Zenaide Maia: “Estranhamos Natália ter feito campanha em São Gonçalo"
Zenaide Maia vai tentar renovar o mandato no Senado em 2026. Mas as metas do PSD, partido que ela preside no Rio Grande do Norte, vão além do mandato na Casa. A legenda saiu fortalecida das eleições municipais de 2024, elegendo 21 prefeitos e apoiando várias outras gestões importantes, como Mossoró, onde indicou o vice, e Parnamirim, na chapa vitoriosa que compôs desde a primeira hora.
A vitória mais marcante foi em São Gonçalo do Amarante, com a eleição de Jaime Calado, marido da senadora. No município, venceram o atual prefeito Eraldo Paiva, que teve apoio do presidente Lula, da governadora Fátima Bezerra, dos deputados federais Fernando Mineiro, Natália Bonavides e da deputada estadual Divaneide Basílio.
Aliada de primeira hora do Governo Fátima, Zenaide foi cobrada publicamente a apoiar Natália, no 2° turno, em Natal. E, embora diga que uma coisa não tem relação com a outra, demonstra um certo desconforto com o posicionamento da deputada do PT, na eleição de São Gonçalo:
“A única coisa que a gente estranhou um pouco foi Natália fazer parte da campanha em São Gonçalo, entendeu? A gente estranhava isso porque ela era candidata em Natal“, disse.
Zenaide pede calma com o futuro. A próxima eleição é daqui a dois anos e é preciso “dar uma respirada” após o difícil pleito deste ano.
Nesta entrevista especial à agência SAIBA MAIS, concedida no gabinete do Senado, Zenaide Maia faz uma avaliação das eleições municipais de 2024, projeto 2026 e explica projetos e ações do mandato.
Leia a entrevista na íntegra:
Agência SAIBA MAIS: Senadora, o PSD elegeu 21 prefeitos, quatro a mais do que em 2020. Qual é a sua avaliação sobre o resultado das eleições municipais no Rio Grande do Norte?
Zenaide Maia: Eu fiquei muito feliz e faço uma boa avaliação porque foram 21 municípios, incluindo grandes cidades que formam a Grande Natal. Nós perdemos em Natal, mas fizemos São Gonçalo do Amarante, Ceará-mirim e São José de Mipibu, três grandes municípios. Eu acho que nenhum partido fez isso aí. E fizemos outros municípios, na região Oeste pegamos Pau dos Ferros, que é simbólico, e temos parcerias. Fizemos o vice-prefeito de Mossoró, entendeu? Para mim é uma grande avaliação. Agora, o que eu observo no Rio Grande do Norte é que os extremos saíram perdendo. O PL só fez 5 municípios no Rio Grande do Norte, o PT fez 7, incluindo uma prefeitura média, Currais Novos, meu grande parceiro. Eu tenho grandes parcerias porque, pra mim, democracia é isso: você tem que se unir. Embora eu reconheça que Lula foi presidente duas vezes, Dilma foi eleita duas vezes e, mesmo naquela época, o PT não tinha essa expressividade de número de governadores, de número de prefeitos. Até porque eu considero que Lula é bem maior que o PT. É um cara grande, acima do partido, e ele sabe que é necessário agregar. Ninguém ganha eleição sozinho.
Essa sua avaliação de que os extremos perderam seria um recado das urnas apontando que a sociedade está mais ao centro?
Talvez esse se extremismo exagerado esteja levando a sociedade a optar por algo mais racional, né?
Quando fundou o PSD, o Gilberto Kassab disse à época que o partido não era nem de direita, nem de esquerda e nem de centro. Em que prateleira a senhora coloca o PSD hoje?
Se você me perguntar porque eu vim para o PSD, eu digo uma coisa que todos reconhecem no Kassab: ele cumpre os compromissos, além de ser uma pessoa inteligentíssima. Então quando ele fala que o PSD não é de esquerda, de direita ou de centro eu acredito que ele quer dizer o seguinte: “para os projetos bons, para a política do bem comum, a gente está do lado, seja da direita, esquerda ou centro”. Não é aquela ideia do centrão, de fazer grandes acordões e derrubar A, B ou C. Eu mesma sou o seguinte: quando alguém pergunta se eu sou de esquerda, eu digo: “se ser de esquerda é defender o trabalhador, é defender a vida, não só a humana mas a animal e o meio ambiente, então eu sou de esquerda”, entendeu ? Eu não faço política de forma individual. Se você observou, eu não pego microfone para falar de parlamentar A, B ou C. Eu tenho propostas e lado político. Aquela política do bem comum, a política que defende o coletivo, a política que defende a democracia é aquela política que Zenaide está do lado.
