Balé da Ralé: a importância da arte para as crianças de periferia
Abandonadas pelo poder público, é através da arte que as crianças da comunidade Novo Horizonte, antiga Favela do Japão, localizada no bairro das Quintas, encontram uma forma de resistir e marcar presença na cidade que insiste em esquecê-las. Por meio do projeto Balé da Ralé, idealizado pela bailarina Saryne Fernandes, as crianças têm acesso a direitos como lazer, cultura e diversão.
O balé da Ralé é uma iniciativa que existe há 3 anos e impacta diretamente a vida de 120 crianças da comunidade. A Agência Saiba Mais conversou com Saryne que, além de idealizadora, também coordena o projeto desde o momento da fundação. Para a reportagem, a professora explicou que o projeto surgiu em 2021, ainda no contexto da pandemia do Covid-19. Conhecendo a comunidade através de seu namorado, que agora é seu marido, a bailarina descobriu que as realidades na periferia são bem mais complexas que a grande mídia retrata.
“O Balé nasceu em 2021 em meio a Pandemia. Tinha muitas crianças na rua, sem escola e sem apoio. Porém, desde de 2008, quando conheci a Favela do Japão através do meu marido (na época ainda namorando), percebi que a realidade era muito mais dura do que eu imaginava.”, iniciou.
Saryne é formada em dança pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e iniciou o projeto para levar cultura para as crianças, especialmente no contexto da pandemia. Atualmente, além das aulas de dança clássica, o projeto conta com outras atividades e oficinas, como aulas de hip hop, fit dance e capoeira.

Para dar conta disso tudo, o projeto conta com 8 professores voluntários que se dividem para suprir todas as demandas. No total, são 2 professoras de balé, 1 de hip hop, 1 de capoeira, 2 de apoio pedagógico, 1 para alfabetização de adultos e 1 de dança fit.
“Hoje atendemos 120 crianças com aulas de balé clássico, capoeira, hip-hop, apoio pedagógico, alfabetização para adultos, cursos profissionalizantes e danças para as mães. Além da entrega de cestas básicas pontuais e mais de 600 refeições por semana.”, explica.
Dificuldades para manter o projeto
Para manter o projeto de pé, Saryne explica que a principal fonte de renda vem da doação de pessoas físicas. Mesmo assim, a bailarina confessa que o dinheiro ainda não é suficiente para dar conta de todas as diversas demandas que a iniciativa precisa.
Um exemplo delas é o custeio da alimentação das crianças. De acordo com a bailarina, cerca de 600 refeições semanais são servida para os pequenos. Na realidade, a situação se complica mais ainda porque a comida não pode faltar, já que algumas crianças dependem, quase que exclusivamente, do projeto para auxiliar na alimentação.
“Sem dúvidas a entrega de refeições é a maior dificuldade hoje. Sabemos que muitas das crianças têm como principal e, talvez única refeição, a oferecida pelo projeto.”, conta.

Para o projeto, uma das prioridades é a arrecadação de alimentos e dinheiro para o custeio das refeições.
“Buscamos priorizar sempre a alimentação. Então, os recursos que conseguimos são prioritariamente destinados às alimentação das crianças.”, completa.
Sem o auxílio do poder público, manter o projeto funcionando diariamente é difícil. Além das refeições, a iniciativa passa por outros gastos, como a reforma da atual sede da equipe e a compra de materiais de construção para a conclusão da obra.
“As doações de pessoas físicas é a nossa maior fonte de recursos, então contamos com pessoas para enfretar as dificuldades.”, detalha.
Meus heróis
Como uma das formas de angariar fundos para o projeto, as crianças do balé realizam espetáculos abertos ao público. Além de ser uma forma de mostrar o trabalho desenvolvido, os shows são meios de arrecadar fundos tanto para a manutenção do balé, quanto para a reforma do espaço físico da comunidade.
Um exemplo disso é o espetáculo “Meus Heróis”, que conta a história de heróis brasileiros, cujo os livros não mostram, e que mudaram suas vidas através da arte e da cultura.
“No espetáculo, a gente vai contar um pouquinho da história de alguns heróis brasileiros que mudaram as suas histórias através da cultura, da dança, da educação e da arte. E a gente vai falar um pouquinho de Paulo Freire, Mano Brau, Ariano Suassuna e outras personalidades brasileiras que tiveram suas vidas transformadas através da cultura, da arte, do esporte e do lazer.”, explica.
Para Saryne, as crianças precisam saber de onde vieram para decidir para onde querem ir.
“A gente entende que as crianças precisam saber de onde vem, para poder saber para onde elas vão. Então, por isso, a gente decidiu resgatar a história desses heróis. Para poder trazer esse sentido de pertencimento para as crianças.”, disse a bailarina em reportagem anterior.
O espetáculo, inclusive, reestreia nesta segunda (21), às 19h30, no Teatro Alberto Maranhão, onde as 120 crianças vão colocar em prática o que aprenderam ao longo dos últimos meses.
Para adquirir os ingressos, basta comprar na bilheteria do próprio Teatro, com as entradas custando de 20 a 40 reais. Para mais informações sobre o espetáculo ou formas de ajudar o projeto, basta acompanhar a iniciativa nas redes, através do instagram: @baledarale