Os desafios da maternidade atípica em Natal
Natal, RN 19 de jun 2024

Os desafios da maternidade atípica em Natal

19 de maio de 2024
6min
Os desafios da maternidade atípica em Natal
foto: cedida

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“As pessoas romantizam muito a maternidade atípica, como mãe guerreiras, como mãe lutadoras. Mas por trás dessas capas, desses rótulos, existe uma pessoa que precisa de cuidado, que precisa de afeto, que precisa de tratamentos até para a gente estar bem, para poder cuidar do outro, porque não tem como eu cuidar do outro se eu não consigo estar bem comigo mesma.” É assim que descreve Karina Pereira sobre a maternidade atípica. Mãe de uma criança autista de nível dois, Karina precisa conciliar sua vida, sua carreira de empreendedora, sua família e ainda cuidar e lutar pela qualidade de vida de uma criança que a sociedade insiste em invisibilizar. 

A maternidade atípica é uma luta desafiadora que muitas mães precisam enfrentar diariamente, lutando pelos direitos, cuidados e pela qualidade de vida de inúmeras crianças com deficiência. Em Natal, essas mulheres se veem desamparadas, sem assistência e, na maioria das vezes, tendo somente umas às outras como rede de apoio. A Agência Saiba Mais conversou com duas mães atípicas da capital potiguar que desabafaram e compartilharam as vivências dessa maternidade.

Sheila Maria Silva de Lima Nascimento, faz parte da Associação de Mães Atípicas de Mãe Luiza, um grupo de mulheres que encontraram forças umas nas outras para lidar com os desafios de cuidar de uma criança. Mãe de uma adolescente de 14 anos, diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) e Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), Sheila se sente invisível diante do poder público da capital sempre que tem um direito de assistência negado a sua filha. 

“Ser mãe atípica em Natal é se sentir invisível diante do poder público.Porque me sinto desassistida diante de direitos que deveriam ser ofertados a minha filha.” desabafou. 

Sheila e Izabel | Foto: cedida

Um dos principais pontos que atravessam essas famílias é o sucateamento e até a falta de atendimento relacionado à área da saúde. A desigualdade social presente no país agrava ainda mais esses desafios, uma vez que famílias neuro divergentes precisam, e vale lembrar que elas têm esse direito, de ter acesso a um Sistema Único de Saúde preparado e eficaz para lidar com diversas situações, mas por diversos fatores sociais acabam tendo até esse direito negado.

“Tenho dificuldades em marcar consultas e exames específicos para ela, como neuropsicólogos e outras especialidades. Quando encontro dificuldade para minha filha ter um auxiliar de sala de aula na escola. Onde não se encontra mais ofertas de projetos para adolescentes e crianças atípicas que contribuíram para o seu desenvolvimento e socialização com outros”, são alguns dos problemas listados por Sheila. 

Karina também compartilha dos mesmos problemas. “Faz exatamente 8 anos que eu vivencio a maternidade atípica. Hoje o meu filho tem 10 anos, e eu consegui fechar o diagnóstico dele de autismo nível 2 moderado aos 2 anos de idade e o desafio começou a partir daí, né? Antes mesmo do diagnóstico já é desafiador porque você passa a perceber que o seu filho é uma criança atípica e hoje em dia com relação a atendimentos nessa área é muito difícil, tanto a área SUS quanto rede credenciada. Quando se trata dos planos de saúde, os atendimentos são muito sucateados e o que dificulta a vida da família a chegar em um fechamento de um diagnóstico”, detalha.

Karina e Samuel | foto: cedida

“E eu sempre falo nas minhas palestras, nas minhas falas para mães, para profissionais da área da educação e da área da saúde, que o desafio maior na vida da família típica não é lidar apenas contra as limitações trazidas pela deficiência da criança, mas são as barreiras que nós enfrentamos no nosso caminho. Barreiras de exclusão, barreira de acessibilidade, tanto na área da saúde quanto na área da educação. Então assim, é desafiador, a maternidade atípica é um caminho maior. Muito longo”, completa. 

Leia também: Pais de crianças autistas denunciam negligências de planos de saúde em Natal

Luta das mães atípicas é diária

“Todos os dias é uma luta diferente”, comenta Karina, listando uma lista de tarefas e situações que precisa lidar diariamente cuidando do filho. A mãe precisa exigir direitos na escola, na saúde e na busca pela inclusão e acessibilidade, fazendo isso tudo tendo que cuidar, educar e dar amor para a criança.

“É um percalço árduo na vida das famílias, porque muitas não têm uma rede de apoio e acabam se sobrecarregando com muitas demandas. Porque a gente não luta só contra as limitações dos nossos filhos. A nossa luta diária é em busca de acessibilidade, em busca de inclusão de verdade dentro do contexto escolar. Em busca de atendimentos de qualidade, atendimentos que realmente abracem a demanda e a necessidade da criança. E é uma luta contínua diariamente. É algo que todos os dias nós temos que enfrentar, todos os dias é uma luta diferente”, explica. 

Sheila, busca nos estudos o poder para lutar contra essas dificuldades. A mãe sempre que pode se informa sobre capacitismo, busca conhecimentos nos assuntos e procura saber mais sobre os direitos e as necessidades que a filha possui, na tentativa e na esperança de melhorar a qualidade de vida de sua criança. Além da filha Izabel, Sheila luta para conseguir o diagnóstico preciso do seu filho mais novo. “Procuro me informar sobre o capacitismo da minha filha para buscar informações que me levem, pelo menos, a um fio de esperança em que eu possa melhorar sua qualidade de vida”, finaliza. 

União das mães dá força uma a outra

Sem rede de apoio, assistência do poder público ou algum tipo de ajuda financeira, muitas mães atípicas potiguares encontram forças umas nas outras, seja através de associações, coletivos ou projetos que apoiem a causa. 

“A maternidade atípica é um caminho muito desafiador, mas nesse mesmo caminho a gente se apega à nossa fé, que é Deus que nos dá forças, e acaba que nós fazendo uma família entre as mães. Uma vai segurando na mão da outra, onde nós temos dias mais escuros, dias mais claros, mas nós temos sempre que renascer como borboletas, porque existe ali um ser que é totalmente dependente de nós, da nossa voz, do nosso agir, do nosso cuidar. Então nós precisamos estar fortes todos os dias. E como nós somos seres humanos nem sempre nós estamos bem, e acabamos pegando forças umas às outras, quando uma não está bem, a outra acaba motivando a gente a ficar, e assim vamos levando dia após dia”, desabafa a empreendedora. 

Como palestrante e ativista pela causa, a mãe conta que segue lutando para inspirar e dar coragem a outras mulheres, estimulando a união, o cuidado e atenção a todas as que desempenham esse papel na vida das pessoas. “Nossos filhos, são os nossos tesouros na terra, mas a maternidade atípica é realmente desafiadora, mas ela também nos traz muita força. Através da maternidade atípica eu descobri uma força que eu não sabia que eu teria, que mesmo quando você está fraco você precisa estar forte para você cuidar do outro.”, finaliza Karina. 

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