As 21 prefeituras que o PSD conquistou em 2024 no Rio Grande do Norte foi uma meta atingida ou superou as expectativas?
Acho que a gente fez um bom número porque assumimos o Partido e, em pouco tempo, primeiro teve processo de convencimento de quem já estava no PSD, e depois fomos convidando as pessoas, identificamos quem tinha o perfil e fomos convidando quem demonstrou interesse em fazer parte. Fiquei feliz com o resultado das eleições. Claro que tivemos algumas derrotas que a gente não esperava, mas isso faz parte da democracia também.
Quando alguém pergunta se eu sou de esquerda, eu digo: “se ser de esquerda é defender o trabalhador, é defender a vida, não só a humana mas a animal e o meio ambiente, então eu sou de esquerda”, entendeu ? Eu não faço política de forma individual.
A senhora se refere à derrota em Natal do ex-prefeito Carlos Eduardo, que nem para o 2° turno foi. Da forma como se deu a derrota lhe surpreendeu ?
Surpreendeu muito.
Que fatores explicam esse resultado?
Eu não sei explicar, mas eu sei que a união de todos (contra a candidatura de Carlos Eduardo) fez uma diferença danada. É o que a gente chama lá no interior de acordão. Uniu quase todos e ganharam a eleição. O fato dele não ter ido nem para o 2° turno foi o que mais estranhei porque ele tem uma história. Não vejo só o fato de ter perdido. Veja: Jaime (Calado) ganhou em São Gonçalo. Ali é o reconhecimento do trabalho, é muito mais do que ganhar uma eleição. Eu achava que Carlos Eduardo ganharia porque, na verdade, ele tem uma história política e um reconhecimento grande. As creches que foram construídas, as obras na Zona Norte… Carlos Eduardo tem uma história grande. Mas isso é a democracia. Aí me perguntaram: Zenaide, você acha que foi o quê (o motivo da derrota de Carlos Eduardo) ? E eu digo: faltou voto. Se perde eleição quando falta voto. E faltou voto, provavelmente, porque não teve o poder de convencer a população que aquele candidato seria o melhor para o município. Na verdade você perde eleição por isso.
Ele se ressentiu muito da disseminação de fake news, do uso da máquina pela gestão Álvaro Dias…
Muito mesmo, mas também foi o mundo todo batendo nele.
E a posição de isenção no 2° turno, foi um acordo do partido ?
Quando eu passo o diretório municipal para alguém eu não interfiro. Por isso ele tomou aquela posição e nós respeitamos. Eu acho que foi uma atitude bem democrática porque a maioria dos eleitores de Carlos Eduardo votariam em Natália, né ? Mas ele disse: “votem em quem vocês escolherem”. Porque Carlos Eduardo poderia ter botado o pé atrás, mas isso foi uma decisão dele. Já me perguntaram se essa posição dele teve a ver com o Jaime. É claro que não não teve a ver com nenhum de nós dois. Como eu sempre dizia: Lula e Fátima vieram fazer campanha em São Gonçalo? É legítimo. Eu não estou fazendo as campanhas do meu candidato? Então, porque o presidente e a governadora não podem? A única coisa que a gente estranhou um pouco foi Natália fazer parte da campanha em São Gonçalo, entendeu? A gente estranhava isso porque ela era candidata em Natal. Mas o fato de Lula e da governadora pedir voto para o seu candidato… isso é mais do que legítimo. Isso é a democracia, né?
Eu achava que Carlos Eduardo ganharia porque, na verdade, ele tem uma história política e um reconhecimento grande. As creches que foram construídas, as obras na Zona Norte… Carlos Eduardo tem uma história grande. Mas isso é a democracia. Aí me perguntaram: Zenaide, você acha que foi o quê (o motivo da derrota de Carlos Eduardo) ? E eu digo: faltou voto.
Então o fato de a Natália ter ido fazer campanha em São Gonçalo contra Jaime foi um motivo determinante para que a senhora não declarasse apoio a ela no 2° turno, em Natal?
Não,
O Lula fez um pedido público para a senhora, né ?
