CULTURA

Um coro em silêncio: professor é acusado de assediar integrantes do Madrigal da UFRN

Um homem muito educado, a priori calmo e que apoia as causas das mulheres. Sedutor. Tem o que chamam de lábia: envolve as pessoas estabelecendo amizade. Passa confiança, assertividade e segurança ao ensinar. Essa é a reunião de características atribuídas pelas estudantes ouvidas nesta reportagem ao professor substituto da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMUFRN) Erickinson Bezerra de Lima. Mas apenas nas primeiras impressões – opinião que se desfaz com um pouco de convivência, que culmina em assédios morais e até sexuais.

Segundo elas, o professor “de repente muda”. O típico abusador, conhecido por muitas mulheres em diferentes relacionamentos, sejam afetivos ou profissionais. “O homem que chega na sua vida como o príncipe encantado e depois se mostra a pior pessoa do mundo”.

E não basta romper o vínculo, porque nessa posição de poder, ele consegue interferir nas carreiras delas dentro e fora da academia: “Ele mina o nosso caminho acadêmico, nos deixa pensando que somos burras e a maior parte das pessoas que ele atinge são mulheres e homossexuais. Pra mim isso tem um quê de perversidade”.

Os assédios na UFRN não são novidade. O Diretório Central dos Estudantes chamou atenção mais uma vez para o tema ao relatar, na quinta-feira (21 de julho), o caso de uma aluna que depois de uma denúncia à Ouvidoria perdeu a bolsa do Madrigal, o coro mais antigo do Rio Grande do Norte, criado em 1966, e um projeto de extensão respeitado por toda a comunidade. O maestro, desde 2017, é Erickinson, com quem a Agência Saiba Mais tentou contato, mas não obteve resposta. De acordo com o DCE, pelo menos cinco coralistas são perseguidas por ele.

Durante entrevista, uma delas lembra que, historicamente, esse padrão de mestre costuma aparecer na música, sobretudo na regência. O modelo Terence Fletcher, do filme “Wiplash” (2014), não existe só na ficção. Chega a mencionar que o maestro não é o único doutor com comportamento reprovável na Escola de Música: regente de orquestra e professores de flauta e violino seguem a mesma cartilha. “Todo mundo comenta. Comentam tanto que já virou banal. É tosco”.

Segundo os relatos, muitos do Madrigal se incomodam, mas o grupo permanece em silêncio. Duas vozes dissonantes resolveram colocar luz no que acontece sob aquela batuta. A conduta mais corriqueira é a de constranger publicamente. Faz cobranças que excedem as de um professor que respeita o aprendizado dos alunos. Exige e expõe na frente dos demais o que considera erros, principalmente das alunas, até o adoecimento delas.

Erickinson Bezerra. Foto Cícero Oliveira – Agecom UFRN

Caso 1

A discente da publicação do DCE conta que desenvolveu herpes-zoster, conhecida popularmente como cobreiro. Ficou afastada por alguns ensaios e o coordenador falou que ela havia mentido. “(…) me constrangeu, a herpes voltou, porque está muito ligada ao estresse, e quando eu pedi pra sair me disseram pra repensar. Dois dias depois cancelaram minha bolsa, que era meu único meio de renda e depois disso começaram a retaliar, a minar meu campo acadêmico, a falar com professores. A irmã dele, que é aluna e do grupo, começou a me atacar, me chamar de louca, dizer que eu estava criando situação. Eu decidi não me calar por mim, também por outras mulheres”, resumiu.

A graduanda narra uma sequência de assédios que parece ter começado com uma reclamação sobre o casaco que ela, que tem asma, usava virado para trás para se proteger melhor do frio da sala de ensaios. Dizia que isso interferia na passagem de ar pelo pescoço, porque o tecido ficava encostado. Depois a proibiu de sair da sala para beber água ou ir ao banheiro durante os longos ensaios, que vão das 16h até pelo menos 18h30, podendo se estender até as 19h, três vezes por semana.

Em outra situação, a deixou em um “buraco” musical, isolada do seu naipe (grupo de instrumentos ou vozes) no coral. “As pessoas do mesmo naipe precisam ficar juntas pra ouvir o colega e poder ‘timbrar’. Eu me senti extremamente constrangida. Isso atrapalha a execução. E depois disso em hora nenhuma eu consegui falar com ele, porque quando tentei ele me deu as costas. Tentei falar no WhatsApp, mas eu sou bloqueada”.

