O mês do orgulho LGBTQ e a visibilidade trans na mídia 
Natal, RN 20 de jun 2024

O mês do orgulho LGBTQ e a visibilidade trans na mídia 

9 de junho de 2024
5min
O mês do orgulho LGBTQ e a visibilidade trans na mídia 
Bia e Thaís, respectivamente | foto: cedida

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Junho é o mês do orgulho LGBTQ+ no Brasil, o mesmo país que mais mata essas pessoas no mundo. Diante disso, essa população resiste e se fortalece a cada dia, mesmo com todo o sistema que luta para apagá-las e invisibiliza-las, como a população trans, por exemplo, que durante anos foram apagadas ou ridicularizadas pela mídia. A Agência Saiba Mais conversou com professoras e pesquisadoras trans e travestis potiguares que explicaram essa questão.

Bia Crispim professora, pesquisadora, poeta e colunista da Saiba Mais contou que durantes muitos anos as pessoas trans eram ridicularizadas na mídia ou só apareciam em programas sensacionalistas que falavam sobre drogas e protistuição. A professora avalia que embora a presença de travestis hoje seja um pouco maior, o caminho para aumentar a visibilidade e respeito ainda é longo.

Bia Crispim | foto: acervo/ cedida

“Hoje nós temos alguma visibilidade, né? Durante muitos anos, pessoas trans e travestis não apareciam na mídia. No máximo, nesses programas sensacionalistas policiais ou em situações de reportagens que falavam sobre prostituição, sobre drogas ou sobre violência contra essa população. De uma forma geral, uma ou outra artista travesti se destacava no cenário midiático, vamos dizer assim, cultural. Mas, infelizmente, muitas vezes, sobretudo nos anos 80, quando a televisão ficou mais massificada e colorida, pessoas trans apareciam nos programas de comédia, geralmente, envoltas em transfobia descarada, não era nem velada, era descarada. A transfobia recreativa. Nossas existências, nossos corpos eram, como é que eu posso dizer, eram alvo de chacota, de riso, de piada.”, avalia.

Thaís Godeiro, jornalista e também colunista da Saiba Mais, explica que a representatividade trans na mídia evoluiu do passado aos dias atuais, mas ainda há muito a melhorar. A jornalista explica que ainda existem veículos que desrespeitam, não só a identidade de gênero delas, como também vários aspectos das suas vidas, reduzindo suas vivências a simples caricaturas. 

Thaís Godeiro | foto: cedida

 “Hoje a mídia comprometida com o trabalho sério, nos trata com respeito. Mas ainda há muitos veículos de informação, dos mais variados tipos que nos desrespeitam. Não só quanto a identidade de gênero, mas também em outros aspectos, nos fazendo parecer caricaturas, criaturas exóticas de outro mundo. Enquanto pessoas transexuais/travestis devemos estar atentas para quais veículos iremos falar, se de fato será algo sério para que a partir da exposição de nossas vivências nos mais variados aspectos da vida possamos mudar a forma como a sociedade ainda nos vê. É também uma responsabilidade nossa.”, pontua.

Bia explica que, embora pouca, existe uma representatividade na mídia porque hoje é possível identificar pessoas trans e travestis em espaços que não eram vistos, como na política brasileira. “Eu acho extremamente marcante o fato de se ter na política pessoas trans, sendo inclusive mais votadas em determinadas situações. Então eu me sinto representada de alguma forma, não só por conta da questão da presença de pessoas trans na política, mas porque a gente consegue identificar pessoas trans para além da comédia, para além desses programas que durante muito tempo usavam nossos corpos apenas como elemento de chacota. Então eu acho interessante, por exemplo, que hoje a gente consegue encontrar pessoas trans em espaços de referência.”, explica. 

Já Thaís se sente representada, mas não integralmente. Isso porque, existe uma pluralidade na população, embora alguns aspectos convergem nas diversas existências. “Me sinto representada, não integralmente, pois somos todos plurais e embora as existências cheguem a convergir em muitos pontos de nossas existências, somos cada um uma pequena ilha neste grande universo. Mas acredito que tudo pode ser melhor, e que se deve abrir cada vez mais espaço para que a diversidade possa se mostrar no mais próximo de sua totalidade.”, avalia. 

