro das escolas, podem nos levar em sequestro relâmpago, podem estourar bancos, podem sitiar cidades, podem fazer todo tipo de miséria porque o Estado não consegue mais controlar a entrada de armas e drogas no país, a criminalidade e as fugas das prisões. Quer seja pelo seu pouco desempenho, quer seja pela qualidade de seus inquilinos, o Estado, antes um organismo que também suscitava respeito, autoridade e temor, anda desmoralizado, o que contribui para aumentar o desalento do homem. Mas, em vez de tentar fortalecer o Estado e exigir dele que cumpra seus deveres, elabora para esta questão soluções extravagantes e delirantes. Primeiramente, surgem fantasias quanto à eliminação do Estado democrático, a acabar com conquistas sociais, como a igualdade de direitos entre os cidadãos de todas as raças, credos, idades e gêneros; a suprimir o sufrágio universal, o debate de ideias, o contraditório, o império da ordem, garantidos pela polícia e pela Justiça. No ponto alto da fantasia, a História rodaria numa marcha à ré, e veríamos justiceiros, como cowboys, andando com seus coldres recheados de armas e balas, duelando com os bandidos e fazendo justiça com as próprias mãos. Todos os estágios do processo civilizatório seriam revogados. A lei do mais forte entraria novamente em vigência e ele, homem branco, adulto, de classe média, seria o mais forte e colocaria o país (e quiçá o mundo) nos eixos.

De assustado com as mudanças do mundo e com a perda das suas potências, o nosso personagem tornou-se, num piscar de olhos, um super-herói. As fantasias permitem isso. Mas, fora delas, não há como combater a violência usando a violência, como recobrar um lugar de autoridade sem conquistá-lo pelo conhecimento e pelo respeito, não há como entender-se com o seu desejo sem aceitar o desejo do outro.

O que se pode desejar a esse homem é que tenha calma, pois o novo, não demora, torna-se nosso velho conhecido; que aceite e integre as mudanças sociais e econômicas na sua vida, pois elas vieram pra ficar; que se desapegue dos seus antigos postos de comando, pois a fragmentação do poder é o que temos no horizonte; e, finalmente, que se liberte dos medos porque viver era tão perigoso antes quanto é agora.

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