Foto: Kat Smith

Caso 2

Outra estudante denunciou Erickinson Bezerra de Lima ao Ministério Público Federal em 2018 por assediá-la moral e sexualmente. A despeito de provas que ela disse ter anexado, o processo foi arquivado há cerca de um mês. Com a companhia da mãe, já havia tentado a Reitoria (sem resposta), Delegacia da Mulher (onde foram mal atendidas) e a Polícia Federal (onde riram).

Essa estudante passou a fazer parte do Madrigal no mesmo ano que o professor substituto assumiu a coordenação do grupo, em 2017. Era o primeiro ano de faculdade, e a partir de então construíram uma amizade para além da sala de ensaio. Ele a incentivava na pesquisa e na regência, área de seu maior interesse. Escreveram artigos juntos.

“Chegou um determinado momento que eu tava escrevendo sozinha e ele só colocava o nome. O primeiro a gente fez juntos mesmo, o segundo foi sobre o Madrigal e a relevância que ele tinha pra universidade e a sociedade. Nesse ele só colocou o nome e nem leu”.

No terceiro, ela respondeu que estava cansada, com muitas atividades da graduação e que não fazia sentido ele só colocar o nome. Com isso, as palavras de motivação do professor começaram a mudar de tom. Ele lhe disse para continuar escrevendo, para “encher o Lattes”, e que se dedicasse mais aos estudos, sugerindo que parasse de andar com os amigos. “A gente tá no meio e não sabe que isso também é assédio”.

A jovem só percebeu que ali tinha começado o assédio, quando as coisas pioraram. A relação acadêmica continuou. Até que no início de 2018, ela foi aluna dele do Pronatec de Regência e viu mudança na postura. “Uma cobrança maior. Muita pressão. ‘Sopranos cantem direito, não estão afinando’”, ela lembra o tom irritadiço dele.

“Uma vez eu tava com febre e depois ele disse que eu deveria restaurar a minha dignidade e fazer algo que preste. Ser mulher e cantar bem e afinar”.

Segundo ela, fazia ameaças: “Batia em cima de uma tecla que me incomodava muito: ‘ou vocês rendem ou a gente corta a bolsa de vocês’. Eu comecei a perceber que isso era errado. Teve uma vez que eu tava regendo a música, perdi o tempo, e ele pegou com força no meu pulso, de forma violenta”.

O assédio sexual

A mesma aluna conta que a roupa que geralmente usava para ir à universidade era calça jeans, tênis e camiseta. Um dia foi de blusa de alça (nada que mostrasse o corpo, ressalta) e uma calça mais solta de viscose, um tecido mole.

No intervalo das aulas, na lanchonete, Erickinson chegou na mesa que ela estava com os colegas e disse: – Levanta aí rapidinho pra eu ver um negócio.

“Eu pensei que realmente ele tava querendo ver alguma coisa. Levantei e ele pediu pra girar. Quando eu rodei, percebi. Queria me enfiar num buraco no chão, fiquei calada. Comecei a evitar ele, falar o estritamente necessário. Toda vez que eu me afastava ele falava ‘você não quer mais saber de mim’, como se fosse pra criar um peso na minha consciência”.

Antes, achava que a relação mais direta que firmava com as coralistas era por amizade. Mas viu que não. E lembra outra situação. No Pronatec, foi escolhida para representar a turma e pegar o diploma em nome dos demais. “Ele me abraçou pra tirar a foto e ficou um clima esquisito ali, tanto pra gente quanto pra quem estava de fora, no auditório da Escola de Música. Foi uma coisa muito evidente”.

O Madrigal da UFRN | Foto: Divulgação

“O auge da humilhação da minha existência”

Apesar de tudo isso, o estopim foi quando ela pediu pra que o ensaio terminasse 15 minutos mais cedo por causa da primeira aula da noite. “Fui muito humilhada”.

“As aulas começam às 18h45 e ele sempre estendia o ensaio até as 19h. A gente perdia 15 minutos de aula. Eu estava pagando uma disciplina que exigia mais da minha atenção. Pedi que me liberasse nesses 15 minutos, até porque eu precisava me alimentar antes e queria passar uma água no rosto”.

“Ele disse que não faria isso, que eu era mole. Disse pra arranjar outro momento pra comer e pra ir pra aula. Mas ele sabia que não tinha outro momento, porque o ensaio começava às 16h. O intervalo é curto e quando a gente come e canta é muito ruim”.

