Pesquisa com liderança de Álvaro Dias junta ex-comissionado e estatístico que já foi suspenso
As pesquisas fazem parte do universo político. Em anos de disputa, diversos institutos são contratados e atuam para realizar levantamentos quantitativos e qualitativos sobre o pleito que será disputado. Existem empresas tradicionais que atuam no segmento, mas no Rio Grande do Norte chama a atenção a presença de uma nova companhia que foi fundada em 25 de junho de 2025 e já apresenta grande repercussão no mercado potiguar.
A Media – Inteligência em Pesquisa LTDA, cujo CNPJ é 61.362.466/0001-21, está sediada no bairro de Petrópolis em Natal, precisamente em um pequeno coworking localizado na rua Seridó. De acordo com o próprio site, a empresa opera de maneira geral com pesquisas eleitorais e governamentais, estudos de mercado e diversos tipos de monitoramentos. Através da Receita Federal, é possível identificar que Tales da Silva Vale é o sócio administrador do estabelecimento. Entre os anos de 2022 e 2023, o empresário exerceu o cargo de encarregado de serviço na Secretaria Municipal de Comunicação Social durante a gestão de Álvaro Dias na Prefeitura de Natal.
Em seu trabalho mais recente, no dia 09 de julho de 2026, contrariando todos os demais institutos de pesquisa, Álvaro Dias surge na liderança da corrida para o governo do Rio Grande do Norte. O estudo foi originalmente publicado no site O Potengi e foi republicado por outras páginas e blogs vinculados ao ex-prefeito de Natal sem qualquer ressalva sobre a divergência com os números apresentados por diferentes empresas do segmento. A medição foi registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número RN-08092/2026. Foram ouvidos, entre os dias 3 e 8 julho, 2.000 eleitores no estado.
O portal O Potengi foi responsável pela contratação da pesquisa. Conforme nota fiscal disponibilizada pelo TSE, o serviço custou R$ 20.000,00. De acordo com a corte eleitoral, o investimento foi realizado através de recursos próprios do contratante. O site é uma página de notícias com poucas atualizações, com baixo engajamento nas redes sociais e tem como sede o mesmo coworking da rua Seridó onde funciona o Instituto Media. Até o dia 19 de julho, o resultado do levantamento que mostra o ex-prefeito na liderança, ainda era a manchete de destaque da plataforma online.
Apesar do pouco tempo atuando no mercado, o Instituto Media já acumula 10 aferições registrada no TSE que geraram no período um faturamento de R$ 133.000,00. Os dois primeiros trabalhos da empresa ocorreram em 2025 nas eleições suplementares do município de Três Rios no estado do Rio de janeiro. O fato inusitado na cidade fluminense é que um dos serviços foi contratado por uma panificadora local chamada de Fast Pão.
A legislação eleitoral determina que toda sondagem de intenção de votos precisa ter um estatístico responsável, seja ele funcionário do próprio instituto de pesquisa ou um profissional autônomo. Com a exceção dos trabalhos feitos no interior do Rio de Janeiro, os outros oito registros do Instituto Media tiveram como especialista credenciado o estatístico Augusto da Silva Rocha, um nome conhecido no segmento de consultas eleitorais.
O jornal O Globo publicou em 2020, durante as eleições municipais daquele ano, uma investigação contra o profissional. Segundo a matéria, Augusto era um recordista na supervisão de pesquisas. Ao todo, eram 937 levantamentos sob a sua responsabilidade em diversas cidades do Brasil. Em várias localidades, havia questionamentos na Justiça Eleitoral sobre inconsistências nos questionários e amostras. Conforme o veículo de comunicação, o Conselho Regional de Estatística (CONRE-3) abriu procedimento interno para apurar a conduta do estatístico. Em 2018, a revista Época já tinha citado um episódio semelhante envolvendo o mesmo personagem.
Não se tem informações sobre qualquer desdobramento vinculado especificamente aos fatos divulgados pelo O Globo em 2020. No entanto, em outubro de 2023, o Conselho Regional de Estatística (CONRE-3) realizou uma sessão plenária para ratificar a suspensão por 12 meses do registro de Augusto da Silva Rocha devido a sua conduta no pleito de 2022. O comportamento foi apurado no Processo Administrativo Disciplinar nº 001/2022. O estatístico foi acusado de assinar pesquisas para empresas em situação irregular no mercado, apresentar erros técnicos em questionários e demonstrar inconsistências nos planos amostrais.
Em sua defesa, o estatístico afirmou que “uma das empresas pelo qual se responsabiliza não fez registro por orientação do jurídico deles” e declarou que já havia entrado “com pedido de registro da empresa dele”. Sobre as falhas identificadas nos levantamentos, Augusto justificou que “houve um ‘erro humano'”. Ainda enfatizou que estava “desempregado e depende de pesquisas de opinião e consultoria estatística” para seu sustento. As alegações foram rejeitadas integralmente pelo Conselho que ainda determinou a comunicação da sanção ao TSE.
O histórico recente de problemas do estatístico Augusto da Silva Rocha, junta-se a um instituto de pesquisa recém-criado e gerido por um ex-funcionário comissionado na gestão de Álvaro Dias que funciona no mesmo endereço do contratante. Soma-se ainda um pequeno e pouco conhecido portal de notícias do estado que investiu R$ 20.000,00 na contratação de uma pesquisa que apontou de forma exclusiva o ex-prefeito de Natal na liderança da sucessão estadual. No momento em que se aproxima mais uma eleição, é preciso observar muito além dos resultados divulgados.