Ballroom: entenda como a comunidade cresceu no RN
Natal, RN 1 de jul 2026

Ballroom: entenda como a comunidade cresceu no RN

15 de setembro de 2024
11min
Ballroom: entenda como a comunidade cresceu no RN
As competições de ballroom, chamadas "balls", têm diversas categorias como "Vogue", "Runway", e "Realness", cada uma avaliando diferentes habilidades. | Foto: Felipe Santelli

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Por Leandro Juvino e Gil Araújo

A cultura Ballroom potiguar cresce e se fortalece a cada dia. Resistindo a um cenário sem apoio e pouco divulgado, o movimento reinventa espaços, constrói uma luta diária e muda as noites na capital potiguar. Pensando nisso, a Agência Saiba Mais traçou a história de como esse movimento chegou no Rio Grande do Norte e como têm se tornado um espaço de voz na cidade do Natal.

Neste mês de setembro, a comunidade celebra o primeiro aniversário da Xanana Mini Ball, evento que marcou um momento histórico para a cena ballroom potiguar. Realizada em 09 de setembro de 2023, a ball foi nomeada em referência à planta chanana, que floresce em áreas de vegetação recente, simbolizando o surgimento e crescimento da comunidade local.

Embora não tenha marcado o início da cena potiguar, a Xanana Mini Ball foi o primeiro evento de Ballroom realizado na capital. Com entrada gratuita, o evento contou com cinco categorias competitivas, consolidando-se como um marco cultural na cidade. Veja alguns registros do momento:

Entenda a cultura

Antes de conhecer a história no estado, primeiro é importante saber como e quando surgiu esse movimento. Ballroom, movimento artístico e político que nasceu nos bailes do Harlem, em Nova Iorque, nos anos 1960 e 1970, com forte protagonismo de pessoas negras, latinas e LGBTQIAPN+. Criada como espaço de resistência e empoderamento, a Ballroom transformou a performance em narrativa, tecnologia e estratégia de sobrevivência.

A história do movimento, na realidade, pode ser contada através dos surgimentos das casas e coletivos que fomentam e fortalecem a cultura no estado. Os esquemas de casas na cultura Ballroom são pilares essenciais desta comunidade. As casas são famílias escolhidas, proporcionando apoio, mentorias e um senso de pertencimento a seus membros.

Cada casa tem sua própria hierarquia e história, e geralmente são lideradas por mães ou pais que orientam os filhos e filhas em competições de vogue e desfiles das categorias. Essas casas oferecem um espaço seguro e acolhedor para pessoas de todos os gêneros, orientação sexual e etnia, para se expressarem, competirem e celebrarem sua autenticidade em máxima potência.

Nas Balls, há também aqueles que não estão associados a nenhuma casa, mas desejam competir. São conhecidos como free agents. Costumam adotar o termo "007" em vez do sobrenome de uma casa, ao se identificarem.

A Ballroom se espalhou pelo mundo, com cenas em vários países, como França, Japão, Brasil e África do Sul, cada um adicionando suas particularidades à cultura original de Nova York. | Foto: CLEO

Conheça as casas e os coletivos

Casa/coletivo de Kamikaze

O Coletivo Kamikaze, por exemplo, nasceu da necessidade de construir uma rede de estudos para as práticas da dança Vogue. A ideia, de Tato Takai e Manu Cobra, começou a nascer ainda em 2015, quando Cobra conheceu o vogue dance pela internet. Infelizmente, sem ter condições e oportunidades de caminhar nos bailes que já aconteciam no Brasil e não possuir títulos, a casa também não pode ser oficializada. No entanto, a Kamikase se manteve enquanto coletivo de arte. 

“Em 2016 ingressei no curso de Licenciatura em Dança pela UFRN e a partir daí comecei, em conjunto com Manu a pesquisar, a praticar e a tentar desenvolver propostas de ensino da dança com o propósito de aproximar a cultura ballroom das pessoas, já que na época absolutamente ninguém desenvolvia trabalhos ou dialogava sobre a cultura Ballroom e a dança Vogue em nossa região.”, lembra o pesquisador e dançarino, Tato. 