O Lula pediu, faz parte. Esse é o Lula que a gente conhece. Lula é um em um bilhão de pessoas. Sou da vice-liderança do governo no Senado e temos reuniões quase que bimestrais com o Lula. E ele é um cara agregador, me pediu o voto. Mas aquele era um momento difícil porque o respeito que o Lula tem pelos eleitores dele acima de qualquer coisa, a gente teria que respeitar os eleitores de São Gonçalo também. Mas isso não foi decisão. É que como, em Natal, a gente achava que era Carlos Eduardo, eu não podia ter uma postura diferente da que ele anunciou após o 1° turno.
Que foi pela neutralidade…
Isso, pela neutralidade. Na verdade foi um conjunto de coisas, né? Mas eu acho que não alteraria muita coisa não.
Alguns blogs divulgaram que a posição de neutralidade tomada por Carlos Eduardo foi negociada diretamente com Kassab, que teria prometido a ele encabeçar uma nominata forte para a Câmara dos Deputados em 2026. Houve essa conversa ?
Não, com certeza Kassab não entrou nessa.
A senhora, como presidente estadual do PSD, não participou de nenhuma negociação a esse respeito ?
Não, nunca, não teve isso. Veja que o Kassab atuava no Brasil todo. E como já existia um compromisso da gente e dele mesmo que, quando você passava a presidência da comissão municipal para os prefeitos, eles que definiam. Então em nenhuma prefeitura a gente opinou para vice ou para qualquer outra coisa.
Já me perguntaram se essa posição dele (Carlos Eduardo) teve a ver com o Jaime. É claro que não não teve a ver com nenhum de nós dois. Como eu sempre dizia: Lula e Fátima vieram fazer campanha em São Gonçalo? É legítimo. Eu não estou fazendo as campanhas do meu candidato? Então, porque o presidente e a governadora não podem? A única coisa que a gente estranhou um pouco foi Natália fazer parte da campanha em São Gonçalo, entendeu? A gente estranhava isso porque ela era candidata em Natal.
Na avaliação da senhora, a eleição municipal de 2024 terá efeito em 2026 ? É verdade aquele ditado que diz que quando acaba uma eleição começa outra?
Pode ter, mas eu acredito que a política é tão dinâmica que o fato de você eleger muitos prefeitos… é claro que você pode ter esse apoio da grande maioria dos prefeitos que você apoiou agora, mas a política é muito dinâmica. Eu acho que a gente saiu de uma eleição vitoriosa. Temos que viver essa eleição para poder pensar em 2026. Dar um respiro se faz necessário.
Eu queria abordar a questão de São Gonçalo. A senhora já disse que considera a vitória do Jaime Calado um reconhecimento da população pelo trabalho que ele desenvolveu no município. Mas a gente sabe que houve uma disputa dura e um acirramento muito grande, para além da disputa eleitoral. Primeiro porque o PSD é parceiro do Governo do Estado, Jaime inclusive foi secretário de Desenvolvimento Econômico antes de deixar a pasta para se candidatar. E segundo porque o grupo da senhora e do Jaime eram parceiros do PT no município. Eraldo Paiva era vice e só assumiu em razão da morte do então prefeito Paulinho, indicado por vocês. As relações entre o grupo da senhora e o PT no Estado ficaram estremecidas ?
Não. Olhe… não foi Jaime que decidiu que seria candidato. Na verdade (a candidatura de Jaime Calado) foi um pedido da população, entendeu ? Paulinho morreu e a gente ficou conversando com Eraldo até dezembro de 2023, quando realmente se viu que ele não tinha… e a população dizia “Doutor Jaime, o senhor botou, então o senhor que tire”. Porque, na verdade, Eraldo para vice prefeito era uma indicação do grupo. Ali foi um grupo que a gente formou, a cidade andou muito. São Gonçalo é uma das poucas cidades que tem um masterplan que até 2040 você se debruça e tem o que fazer, é um planejamento que poucas cidades têm. E eu acho que foi justamente isso. Porque várias cidades que a gente tinha parceria são do lado da governadora, isso não era um empecilho. E quando a gente viu que não dava (uma composição com a gestão de Eraldo Paiva) é que Jaime resolveu ir.
