Sonhos na Pandemia
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18 de abril de 2020
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Tenho observado comigo mesma e com meus contatos mais próximos que muitas mudanças ocorrem quando passamos a sentir a insegurança na nossa realidade, que parecia tão ilusoriamente estável. O que acontece quando nos percebemos em um mundo sem tantos carros ou aviões circulando, escolas cheias de brincadeiras, universidades efervescendo em balbúrdias, restaurantes e bares lotados de boas notícias e novas possibilidades. Agora a balbúrdia sai de casa e invade outras casas pelas redes sociais. Da mesma forma a escola que duramente resistia às telas cede à tecnologia com todos os seus entraves. E qual é o espaço que sobra para o toque, o abraço, o beijo?

Nossa crença na realidade foi colocada à prova e não sai da mídia, nem muito menos do nosso imaginário. O plano de fundo é sombrio. Tem cheiro fúnebre, dor de luto, medo do futuro. Se o presente é incerto, como pensar em futuro? Como simular o futuro?

Os sonhos funcionam como uma das mais sofisticadas técnicas de realidade virtual já vivenciadas, tanto ainda a ser copiada pelos mais criativos artistas e desenvolvedores da nossa espécie. Além da criação de cenários, temas, personagens, todas as noites vivemos no nosso aparato mental em sono mais profundo o teatro da vida, a simulação de um futuro provável com base no que foi recém observado. Se por um lado só observamos mais do mesmo em nosso banco de memórias, a possibilidade de enredos oníricos fica limitada a uma busca de respostas a um cenário com poucos desafios. Mas se vivenciamos um trauma importante, um luto, ou mesmo um medo intenso de uma provável mudança drástica em nossas vidas, nosso oráculo vem certeiro simulando ou muitas vezes repetindo imagens, cenários e aprendizados, nos treinando para possíveis obstáculos no dia seguinte.

Então, como não viver isso agora enquanto dormimos? Talvez nem mesmo lembrar dos sonhos seja possível nessas circunstâncias. Muito estresse emocional e físico pode gerar uma série de respostas hormonais que impactam o ciclo e a qualidade do sono, diminuindo sua duração, prejudicando início, assim como despertar precoce. Sem mencionar a relação bem mais limitada com a própria luz natural, nosso importante maestro de ciclos todos os dias. Será que dadas essas circunstâncias, podemos olhar novamente para o nosso oráculo particular e personalizado? Será que funciona mesmo? Que benefícios poderei ter em ficar um pouco mais na cama ao despertar e tentar resgatar essas memórias?

A ciência onírica ainda desafia a comunidade científica dada a natureza subjetiva da própria experiência, mas muitos avanços já foram alcançados e podem embasar e justificar o uso desse mecanismo de auto-conhecimento nesse momento. Sabemos que há um papel importante do sono e dos sonhos na regulação e na elaboração de memórias traumáticas, afetivamente negativas. É como se nossa mente estivesse tentando digerir essas informações mentais e incorporá-las como aprendizado. Mas às vezes a realidade pode ser por demais indigesta. Nesse momento é valioso unir sonho a bons diálogos na vigília, relembrar, elaborar, processar, nem que sejam conversas entre você e você. Escrever é já por si uma boa forma de elaborar aquela vivência, uma nova oportunidade para experimentar novamente um passado tão impactante. É conhecido também o importante papel do sono na própria regulação do humor, ajudando a manter respostas emocionais aos contextos vividos no cotidiano de maneira mais equilibrada.

Há ainda um outro aspecto pouco explorado pela ciência, mas amplamente utilizado por outras áreas do conhecimento, com fortes raízes na ancestralidade: sonho como substrato para arte. O contato com uma realidade alternativa como o enredo onírico nos coloca em confronto com a nossa própria ideia de realidade, e portanto emerge uma criatividade inerente ao próprio processo simulatório, que nos enche de novas possibilidades para novos desafios. Em um momento de tamanha incerteza no futuro, que melhor caminho pode ser o de ressignificar a nossa realidade?

Enquanto ainda não podemos planejar nossas vidas com base na estabilidade do planeta e da nossa própria sobrevivência, enquanto nossos planos de longo prazo agora se limitam a poucos dias, porque não olhar para dentro, descortinar nossos desejos e medos mais profundos, e se apropriar do próprio simulador virtual que todos temos para ao menos sonhar com uma realidade possível. Dessa maneira, desejo a tod@s, onde estejam, bons sonhos e muita criatividade por vir. Precisaremos de toda boa inspiração para reinventar nossa forma de viver nos dias que virão.

*Natália Mota é pesquisadora, médica, neurocientista e desenvolve um projeto revolucionário com pacientes esquizofrênicos. Ela foi a única cientista sul-americana indicada em 2019 para o prêmio Nature Research Award e eleita pela revista Forbes como uma das 20 mulheres mais poderosas do Brasil em 2020

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