Como já trabalhava com o ensino da dança desde 2011, Takai logo começou a desenvolver possibilidades metodológicas do ensino da dança Vogue para aprimorar seus conhecimentos e propor experiências práticas à comunidade acadêmica e também externa. Mas foi em 2018 que as oficinas promovidas pelos amigos foram ganhando forças.

“Em 2018 começamos a ministrar pequenas oficinas de Vogue no Departamento de Artes da UFRN. De início começou sendo algo esporádico mas acabou se tornando algo semanal. No projeto, toda semana tinha aulas de diversas modalidades de danças urbanas e a dança Vogue estava presente sob minha orientação. Assim, surgiu a necessidade de criar uma turma específica e foi quando demos início às aulas da Casa de Kamikaze”, detalha.

Com isso, de 2018 a 2020, o coletivo Casa de Kamikaze manteve aulas e oficinas de vogue no Departamento de Artes da UFRN, com o movimento tendo que paralisar as atividades por conta da pandemia do Covid-19.

“Quando chegou o fim da pandemia infelizmente eu e Manu já nos encontrávamos em uma situação pessoal completamente diferente da que era em 2018. Tendo que trabalhar formalmente e com a chegada do fim do curso, estávamos cada dia mais distantes da comunidade acadêmica e do espaço acadêmico. Começamos a trabalhar e as oficinas acabaram sendo apenas em eventos pontuais como semana de integração de cursos, como o de teatro e de dança. Fui convidado, como representante da Kamikaze a fazer parte da organização da Ballroom RN mas devido a minha situação profissional eu não pude estar muito presente e acabei tendo que me afastar.”, lembrou. 

“A criação do coletivo como esse nome de ‘Casa’ foi uma tentativa de referenciar a Cultura Ballroom mais do que a necessidade de replicar o que as casas significam na comunidade”, explicou Manu Cobra, ex-membro da Casa de Kamikaze, que chegou a competir e ganhar na Xanana Mini Ball.

“Nós chegamos a organizar um evento ‘The Training Kiki Ball’ como um esforço de começar a engajar a competição pelos alunos que frequentavam as aulas e prepará-los para o que viria ser as balls”, completou.

Ninho de Guabiru e as batalhas de vogue

Paralelo a esse movimento, em 2018, o anfiteatro conhecido como "Coliseu", localizado no Setor 2 da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), era popular pelas batalhas de rap, reunindo um público majoritariamente hetéro. No entanto, o ambiente não estava livre de tensões: alguns episódios de machismo e homofobia frequentemente eram expostos nas redes sociais.

Foi nesse cenário que o Coletivo Ninho de Guabiru apareceu. Incomodados com os ataques, muitos deles homofóbicos, o grupo começou a frequentar os eventos e, como resposta criativa e política, decidiu criar a primeira “batalha de vogue” em Natal.

As batalhas de vogue, inspiradas nas batalhas de rap, ocorriam nas noites de sexta-feira, e os eventos eram divulgados via Facebook. A simplicidade marcava os encontros: sem categorias formais ou estruturas técnicas, o público atuava como único jurado, e os competidores se enfrentavam na pista de forma semelhante às batalhas de rap que serviam de referência para o coletivo. 

O Ninho de Guabiru, formado majoritariamente por jovens negros e periféricos, enxergava essas batalhas como um ato de resistência política. Já o sucesso da iniciativa não se restringiu aos muros da universidade. Em pouco tempo de atuação, as batalhas de vogue migraram para espaços públicos de Natal, sendo impulsionadas por Pajux Frank, figura importante da cena cultural. 

Levando a cultura vogue para o Beco da Lama, onde havia um movimento underground em ebulição, o coletivo, posteriormente, chegou na Rua Chile, no Ateliê Bar e no Galpão 29, em colaboração com a Houssaca. As batalhas eram sempre alinhadas à cultura noturna e ajudaram a fomentar a cena cultural da cidade. Atualmente, as batalhas de rap realizadas na UFRN frequentemente reservam um espaço para a participação da comunidade Ballroom, promovendo uma convivência respeitosa e integradora entre os dois movimentos.