Mas vocês chegaram a tentar um acordo? Porque há setores do PT que desejavam essa composição…
Mas essa tentativa de composição foi quase um ano. Talvez a governadora tivesse interesse, mas você sabe como é o PT, com várias correntes opinando. Eu tenho certeza que dava (uma composição), a gente tentou. Quando Paulinho descobriu que estava com câncer ele perguntou a Jaime. E Jaime disse que ele (Eraldo) estava fazendo um trabalho. Porque a política não é para você querer fica o tempo todo no poder. Se você tem alguém que está executando o trabalho, mantendo o grupo, porquê, não? Manter o grupo não quer dizer que a gente queria que Eraldo formasse a gestão dele com os nossos indicados. Não é isso. Mas é que tinha coisas estruturantes que qualquer gestor tem conhecimento. Forma equipe é uma coisa dificílima. E é uma cidade com mais de 100.000 habitantes. Foram vários anos para você formar equipes estruturantes. Não quer dizer que a gente queria mandar porque a gente nunca interferiu, assim como não interferiu no governo de Paulinho. A gente dá opinião quando pedem. E foi o trabalho. Se houve acirramento nessa eleição é porque ele (Eraldo) tinha a máquina na mão, o apoio de deputados federais e tudo. Nós fizemos uma campanha só. Não teve ninguém, nenhum apoio em nível nacional para subir no palanque. A campanha éramos nós e a população.
Paulinho morreu e a gente ficou conversando com Eraldo até dezembro de 2023, quando realmente se viu que ele não tinha… e a população dizia “Doutor Jaime, o senhor botou, então o senhor que tire”.
Então, não há nenhuma relação estremecida entre os partidos e nem da senhora com a governadora Fátima…
Estremecida não. Com a governadora em nenhuma hora. Porque ficou aquilo. Por exemplo, é uma coisa que a gente vê. O PSD é um partido competitivo que tem prefeituras, a gente tem como administrar e está aberto à conversa com todos. Isso faz parte da democracia.
Parnamirim também….
Parnamirim, sim. Quando a professora Nilda começou sua campanha fomos o primeiro partido a chegar junto. Inclusive Airene Paiva, que era do PC do B, nos unimos a ela. Nilda definiu Kátia como vice porque daria uma chance maior de vitória, não era do nosso partido, mas era uma chance maior. Também tenho uma parceira muito forte com Macaíba, prefeito Emídio. Parceria grande também com Goianinha, embora a prefeita não seja do meu partido. Assim como temos parceria em Caicó. São municípios grandes e se tem serviço prestado não tem que estar no meu partido para ter o nosso apoio. Em Tibau do Sul também. Touros, Rio do Fogo….esses do meu partido.
Vamos falar de 2026. A senhora será candidata a renovar o mandato no Senado ?
Isso, meu pensamento é renovar o mandato de senadora. Mas viver uma coisa de cada vez. Eu costumo dizer que, às vezes, em política você não vive hoje. Veja, por exemplo, assim que a governadora se reelegeu, o pessoal já começou a pensar num mandato que ela não tinha (Senado). Quando vinham me perguntar eu dizia: peraí, pessoal, a governadora acabou de se eleger (risos) e vocês já estão querendo isso ?
Para além de manter a cadeira no Senado, qual é o projeto do PSD para 2026 ? O partido não tem representação nem na Câmara dos Deputados nem na Assembleia Legislativa.
A ideia é ampliar essa representação.
Carlos Eduardo é um nome forte ?
É um nome forte sim. Não deixa de ser, é uma grande liderança.
Para a Câmara dos Deputados?
Aí provavelmente essa é uma pergunta que você tem que fazer a ele. Eu, sinceramente, não perguntei a ele.
Há nomes para concorrer a Assembleia Legislativa?
Vamos ter representatividade. É importante que você tenha tanto no legislativo estadual como no legislativo federal, né? É importante ter.
O prefeito de Mossoró Alisson Bezerra foi eleito com o apoio do PSD, que indicou o vice na chapa…
Vencemos com Allyson, indicamos o vice e elegemos mais 6 vereadores.
Allyson vem sendo cotado como pré-candidato ao Governo do Estado. O ex-senador José Agripino, presidente estadual do União Brasil, já deixou muito clara essa intenção em entrevistas recentes.
Mas você já perguntou ao prefeito?
Ainda não, mas vamos perguntar….
