Rabo de Palha 2: Assédio eleitoral sugerido por empresários envolvendo prefeito de Natal remete a escândalo de compra de votos em 1985
Natal, RN 24 de abr 2024

Rabo de Palha 2: Assédio eleitoral sugerido por empresários envolvendo prefeito de Natal remete a escândalo de compra de votos em 1985

23 de outubro de 2022
7min
Rabo de Palha 2: Assédio eleitoral sugerido por empresários envolvendo prefeito de Natal remete a escândalo de compra de votos em 1985

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Para desespero dos capitalistas, o velho Karl Marx estava certo: a história não se repete, a não ser como farsa ou tragédia. E no Rio Grande do Norte, os escândalos envolvendo a classe política, ainda que mudem os atores, confirmam a teoria.

O encontro promovido pelo prefeito de Natal Álvaro Dias (PSDB) na quinta-feira (20), no hotel Majestic e em horário de expediente, com empresários que davam dicas aos colegas de como assediar funcionários a votar em Jair Bolsonaro remete a outro escândalo da política potiguar que veio à tona na disputa eleitoral de 1985 para a prefeitura de Natal.

Na época, o personagem central era outro: o então governador do Estado José Agripino Maia, que em reunião no Centro de Convenções de Natal instruiu prefeitos aliados e cabos eleitorais a comprar votos dos eleitores mais pobres para eleger a candidata Wilma de Faria (na época no PDS), então secretária de Promoção Social da gestão agripinista.

Em áudios vazados, expressões pejorativas menosprezavam o povo mais humilde, sem instrução. A palavra “milho”, por exemplo, era usada como sinônimo de dinheiro, num claro desprezo às camadas populares.

A bomba ganhou as manchetes dos jornais do Rio Grande do Norte e de fora, e ficou conhecida como “Rabo de Palha”.

A expressão foi dita, em tom de deboche, pelo próprio José Agripino ao final de uma das reuniões com os prefeitos:

- Não podemos deixar rabo de palha.

A frase é uma variante para “não podemos deixar rabo preso” ou “não podemos deixar pistas” da ilegalidade que estava sendo tramada às escondidas.

Governador José Agripino e sua então candidata Wilma Maia / foto: reprodução

Assédio eleitoral sobre mais pobres revela modus operandi da elite brasileira, avalia cientista social

Cientista social, pesquisador e professor da UFRN na época do escândalo, Willington Germano lembra da repercussão:

- O escândalo do Rabo de Palha, que se assemelha com esse agora envolvendo Álvaro Dias, mostra o jeito de fazer política das elites brasileiras. Milho era sinônimo de dinheiro, e nos áudios que vazaram se falava em doar feirinha, enxoval... é o que estamos vendo agora com o prefeito da cidade, junto a alguns de seus secretários, e empresários que falavam sobre pressionar funcionários e a população mais pobre em troca de benesses”, diz.

Na versão 2022, os órgãos de imprensa tradicional e os blogs alinhados ao bolsonarismo tentaram abafar. Outra diferença entre os dois escândalos é que, ao invés de empresários, a reunião secreta organizada por Agripino há quase 40 anos juntou mais de 120 prefeitos para trocar confidências sobre como comprar voto dos eleitores, especialmente no interior do Rio Grande do Norte.

No Rabo de Palha, de acordo com os áudios disponíveis na internet, as dicas entre prefeitos iam da compra de título de eleitor, distribuição de presentes, incentivo a tumultos nos processos de votação e apuração, além do uso de veículos oficiais com placas frias para transportar eleitores do interior para a capital.

A tentativa de compra de voto não surtiu efeito. Wilma perdeu a eleição para Garibaldi Alves Filho, eleito prefeito de Natal em 1985 e que depois viria a ser governador por dois mandatos, senador da República e ministro do governo Dilma Rousseff.

Rabo de Palha, o retorno

Álvaro Dias discursa para empresários e pede voto para Bolsonaro em horário de expediente

O encontro de empresários para assediar funcionários em Natal foi divulgado com exclusividade pela agência SAIBA MAIS, que acompanhou a reunião e gravou as falas dos comerciantes. Veículos da mídia nacional repercutiram o escândalo. Os jornais Estado de S.Paulo, Brasil 247, Jornalistas Livres, Viomundo e Mídia Ninja destacaram a notícia em seus portais ou redes sociais.

Na seleta plateia também estavam agentes do primeiro escalão da prefeitura de Natal além do próprio Álvaro Dias e do secretário municipal de Turismo Fernando Fernandes.

Ouça os áudios aqui.

No encontro de quinta-feira, empresários disseram temer retaliações da mídia e do Ministério Público do Trabalho. O advogado Gladstone Heronildes foi um deles:

- Nós não podemos chegar dentro da empresa, porque os sindicatos são também petistas, socialistas e comunistas. Como também às vezes até o Ministério Público do Trabalho, e nós corremos o risco de por mero esclarecimento sofrer sanção dentro da empresa, se a gente convencer ou ousar esclarecer”, disse.

"Se for pra ser preso, vou com alegria", diz empresário ao debochar da impunidade

Participantes ao fim do encontro no hotel Majestic, zona sul de Natal

Outro empresário, identificado como Jorge, sugere que as empresas transportem eleitores, o que a legislação proíbe. E chega a debochar da polícia e da impunidade:

“Tem que ir atrás de voto. A gente tem que facilitar as vidas das pessoas, para irem e virem. A gente tem que arrumar a condução. A gente tem que arrumar. Tem que convencer, tem que fazer tudo. Ontem um amigo meu disse: ‘rapaz, você vai ser preso’. Eu disse: ‘se for para ser preso brigando pela minha liberdade e do meu filho, eu vou ser preso. Se for pra ser preso eu vou ser preso com alegria, e sei que vai ter gente que vai me soltar, viu Hélio”, disse, ao gracejar o coronel que o ouvia”, afirmou.

Mesmo tendo vivenciado o escândalo de 1985, o hoje professor aposentado Willington Germano ainda se surpreende com o teor dos discursos e das falas dos empresários:

- É impressionante os discursos dos empresários publicados na reportagem da agência SAIBA MAIS. Essa visão de mundo, de sociedade, de democracia, dos seus funcionários e do povo que eles têm... é esse modo autoritário de fazer e de tentar interferir na política”, afirma, antes de sugerir uma reflexão sobre os dois episódios:

- Essas práticas de manipulação decorrem da fragilidade da nossa democracia e dos ataques que ela vem sofrendo desde golpe 2016. Foi essa fragilidade que levou ao poder um presidente que nunca teve projeção sequer no baixo clero, que é um defensor das práticas de tortura da ditadura militar. Um presidente que destruiu programas sociais, que ataca os povos indígenas, minorias sociais. Esse é o quadro ao qual o prefeito de Natal Álvaro Dias se soma”.

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