Hoje, a efervescente cena Ballroom de Natal, que ganha cada vez mais força, tem suas raízes em ações como as promovidas pelo Ninho de Guabiru. “Muitos dos rostos atuais da comunidade frequentaram e participaram dos eventos promovidos pelo coletivo”, comenta Guilherme Santos, membro do Ninho.

“É gratificante observar o crescimento e o engajamento da cena, que, mesmo em tempos difíceis, nunca desapareceu completamente aqui na cidade”, reitera. 

Vem cá, vem cá, vem Casixtranha!

A Casixtranha capitulo RN teve suas origens com Aisha Lemos, uma multi artista potiguar, que conheceu a Overall Founder Mother Shock Ixtranha, de São Paulo, em aulas online de vogue. Ao demonstrar interesse em criar uma casa e fortalecer a cena ballroom em Natal, Aisha foi convidada pela Mother Shock a fundar um capítulo da Casixtranha no Rio Grande do Norte em 2023. 

O anúncio oficial de Aisha e Yorran como integrantes  da casa aconteceu na The Tropicaly Ball, realizada na Paraíba no início de 2023. Após o anúncio, a Casixtranha passou a organizar treinos abertos ao público, que tinha como objetivo criar um espaço seguro para desenvolver talentos e impulsionar a formação da comunidade local. 

O capítulo RN foi um dos principais a fomentar treinos após a pandemia | Foto: Cynthia Campos

A Casixtranha atualmente conta com sete membros potiguares e coleciona performances em grandes eventos culturais da cidade, como o recém ocorrido Festival Bloquíssimo, que trouxe nomes da músicas nacional como a cantora e drag queen Pabllo Vittar.

Bicha, fica atenta é a Casa de Acúenda!

Já a Casa de Acúenda surgiu como um marco importante na disseminação da cultura Ballroom no Rio Grande do Norte. Fundada em 2023 por Vitoria Um Milhão em parceria com Lili Nascimento, a Casa nasceu com um forte fundamento político, refletindo a trajetória de seus membros na cultura ballroom. 

“A Casa nasceu de várias necessidades e um fundamento político, que é herança da nossa trajetória na ballroom”, afirma Vitória, que conheceu a cena através da Casa da Baixa Costura, que participou enquanto morava na Paraíba em 2019.

Depois de se mudar para RN, Vitoria decidiu expandir seu legado, fundando a Casa de Acúenda, com a missão de fomentar e fortalecer a cultura ballroom na região. Desde sua criação, a casa promove treinos titulados de “Desacuendações” com o objetivo de compartilhar e difundir os saberes dessa cultura, especialmente entre pessoas trans, travestis e negras. Com a Casa de Acúenda, a cultura Ballroom ganha mais força no estado.

A primeira House no Brasil é a House of Hands Up, que surge em 2015, no Distrito Federal | Foto: CLEO

Intercâmbio de estados 

Após ocorridas sete balls em Natal, o intercâmbio com cenas de outros estados se fortaleceu, dessa forma novas casas ganharam capítulos potiguares como Casa da Baixa Costura (PB) , House of Dengo (SP), Casa das Benvenutty (PB).

Com o fortalecimento da cena Ballroom potiguar, o futuro se desenha promissor para essa comunidade vibrante e em constante florescimento. A expansão se dá através de performances em festas e festivais, além dos treinos semanais abertos e gratuitos, que impulsionam a participação e o engajamento. 

O intercâmbio entre estados, o surgimento de novas casas e a crescente visibilidade nas esferas culturais locais sinalizam que a cultura ballroom em Natal continuará a ampliar seus horizontes. 

Com a abertura de mais espaços para diálogos políticos e inclusão, as balls seguem como palcos de resistência, celebração e afirmação da diversidade. O desejo é que, nos próximos anos, essa comunidade não apenas cresça, mas alcance novos marcos, consolidando-se como um movimento essencial para a construção de uma cidade mais plural e acolhedora.

*Matéria atualizada no dia 26/09/2024 às 14h43 da tarde*

Leia também: Conheça a cultural Ballroom no RN; evento celebra corpos LGBTQIAP+

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