Conheça a cultural Ballroom no RN; evento celebra corpos LGBTQIAP+
Natal, RN 17 de jul 2024

Conheça a cultural Ballroom no RN; evento celebra corpos LGBTQIAP+

17 de novembro de 2023
6min
Conheça a cultural Ballroom no RN; evento celebra corpos LGBTQIAP+

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Por Gil Araújo e Lucas Aguiar, especial para a agência SAIBA MAIS

A comunidade Ballroom do Rio Grande do Norte promove o segundo evento para fortalecer cultura no estado. A Lacraia Ball ocorrerá no dia 18 de novembro às 18h, no Salão Nobre da Pinacoteca Potiguar. A organização é da Casa de Acúenda, com apoio do Ateliê TRANSmoras. O evento terá premiações em dinheiro e a entrada é gratuita.

A cultura Ballroom é uma forma de expressão artística LGBTQIAP+ que nasceu nas comunidades negras e latinas de Nova York, na década de 1980. Desde então, ganhou destaque internacional, oferecendo um espaço seguro para a celebração da autenticidade, a diversidade e a moda.

Para a Lacraia Ball, as categorias são Face, Fashion Killa, Runway, Realness (Pessoas Trans e Travestis), Baby Vogue e Vogue Performance with a Prop. O dresscode (código de vestimenta) é rosa e preto. As premiações de cada categoria variam de R$70 a R$100 com apoio do DCE José Silton Pinheiro e da União Estadual dos Estudantes (UEE) .

Disputa

O que diferencia um ball de outros eventos é a competição. Os participantes disputam em categorias que vão desde o voguing, uma forma altamente estilizada de dança, inspiradas em poses de capa de revista, até desfiles de moda e desafios de estética. Cada categoria é uma oportunidade para os competidores exibirem sua singularidade e talento, muitas vezes com um toque de teatralidade e drama.

No Rio Grande do Norte, o  movimento foi fomentado na última década por coletivos de dança como o Ninho de Guabiru e a Casa Kamikaze, responsáveis por promover a vogue dance na capital através de treinos que aconteciam em locais públicos e dentro da UFRN. No último ano, a Casixtranha e Casa de Acúenda têm impulsionado a cena por meio de treinos e oficinas, além de, em conjunto, terem promovido a primeira ball do estado.

Casas de acolhimento

Os esquemas de casas na cultura ballroom são pilares essenciais desta comunidade. As casas são grupos, mas também famílias escolhidas, proporcionando apoio, mentorias e um senso de pertencimento a seus membros. Cada casa tem sua própria hierarquia e história, e geralmente são lideradas por mães ou pais que orientam os filhos e filhas em competições de voguing e desfiles das categorias. Essas casas oferecem um espaço seguro e acolhedor para pessoas de todos os gêneros, orientação sexual e etnia, para se expressarem, competirem e celebrarem sua autenticidade em máxima potência.

Desde a última ball, foram promovidos diversos treinos pelas casas ativas da cidade, buscando fortalecer a cena e aumentar o interesse do público na cultura ballroom.

Para Yorran Jordy, membre da Casixtranha e uma das lideranças da Ballroom potiguar, os treinos “são intermédio para que a cultura seja mantida, é o trabalho de base para nossa comunidade, por meio desses encontros que é criado um espaço seguro de troca de vivências queer. Nem sempre as pessoas LGBTQIAP+ possuem acolhimento em suas casas e, na cultura Ballroom, a gente busca conquistar esse local, muitas vezes negado, especialmente para pessoas trans”, explica.

Elu ainda revela a vontade de realizar mais treinos nas periferias da capital:

“A cultura do vogue nasce em contextos suburbanos, aqui em Natal a maioria dos treinos ainda se concentram na região leste por uma questão de facilitadores, em especial na UFRN, como o Centro Acadêmico Teatro Augusto Boal (CATAB) que disponibiliza as salas no departamento de artes e o Movimento Correnteza que articula equipamentos de som, por exemplo. De todo modo, é preciso que nosso movimento se fortaleça ao ponto de se estabelecer nas mais diversas regiões da cidade para celebrar nossos corpos, vivências e levantar pautas importantes para nossa comunidade”, finaliza. 

Acúenda

A Casa de Acúenda, criada por Vitoria Um Milhão, nasceu em 2023 a partir de várias necessidades e embasada na herança da trajetória ballroom de fortalecimento político e social da comunidade LGBTQIAPN+. Vitoria conheceu a cultura Ballroom na Paraíba em 2019 com a Casa da Baixa Costura, pioneira no estado vizinho. Em 2020, foi convidada para entrar na Casa pela precursora da cultura na Paraíba, Mother Dorot Baixíssima. 

“Em 2023, já morando aqui no Rio Grande do Norte, com a comunidade local ainda muito recente, dando seus primeiros passos, senti a necessidade de ser mãe, decidi fundar a Casa de Acúenda, juntamente com o meu filho, Tio Lili Nascimento de Acúenda que também está fomentando e produzindo a cultura aqui no RN”, destaca.

Tio Lili Nascimento de Acúenda e Mãe Vitoria Um Milhão de Acúenda. Foto: @pedrobardini

Para a mãe, a Ballroom é uma uma rede, que conecta a comunidade no território nacional e internacional. A cultura proporciona um ambiente de troca, ensinamentos e aprendizados.  

“Ballroom é comunidade. Para mim, representa que corpos diversos possam ser reconhecidos e possam se reconhecer no outro, que também é diverso. Que podemos existir, podemos ser valorizadas e reconhecidas. Que podemos criar e estar em comunidade, em redes de apoio e em colaboração constante”, afirma.

Vitoria também menciona a responsabilidade de ser mãe e fala que essa função requer estar presente na comunidade, fomentando as movimentações da cena e direcionando as discussões. Ela ressalta que dentro da Casa, esse papel é mais íntimo, visto que as Casas são redes de acolhimento e cuidado.

A Ballroom é uma cultura regida por pessoas pretas, travestis e trans. E enquanto comunidade, prezamos sempre pelo nosso fortalecimento enquanto potências, enquanto pessoas que trabalham com excelência. Esse trabalho vai desde a performance até a produção de Balls, oficinas, treinos, aulas,  gestão das redes, design, fotografia, artes e muitos outros.”

Última Desacúendação, uma oficina de Vogue New Way, aconteceu em outubro. Foto: @tambureti

Para que uma Ball aconteça é necessário o envolvimento de várias pessoas e recursos. Com o evento, busca-se não apenas a visibilidade da arte, mas o reconhecimento, a remuneração justa e a valorização dos trabalhos.

“Entendemos que a ballroom é tecnologia de emancipação e nos possibilita estratégias para geração de renda e bem viver. Que mais pessoas se sintam acolhidas pela comunidade, que se sintam pertencentes e potentes e que o estado, a sociedade nos reconheça por nossas forças e trabalhos. Que a Comunidade Ballroom do RN seja próspera, fértil, saudável e  mais potente”, finaliza.

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