Fechamento da C&A expõe enfraquecimento do comércio e até da memória de Natal
Natal, RN 22 de abr 2024

Fechamento da C&A expõe enfraquecimento do comércio e até da memória de Natal

12 de março de 2022
6min
Fechamento da C&A expõe enfraquecimento do comércio e até da memória de Natal

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A C&A se despede do Centro de Natal, onde foi uma das principais lojas por cerca de três décadas. A cadeia internacional que comercializa vestuário confirmou o encerramento das atividades na Avenida Rio Branco, mas não deu detalhes sobre o motivo e negou que haverá demissões.

O fato é um sintoma do enfraquecimento do comércio na região e pode também causar piora desse problema. Toda a cidade foi pega de surpresa na sexta-feira (11), último dia de operação. O anúncio foi colado na mesma parede que exibe o painel modernista de Dorian Gray Caldas (feito sob encomenda da empresa), com a memória do que já existiu naquela esquina.

Historiador Henrique Lucena fala sobre importância do encontro da Av. Rio Branco com a Rua João Pessoa para a cidade de Natal.

Nota da empresa:

"A C&A confirma o encerramento da operação da sua loja localizada na Avenida Rio Branco, em Natal, RN. Seguindo com sua responsabilidade, a empresa oferecerá todo o suporte necessário aos associados, além de remanejá-los para outras lojas da região. Atualmente, a C&A conta com 319 unidades no país, localizadas em todos os estados brasileiros, sendo quatro delas no Rio Grande do Norte [mantendo unidades do Midway Mall, Natal Shopping e Norte Shopping], além do seu e-commerce que atende todo o território nacional. Por meio de sua modalidade Ship From Store, que transforma as lojas em minicentros de distribuição, a C&A continuará entregando mais da metade dos pedidos online em até 2 dias para os clientes da região. Além disso, em 2022, a companhia prevê inaugurar 3 novas lojas no Nordeste do Brasil."

Impacto no comércio local

O presidente da Associação Viva o Centro de Natal, Rodrigo Vasconcelos, destaca que a loja de vestuário era uma “âncora”, com grande número de clientes, e o seu fim atingirá de forma negativa o comércio local.

“Fomos pegos de surpresa. A C&A era uma loja âncora bem importante para a Cidade Alta. Alguma estratégia interna deve ter acontecido, pois ela era a loja que gerava mais fluxo no bairro, por ser ao lado de uma parada de ônibus e também por ser na Av. Rio Branco, onde estão sendo revitalizadas todas as calçadas. Tentamos o contato com a empresa para saber mais detalhes, mas até o momento não nos retornaram…”, contou o representante da Associação, que foi criada em 2018 para unir lojistas do Centro e hoje conta com cerca de 50 organizações.

Associação Viva o Centro de Natal foi criado por lojistas para discutir a Cidade Alta; Rodrigo é presidente.

Apesar do impacto, Rodrigo acha que rapidamente outra grande loja deve ocupar o mesmo ponto - que é “amplo e atende a população com conforto” - e ainda que o período pode ser aproveitado pela concorrência local.

“O imóvel não deve ficar por muito tempo fechado, pois com o fim da revitalização, acreditamos que muitos irão procurar abrir suas empresas na Av. Rio Branco”, opinou, destacando que é importante que os proprietários de imóveis se sensibilizem diante da crise atual e adequem os valores dos aluguéis.

O que ficou para trás

O terreno onde se situa o prédio nº 669, na Cidade Alta, já abrigou grandes casas da elite natalense e um mercado municipal, cuja parte da construção resiste, ao lado da C&A, na Rua João Pessoa. Inclusive, a memória do lugar expressa no painel feito pelo artista plástico Dorian Gray Caldas, por encomenda da empresa, em 1992.

A informação é do professor e historiador Henrique Lucena, que considera o fechamento da loja de departamento, tão tradicional ali, um símbolo da decadência do poder econômico.

Cartão-postal “Cidade Moderna”, Jaeci Galvão, Natal, RN.   O grande ponto, cruzamento da Avenida Rio Branco com a Rua João Pessoa, final da década de 1940.

Ele explica que no século passado aquela esquina e o seu entorno ficaram conhecidos como Grande Ponto, por concentrar a efervescência política, comercial e cultural da época; os encontros.

Henrique lembra as diferentes fases daquele cruzamento: “A maior parte das casas foi derrubada entre os anos 20 e 50. Petrópolis e Tirol passaram a assumir essa função residencial; enquanto o Centro, a comercial, com cafés, lojas, mercado,... tinha o escritório da Cruz Vermelha, os principais cinemas…”, conta, ao lembrar que chegou a comer em uma das lanchonetes dali quando criança, nos anos 80.

Na década seguinte, veio a C&A. Segundo o historiador, ela e a Renner, que também já fechou e foi inaugurada nos anos 2010, são duas lojas que representavam a ressignificação do espaço. O ponto deu lugar a uma unidade das Americanas Express, mas antes de qualquer magazine, foi o Cinema Nordeste.

Foto: Luciano Capistrano

“O Cinema Nordeste, inaugurado em 1959, era extremamente luxuoso, com ar condicionado, poltronas muito largas, o roll era um local de exposições. Ele e o Teatro Alberto Maranhão rivalizavam. Todos os cinemas de Natal eram naquele lugar e na Ribeira”.

O professor aponta que poucos anos antes, entre 49 e 50, foi realizado o 1º Salão de Arte Moderna de Natal, por Newton Navarro, [revelando à sociedade da capital potiguar o nome de Dorian Gray], na Praça Kennedy, em frente ao que seria e, a partir de hoje não é mais, a C&A.

Veja comentário do historiador Henrique Lucena: 

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