De acordo com ela, nem para as provas ele queria liberar. “Fui falar com a orientadora da minha turma. Ela disse que conversaria com ele. No ensaio seguinte, aconteceu o auge da humilhação da minha existência. A gente ensaiou e quando terminou o ensaio ele pediu pra o coro não sair”.

Ele expôs a aluna que havia reclamado dele por “segurar” o ensaio e os colegas começaram a dizer que “a pessoa” que havia feito isso deveria sair do coral, que era frouxa, não tinha noção musical, não tinha noção de nada.

“Foram palavras que ouvi de pessoas que hoje estão sendo assediadas por ele. Criaram um cenário esquisito, mas muito humilhante pra mim. As pessoas falaram muitas coisas horríveis sobre a pessoa, no caso eu, e ele tinha falado meu nome. Desci chorando, me tremendo, uma coisa que eu não vou esquecer nunca. As coisas pioraram muito pro meu lado.”

O Vaticano e a depressão

Ia para o ensaio muito triste, constrangida e sentia o clima pesado no coro. Pediu para sair e lhe foi dito que esperasse porque o grupo se apresentaria no Vaticano junto com a Orquestra Filarmônica da UFRN, regida por André Muniz, a quem também é atribuída responsabilidade pela organização da viagem.

“Alimentaram sempre que eu ia. Eu fui a primeira a tirar o passaporte, gastei dinheiro com documentação e roupa de frio, porque diziam que estava certo”. A mãe da estudante, em contato com a reportagem, lembra que a filha chegou a tirar as medidas para a roupa do show.

Ela entra nessa história não só como mãe. É costureira. Chegou a fazer algumas roupas para Erickinson se apresentar e já tinha desenhado um modelo para a esperada apresentação no Vaticano. Mas foi cortada, junto com a filha.

A mulher denuncia que o Madrigal não deu a devida transparência aos recursos dessa viagem. Isso porque arrecadaram junto ao governo federal e ao Vaticano, com show no Teatro Riachuelo e patrocínio do Hospital do Coração, segundo a mulher. E que mesmo justificando limite de investimentos na viagem, levou pessoas que não pertenciam ao coral, algumas que não estava no Brasil, e ex-integrantes que não participaram da seleção, cuja personagem dessa história foi reprovada.

“Era importante para o currículo. E ele só liberou a relação de quem foi aprovado, sem nota e sem ordem de classificação. Tinha critérios a serem seguidos. Disse que quem se sentisse incomodado solicitasse a nota real”.

A estudante questionou o resultado do processo e recebeu um documento em que os nomes e notas das outras pessoas estavam ocultados. A dela era: 5,8889 – “uma coisa que não fazia nem sentido”.

“Eles nunca postaram as notas reais de todo mundo. Foi um vexame que a gente passou. Foi ali que eu abandonei o Madrigal e denunciei no MPF. Eu era tida como louca, barraqueira, que denunciou porque não conseguiu nada”.

A mãe acredita que quem estava cantando nos shows para arrecadação de recursos deveria ser incluído na viagem e cita outro caso: “Um dia falei com um rapaz que era uma das peças fundamentais do coro e chegou a ser convidado também. Ele não quer falar, mas foi injusto com ele também não ir. Um dia fiz um barraco no hall da Escola de Música, falei pra todo mundo ver e ouvir. Ainda me arrependo de não ter falar mais. O professor ficou calado. Ele sabia que o que eu tava falando era verdade”.

Apresentação no Vaticano:

 

Egressa da universidade, a vítima acredita que continuou sendo prejudicada pela influência de Erickinson. Procurou universidade em estado vizinho para tentar mestrado e foi mal recepcionada pelo professor, que lhe recomendou voltar para o Madrigal.

“Tive uma depressão profunda. Quantas vezes eu quis trancar esse curso. A sala de ensaio me dava agonia. As últimas vezes que o vi, me dava como se fosse um choque, como se não soubesse andar, me dava uma crise de ódio. Comi o pão que o diabo amassou e sozinha. Só com o apoio da minha mãe, mas não me bastava. Eu queria justiça ao mesmo tempo que me sentia humilhada, suja. Hoje sei que a culpa nunca foi minha”.

