Pintura de fachadas na Ribeira não segura comerciantes
Natal, RN 17 de mai 2024

Pintura de fachadas na Ribeira não segura comerciantes

14 de maio de 2024
8min
Pintura de fachadas na Ribeira não segura comerciantes
Imóveis com fachadas renovadas no bairro da Ribeira I Foto: Mirella Lopes

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Até esta terça (14), pelo menos 14 imóveis localizados no entorno da Praça Augusto Severo, no bairro da Ribeira, estão com as fachadas renovadas. A mudança faz parte de uma Parceria Público-Privada (PPP), na qual as empresas Super Cola e Super Color doaram todo o material usado nas revitalizações e a Prefeitura do Natal ficou encarregada de contratar a mão de obra para o serviço.

A proposta é revitalizar 25 fachadas entre imóveis privados, igrejas e prédios tombados, numa tentativa de resgatar a autoestima daquele que já foi o bairro mais boêmio de Natal. Mas, nem a pintura nova foi suficiente para segurar César, que vai fechar o restaurante em um dos imóveis que está tendo a fachada recuperada.

Não dá para manter, é aluguel, conta de água, luz e funcionário. Quando cheguei aqui a praça [Augusto Severo] ainda funcionava, peguei os últimos carnavais. Aí disseram ‘vamos reformar’... e deixaram essa bagunça aí. A prefeitura empurrou para o Governo do Estado, que agora assumiu, disse que fez a licitação e ia começar em 10 de abril, passou pra maio, já estamos em junho... e nada! Pra acabar de acertar, o prefeito quebrou a pista que estava novinha, o acesso está horrível”, critica desabafa Paulo César, que estava no mesmo ponto no ramo de alimentação há seis anos, mas já está negociando a mudança para trabalhar em algo com menos custos.

Imóveis antigos na Ribeira com nova pintura I Foto: Mirella Lopes
Foto: Mirella Lopes
Foto: Mirella Lopes

As obras de recuperação da Praça Augusto Severo, à qual o comerciante se refere, faziam parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ainda de 2014. Mas, o serviço está parado desde 2021 e sem previsão de retomada. Segundo a Secretaria Estadual de Infraestrutura, o governo está em tratativas junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) local e nacional, além da Caixa Econômica Federal, para fazer as últimas readequações do projeto e retomar as obras.

“Eles fazem umas coisas que prejudicam quem tem comércio na Ribeira. Eles só querem fazer o que querem, não querem ouvir a gente”, acrescenta César, que sugere que os projetos a serem desenvolvidos no bairro levem em consideração a experiência e observações de quem trabalha e vive na Ribeira.

Paulo César, vai entregar ponto alugado I Foto: Mirella Lopes
Ponto ocupado por César fica numa esquina I Foto: Mirella Lopes

Aqui é um público específico. É o empresário que vem com os funcionários e quer uma cerveja, um espetinho, é um público diferenciado. Se chega alguém na sua casa, ele tem que procurar saber o que você precisa porque é você que mora lá dentro. Não adianta trazer arroz e feijão e o resto você se vira, não é assim, porque às vezes você tá passando por um problema de saúde que nem a comida resolve... é o caso da Ribeira. Pintou a fachada todinha, tá bonita, modernizou, em compensação, a praça continua pior. O que era a Praça Cívica e foi feito lá também poderia ser feito aqui. Olhe ali [aponta para a praça], vai o cara morar ali e passa o dia inteiro incomodando a gente, pedindo comida. Tem três comércios aqui de alimentação e somos todos incomodados. A Prefeitura acha bonito pagar R$ 20 mil de aluguel no prédio do CadÚnico enquanto a Rodoviária é dela? Não pode ser lá? Colocou um museu aí em cima que ninguém frequenta. O museu já é a Ribeira. Aí cabe duas...três secretarias”, avalia César.

Dos imóveis com fachadas pintadas, pelo menos cinco estão desocupados atualmente. Parte dos tapumes que isolavam a Praça Augusto Severo para a realização das obras foram retirados e no entorno do Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão, citado por César, o cheiro de urina é tão forte, que o espaço acaba ficando vazio.

Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão
Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão na Praça Augusto Severo I Foto: Mirella Lopes
Museu de Cultura Popular Djalma Maranhão na Praça Augusto Severo I Foto: Mirella Lopes

Tem que melhorar muito ainda né. Natal começou aqui”, comenta Eutemberg Patrício, enquanto esperava o coletivo em um ponto de ônibus acompanhado pela irmã. Os dois vieram do Bairro Nordeste para uma sessão de hemodiálise.

Eutemberg com a irmã que o acompanha nas sessões de hemodiálise I Foto: Mirella Lopes

A falta de acessibilidade foi lembrada Canindé, que é cadeirante e precisou sair de Dix-Sept Rosado até a Ribeira de ônibus.

A acessibilidade aqui é terrível. Hoje precisei renovar minha carteira de gratuidade que estava vencida. Só venho quando é para resolver algo assim, isso aqui está abandonado, entregue às baratas”, critica Francisco Canindé Gomes, formado em Serviço Social.

Canindé foi renovar carteira de gratuidade I Foto: Mirella Lopes

Caminhos possíveis

Com uma oficina na Ribeira há 29 anos, Josemberg já viu muito comércio fechar as portas. Ele defende que a solução para o bairro está na cultura, com a recuperação de espaços históricos e da vida boêmia, a exemplo de outras cidades, como Recife.

Para se erguer, teria que ser pela boemia, pelos bares, cultura. Comércio aqui não se sustenta mais, já está no patamar mais baixo, até porque não tem estacionamento pra isso. Não fizeram o Beco da Lama, porque não fazem o mesmo na Ribeira? Se esses donos de bar em Ponta Negra investissem aqui? Tem que oferecer vantagens”, aponta.

“Tem Recife, que conseguiu recuperar toda sua parte histórica. Também fui a uma excursão em João Pessoa e quando você entra no ônibus, obrigatoriamente, tem um guia contando a história da cidade. Aprendemos até sobre os lugares onde as madames tomavam café”, acrescenta Josemberg William rindo.

Josemberg, 29 anos de Ribeira I Foto: Mirella Lopes

Enquanto uma proposta mais encorpada, no qual também esteja planejada a ocupação do bairro, não acontece, os mais antigos vão indicando possíveis caminhos e zelando pelas histórias cotidianas que, quem sabe, poderão ser contadas numa boa conversa à sombra de alguma marquise de uma pulsante Ribeira.

"São 29 anos de resistência", resume Josemberg com um sorriso no rosto.

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