Desafios

O preconceito contra corpos LGBT atravessa cada um de modo diferente. Sobretudo para as pessoas trans que estão na linha de frente ainda sendo marginalizadas, como explica as colunistas. “A partir do preconceito se constroem muitas barreiras que são muito particulares para cada pessoa, para cada pessoa trans travesti. Cada uma vive esse preconceito de forma muito particular, né? E é difícil dizer que é só um preconceito, né? Existe o preconceito mãe, que é o de nos invisibilizar, mas junto com ele vem uma série de violências que estão relacionadas à família, a espaços de convívio social, ao acesso ao emprego, ao acesso à educação, enfim.”, desabafa Bia, explicando que é difícil explicar todos os estigmas que já enfrentou.

Godeiro também comenta que os desafios são múltiplos porque as vivências das mulheres trans também são muitas. Para ela, por exemplo, as dificuldades começaram há 16 anos quando iniciou sua transição de gênero. “O primeiro de todos eles, foi o de saber quem eu era de fato. Quando iniciei minha transição, há 16 anos atrás, não tínhamos esse debate sobre transexualidade que temos hoje, era tudo muito escasso. Eu sabia que algo não estava bem comigo mesma, e só então, deixando desabrochar que eu soube de fato quem eu era/sou.”, inicia. 

“Nessa época de início de transição o espaço mais difícil de conquistar foi o da escola, a permanência na escola. As pessoas não tinham preparo, professores, funcionários e alunos. Então é muito difícil você estar ali num espaço cotidiano, onde não há aceitação e o pior, há hostilidade. Depois você vai para a universidade e também não é um ambiente muito diferente. Na minha primeira graduação, foi difícil, sem documentos retificados, todas as noites, minha condição de pessoa trans era exposta com a chamada em voz alta feita pelos professores. Então são coisas que vão minando muito nossa permanência em ambientes que se fazem necessários para a nossa inclusão futuramente no mercado de trabalho.”, completa. 

Espaços

Bia e Thaís também falaram a respeito do espaço que, com muito suor, conquistaram. No entanto, é necessário não romantizar as lutas de cada corpo travesti e lembrá-las para além do mês de junho, ou o mês do orgulho.  

“Eu como uma pessoa trans. Eu como uma travesti, uma professora travesti, uma escritora travesti, uma pesquisadora travesti, uma estudante de doutorado travesti, consigo ver que existem alguns espaços que eu consegui ocupar e que não são só espaços meus. O Saiba Mais, por exemplo, eu falo do Saiba Mais porque a primeira vez que eu vi uma travesti publicando alguma coisa foi através do Saiba Mais, em colunas escritas por Leilane Assunção, professora. E eu tenho outras referências de mulheres que escrevem também e que têm espaços, inclusive em locais de prestígio, como é o caso da Amara Moira, que para mim é uma referência. Hoje eu faço doutorado porque eu me inspirei, em 2017, em uma mulher travesti, sendo doutora pela Unicamp. Uma mulher trans e travesti escrevendo pesquisando de alguma forma publicando faz com que a gente, enquanto pesquisador, enquanto escritora me dar uma certeza de que existe espaço para mim e eu tenho que brigar por ele.”, desabafa Crispim. “A gente precisa de outros espaços que permitam que outras mulheres trans e travestis também se posicionem, também escrevam, também apareçam com suas ideias, com seus questionamentos, com suas lutas. Eu acho que tudo isso é muito importante.”, analisou Crispim.  

Thaís completou falando que vencer é muito difícil e espera que as futuras gerações tenham mais facilidades e não precisem passar por tantos problemas. “Por isso muitas de nós acabam tendo apenas a prostituição como meio de sobrevivência. E para se vencer isso é muito difícil, você praticamente tem que estar provando dia e noite que sim, que você é capaz. E o pouco espaço que há hoje foi construído assim, espero que as futuras gerações tenham mais facilidade e não precisem passar por tanto como eu e tantas passamos.”, finalizou Thaís. 

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