Lição

Formada e com os próprios alunos, ela sabe bem que não pode agir com autoritarismo. Não faz quartetos nos ensaios que rege por causa da experiência negativa que teve. “Era onde ele colocava a gente em teste vexatório. Em um desses quartetos, queria que cantasse um mi bemol, uma coisa muito específica que ele sabia que ia me derrubar”.

Imagina que a prática de quarteto deixe os alunos nervosos, o que além além do desconforto emocional, interfere diretamente no desempenho vocal: “É cientificamente comprovado que a laringe se fecha, endurece, com a tensão e o medo”.

Casos de assédio na UFRN

A Ouvidoria da UFRN registrou em 2022, uma denúncia de assédio sexual, que resultou no arquivamento pela falta de informações, e uma comunicação (anônima) de assédio sexual, que foi encaminhada ao setor responsável. Houve ainda uma comunicação de estupro, que foi arquivada devido à impossibilidade de pedir informações porque o relato foi anônimo.

Registrou-se uma comunicação de assédio moral, que foi encaminhada à ouvidoria do órgão responsável; além de uma outra solicitação de assédio moral, que foi arquivada por falta de autorização de encaminhamento pela pessoa denunciante. Também foram registradas três reclamações, duas denúncias e quatro comunicações a respeito de conflitos classificados pelos manifestantes como assédio moral, mas que não se caracterizam legalmente como tal por não terem recorrência. Desses, sete foram encaminhados para resolução pacífica de conflitos e dois foram enviados às autoridades universitárias competentes.

Sobre esses dados, a universidade lembra que o mesmo evento pode gerar diversas manifestações. Ex.: Uma vítima de assédio moral relata o caso a colegas. Tanto a vítima quanto os/as colegas fazem denúncia à Ouvidoria sobre o mesmo caso.

Questionada sobre o caso do Madrigal, a instituição enviou nota sem se posicionar sobre o caso, mas sim comunicando as medidas adotadas sobre o tema.

Confira o comunicado:

A Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolve ações no intuito de prevenir e oferecer suporte às pessoas denunciantes de casos de abuso sexual e moral, no âmbito da instituição de ensino. Em junho deste ano, foi instituído o Grupo de Trabalho pelo Enfrentamento ao Assédio Sexual na UFRN, com o objetivo de identificar e sugerir medidas institucionais de curto, médio e longo prazo para prevenir e combater o assédio sexual, além de outras violências de gênero. Seguem outras iniciativas da Universidade:

– A Comissão de Humanização das Relações de Trabalho tem caráter interdisciplinar e é composta por servidores de diferentes áreas de atuação, como Serviço Social, Psicologia, Administração, Direito, entre outras. A ação tem o intuito de promover ações de natureza educativa e preventiva acerca das violências relacionadas ao trabalho (incluindo assédio sexual e moral); atuar como suporte diante dos problemas ou conflitos nas relações laborais; e analisar as demandas com indícios de violências no trabalho, agindo para cessá-las, oferecendo suporte e/ou encaminhando os envolvidos;

– Capacitações sobre temáticas ligadas à prevenção de violências, como “Mediação de Conflitos”, “Gestão de Conflitos”, “Gestão das Emoções”, “Assédio Moral (Sensibilização e instrumentalização para combater o assédio moral)”, “Diversidades Afetiva, Sexual, Racial, Religiosa, entre outras (combate aos múltiplos preconceitos)”;

– Cartilha “Assédio Moral – Conheça e aprenda a combater”: progesp.ufrn.br/cartilhas/assedio/quadrinho2/cartilha_texto_final.pdf ;

– Comitê UFRN com Diversidade (em fase de reativação), que tem o objetivo de propor ações transversais, interdisciplinares e intersetoriais de enfrentamento à violência de gênero e a todos os tipos de preconceito e intolerância (machismo, racismo, lgbtqia+fobia, capacitismo, gordofobia, etc);

– Treinamento Introdutório para Servidores e Programa de Atualização Pedagógica para Docentes (PAP), abordando a temática do assédio.

– A Ouvidoria da UFRN é um canal para manifestações, via Plataforma FalaBR: ouvidoria.ufrn.br .

– A Divisão de Segurança Patrimonial (DSP) também oferece canais de comunicação, nos telefones 08000 84 20 50 e (84) 99193-6471 ou no aplicativo “Smart Campus Seguro”.

Em respeito à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), casos específicos não podem ser informados ao público.

 

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Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais