Retomada do café no RN: histórias de afeto e resistência
A história da cafeicultura no Rio Grande do Norte já teve momentos de pujança e de baixas, e agora está sendo retomada por representantes das novas gerações, que herdaram o afeto e os terrenos para plantar os grãos de café. Aliado a isso, os potiguares tomam cada vez mais gosto pela bebida, mesmo em meio à alta do preço do café no mercado.
Há relatos de que esse item teria chegado ao Rio Grande do Norte ainda no século 19. Já no século 20, nos anos de 1950, houve uma significativa produção potiguar. Contudo, foi nos idos de 1970 que a cafeicultura ganhou um maior fomento no estado.
“O Ministério da Agricultura e a secretaria estadual da época se articularam para fomentar o segmento, por meio da distribuição de mudas para produtores interessados, tendo em Martins (RN) a sede deste processo”, explica Elton Alves, gestor da área de Cafeicultura do Sebrae/RN.

Contudo, o apoio público não se manteve por muito tempo, e a produção no Rio Grande do Norte teve uma redução. Segundo Elton Alves, houve ainda falta de organização e estratégia para a estruturação do setor, no qual o RN não conseguiu acompanhar o crescimento nacional.
“Observou-se somente uma preservação mínima de algumas pequenas áreas em quintais familiares”, conta.
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) é, atualmente, uma das instituições empenhadas na retomada da cultura cafeeira potiguar. Desde 2021, o serviço atua “diante de um ambiente extremamente promissor para o produtor rural e demais negócios ligados ao café”, diz o gestor.
“Atualmente, pequenos produtores no RN estão revitalizando plantações de café que estavam inoperantes há décadas, impulsionados pelo crescente interesse no mercado de cafés especiais e gourmets. Esses produtores, muitas vezes descendentes de antigos cafeicultores, estão adotando práticas sustentáveis e técnicas de agricultura regenerativa para melhorar a qualidade do produto e preservar o meio ambiente”, Elton afirma.

Além dos pequenos produtores, entretanto, cabe destacar que uma das maiores empresas de café do Brasil, o café Santa Clara, nasceu no Rio Grande do Norte. Mais precisamente, João Alves de Lima conduziu os primeiros passos da empresa em 1959, na cidade de São Miguel, no Alto Oeste Potiguar.
Lima “começou a vender grãos crus de café de porta em porta. Com o tempo, Seu João passou a vender o café já torrado e moído, conquistando a clientela da região”, explica o site da marca. Em 1988, o café Santa Clara ganhou uma filial em Mossoró (RN) e, em 1990, ganhou um parque industrial em Eusébio (CE).
“Embora o RN não seja um dos principais estados produtores de café no Brasil, a revitalização da cafeicultura tem gerado impacto econômico positivo em comunidades locais”, Elton frisa. Hoje, um dos potenciais do RN está no setor de cafés especiais.
Uma paixão familiar
A cerca de 700 metros de altitude, as serras do Sítio Rio Grande, em Jaçanã, carregam um pouco da história do café no Rio Grande do Norte. E, desde a pandemia de covid-19, recuperam parte desse passado.
Os pés de café remanescentes serviram para que Diogo Castro recuperasse o legado de seu avô, Firmino Gomes de Castro, que plantava os grãos e fazia torrefação nos idos dos anos de 1950. Em 1978, Firmino adquiriu sua propriedade rural no município, que hoje é administrada pelo neto.
Em Jaçanã, cidade distante 130 km de Natal, a família Castro apostou na retomada do café e já colhe seus frutos – literalmente.

Tudo (re)começou em 2020, com uns 2 mil pés de café que resistiram ao tempo. No ano seguinte, a família plantou 9 mil mudas, replantou mais 4 mil, e hoje há 19 mil plantas no chão, entre os plantios e as perdas. A expectativa é de que 6 mil pés de café sejam plantados anualmente.
“Eu ainda era muito novo na época que meu avô adquiriu a propriedade e, com o decorrer do tempo, a gente foi tendo o gosto de ter o café, mas ficou uma coisa um pouco esquecida na nossa família quando meu avô faleceu. Chegou a fechar a indústria do meu avô, e a propriedade ficou com meu pai. Com a pandemia e aquele período de exclusão social, eu resolvi novamente trabalhar com café. Foi quando a gente voltou a ter os olhares para o café”, conta Diogo.
A propriedade tem cerca de 15 hectares, e em quase 5,5 deles há plantação. Diogo relata que tem a ajuda do pai e da esposa para dar conta do processo. “Estamos trazendo amor e paixão por aquilo que estamos fazendo”, compartilha o potiguar, que deixou um trabalho na área de turismo para se dedicar somente ao café.