Se eu conheço Allyson, aquele rapaz da Ufersa, engenheiro… em 2018 ele me apoiou e apoiou Fátima. Ele tem um crescimento muito grande e eu não acredito… se ele for candidato é por ele mesmo. Alysson é inteligente o suficiente, sabe o que tem que fazer, fez uma boa gestão, foi quase aclamado com quase 80% dos votos. Se ele quiser ser governador tem que trabalhar muito esses dois anos, construir alianças… é um bom nome. É aquela história… Fátima não será candidata ao Governo, mas não sabemos como vai ser porque toda vida ela diz que não sabe. E antes que você me pergunte sobre Fátima eu vou logo dizendo: você tem que perguntar a ela (risos).
Mas vamos fazer um exercício de suposição. Fátima candidata ao Senado, o vice Walter Alves assume o governo. O PSD tem algum tipo de acordo com o MDB pra apoiá-lo. Porque caso Alysson dispute o Governo, provavelmente teria o apoio do PSD, que herdaria a prefeitura de Mossoró. Correto ?
Sim, claro, com certeza. O PSD vai ter que se estruturar. Por exemplo: o prefeito de Natal (Paulinho Freire) é do partido de Alysson, União Brasil. Não sei como vai ser essas negociações, esses acordos entre eles. Mas é como eu digo: a gente vai para o palanque defender nossos candidatos Isso é um direito muito legítimo de cada um.
Então, neste cenário, aquela dobradinha Zenaide Maia e Fátima Bezerra na mesma chapa, como em 2018, dificilmente vai acontecer…
Aí eu não sei, só o futuro é que vai dizer. Se você não sabe nem dizer se ela é candidata… se ela vai sair do Governo ou não…
Mas é um cenário interessante que se desenha. Até porque vocês duas têm uma grande afinidade...
É… existe muita especulação sobre isso. Porque alguns dizem que Natália quer ser senadora… isso tudo é possível. Para o Governo, uns dizem que será Styvenson (Valentim), outros dizem que pode ser Rogério Marinho, há quem fale que o sonho do general Girão é ser governador… Isso é a democracia. Todos têm direito a concorrer, agora correr atrás de voto não é simples.
A senhora se elegeu em 2018 numa chapa com a governadora Fátima Bezerra e seu grupo compõe o Governo. Que avaliação faz desses 6 anos do governo Fátima?
Olhe, ninguém se dedicou mais àquele estado do que Fátima Bezerra. Ela pegou um Estado com quatro folhas de pagamento em aberto. E me perguntam: mas porque essa rejeição ? Eu não sei responder. Não tem esse motivo todo para isso.
Acha que as críticas são mais pesadas do que o Governo entrega de serviços à população ?
O Governo Fátima entrega muitas coisas, ela é uma batalhadora, mas não sei em que momento… ela ganhou no 1° turno no segundo mandato e em apenas seis meses já estava com esse desgaste. Porque a gente vê nas pesquisas e ela também vê. Fátima é realista. Essa rejeição existe e é verdadeira.
A senhora foi a única deputada da bancada do RN a votar contra o impeachment da então presidenta Dilma Roussef, foi oposição ao governo Temer e ao governo Bolsonaro e acompanhou a tentativa de golpe de 2018. Que avaliação a senhora faz desse processo institucional conturbado no Brasil ?
Eu acho que esse processo institucional… eu sempre senti algo no ar, mas não sabia o que era. A gente tinha medo dessas comemorações, vi a tentativa de explodir um caminhão no aeroporto, invasão da Policia Federal… mas ninguém esperava (a tentativa de golpe no 8 de janeiro de 2023). Fui contra o impeachment porque sabia desde o início que aquilo que fizeram não tinha nada a ver com pedalada fiscal. Acho que pelo fato dela ser mulher foi mais fácil fazer aquilo ali, criar aquele impeachment. Tinha certeza que nem Eduardo Cunha nem Michel Temer eram solução para o Brasil. Aí veio o governo Bolsonaro e conseguimos ficar nessa resistência. Porque quando perguntava, eu dizia: perdemos a eleição, mas não desistimos do país, né ?
A senhora citou o fato da Dilma ser mulher, o que pode ter facilitado o impeachment. Você é uma das poucas mulheres no Senado. Como tem presenciado de perto essa baixa representatividade?
A sub representatividade é assustadora. Sou procuradora da Mulher no Senado e luto há dois anos para mostrar que não é apenas lutar contra o feminicídio. Precisamos empoderar as mulheres. O desafio é esse, trazer as mulheres para o Parlamento. Às vezes ouço mulheres dizendo que não gostam de política, que política não é lugar de mulher. Ora, é aqui no parlamento onde as leis são feitas. É aqui que vamos definir nosso salário, quantas horas vamos trabalhar, com qual idade vamos nos aposentar. A saída é por aí. Temos projetos, semelhantes ao que alguns países já fizeram, como no México, que estipulam cadeiras fixas para mulheres. De 30% por tantas legislaturas. Enfim… porque se somos 52% da população e somos apenas 15% no parlamento, é claro que a maioria da população não está representada.
Muita diferença entre a senadora Zenaide e a deputada Zenaide ?
A diferença é que eu cheguei aqui com uma turbulência. Já tinha impeachment, terceirização plena, Bolsonaro, aquele momento todo. Eu dizia: “que loucura é essa?” Aí vim para o Senado, mas não vejo essa calmaria toda também, não. Você pode ser aquele parlamentar para cumprir só a orientação partidária. Pode sentar e não contrariar ninguém. Mas se você resolver questionar e tentar aprovar projetos aí vem as críticas.
Como assim ?
Por exemplo: essa história de arcabouço fiscal (do governo Lula) eu não vejo muita diferença para o teto de gastos (do governo Temer). Pelo menos no papel. Como sempre, quem vai ser punido é educação, a saúde e a segurança pública desse país. Eu tenho PEC aumentando o percentual de financiamento para a segurança. A gente pode aprovar a lei que quiser, mas se não colocar a população no orçamento, essa lei não existe porque efetivamente não é executada.
Essa política econômica do Governo Lula é tão conservadora quanto a do governo Temer ?
É conservadora, mas não é porque ele quer. Temos um regime presidencialista, mas ele fica entre um Congresso com um poder muito maior. E (Lula) fica nesse nessa saia justa e o mercado financeiro… nós temos um país em que 50% do orçamento é para bancos, pagando serviço de uma dívida que nunca foi auditada mesmo (a obrigação de auditar) estando na Constituição. Passamos o ano todo na comissão de orçamento, discutindo o orçamento, mas quem leva a metade dele nunca sentou para discutir, que são os bancos.
Ainda tem essa guerra das emendas…
Eu sou a favor das emendas, desde que tenha transparência e equidade. Dividido por todos. Eu não acho que o Governo Federal, em nível central, saiba a necessidade de todos os Estados. Mas com isso aí… Porque as emendas que a gente aprovou não é um orçamento a mais do orçamento. Do que aprovamos, 1% é para emenda de bancada e 2% pra emenda individual. 3% da receita corrente líquida é distribuído pelos parlamentares.
Mas a polêmica maior é com as emendas do relator, que não tem transparência…
A polêmica maior surgiu com tal do orçamento secreto. Porque não estava no orçamento. E a emenda pix foi criada porque passava quatro anos e o prefeito não conseguia fazer um calçamento. Então se chegou a isso. Agora a questão é que você precisa apresentar o projeto. O que faltava nessas emendas especiais é que não havia a obrigação de apresentar o projeto. Isso eu acho errado. Tem que ter projeto. E o orçamento secreto, que era secreto mesmo, não tinha transparência.
A senhora disse que o governo federal não tem como saber todas as necessidades dos municípios. Mas esse volume todo de recurso à disposição do Parlamento não é perigoso?
Por quê?
Porque a distribuição é uma prerrogativa do Governo Federal que foi eleito para isso...
Mas 3 % do orçamento? As pessoas olham para os gastos, mas ninguém olha para os bancos. Na verdade, o parlamento distribui legalmente esses recursos.
A senhora tem se empenhado em debater essa questão dos altos juros pagos aos bancos. É seu principal projeto ?
Eu tenho uma PEC, meu principal projeto é essa PEC que está desde 2019 na Casa. A proposta é que, já que o banco leva metade do orçamento, que não faça extorsão do povo brasileiro, das famílias brasileiras. a PEC 79 de 2019 limita os juros dos cartões de créditos, cheque especiais e qualquer outra transação a três vezes a taxa cobrada. Todo mundo usa o cartão de crédito para comprar o medicamento, para fazer sua feira, então isso é algo que eu estou me dedicar. Além de outros projetos também.