Os conhecimentos herdados pelo seu pai foram úteis, mas para atualizar e expandir as atividades, videoaulas, contatos e consultorias foram essenciais, especialmente as prestadas pelo Sebrae e pelo Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural - (Emater).
Hoje, de acordo com Diogo, o foco da comercialização é agregar valor ao produto final e trazer rastreabilidade. Além de sabor e aroma agradáveis e marcantes, o café tem que contar uma história e mostrar de onde veio.

“A gente quer mostrar que nós temos condições de fazer toda a cadeia, da planta até a comercialização do café já pronto para o consumo”, explica. Na propriedade, eles produzem e fazem torrefação.
“Nós estamos adquirindo, nesses dois últimos anos, equipamentos novos. Por mais que a gente já tivesse alguns equipamentos da época do meu avô, a gente vem se adequando ao mercado [de especialidades], que é bastante exigente em termos de torra, em termos de qualidade, nessa fase de torrefação, de comercialização”.
Criação da marca
Por isso, um outro ponto importante nessa trajetória foi a criação da marca Café Jaçanã: “Para dar aquela regionalidade, trazer o nome da nossa cidade e da região, para a gente mostrar que temos condições de produzir, como qualquer outra região que produz café”, observa.
O Sítio Rio Grande, de Jaçanã, trabalha com café arábica, em cinco variedades. “Na época do meu avô, as variedades eram o Catuaí amarelo e o vermelho e, depois disso, a gente vem plantando o Catuaí 144, o Arara e o Graúna, e entrando com uma outra variedade experimental a partir do meio do ano”. Há, nessas serras, cafés dos tipos especial, gourmet e superior.
Diogo explica que a colheita seletiva dos grãos possibilita o uso de grãos maduros para virar um bom café, seja ele especial, gourmet ou superior. Além dos tipos trabalhados no sítio, existem também os cafés tradicionais e extrafortes, que selecionam menos os grãos.

Em ordem crescente de qualidade, em pontos da Associação Brasileira da Indústria de Café e com parâmetros da Associação Americana de Cafés Especiais, os cafés podem ser extraforte (menos de 60 pontos), tradicional (65 a 70), superior/premium (70 a 75), gourmet (75 a 80), especial (mais que 80) e extraordinário (mais que 90).
“Hoje, pelo tipo de colheita que a gente faz aqui na propriedade, que é uma colheita seletiva, onde a gente vai fazendo a colheita só dos grãos realmente maduros, os grãos que já estão prontos para ser colhidos, a gente consegue trazer uma conotação diferente, agregando valor e trazendo um café especial”.
Conforme ele, nessa seleção, não se apanha café verde nem café do chão, apenas os melhores e maiores grãos.
A venda é realizada diretamente pelas redes sociais (@cafejacana) ou em alguns pontos na agricultura familiar.
Atualmente, os produtores já enxergam na visitação das propriedades uma oportunidade para o ecoturismo, algo trabalhado nas consultorias prestadas pelo Sebrae. Além disso, é importante mostrar que a propriedade é sustentável.
Em Portalegre, também se planta café
Gerlane Magalhães, de Portalegre, é outra potiguar que não conseguiu escapar da herança do café.
“Minha história com o café teve início por volta dos anos 1970, quando meu pai, com o auxílio do Instituto Brasileiro de Café, executou a plantação de 10 mil pés de café em nosso sítio. As variedades plantadas naquela época foram o Mundo Novo e o Catuaí, e até hoje ainda temos alguns pés”, relata.
A propriedade Paulo Magalhães – nome do pai dela – é um sítio localizado em Portalegre, a 372 km de Natal. Lá, Gerlane, uma irmã e dois irmãos retomaram a plantação de café.
“Até meados dos anos 1990, tivemos uma produção forte de café, mas em 1990 o Instituto Brasileiro de Café foi extinto, a assistência técnica acabou e ocorreram períodos de secas”, lamenta.
Assim, a plantação foi morrendo pouco a pouco, até que uma equipe do Sebrae visitou Gerlane e a mostrou o Programa AgroNordeste, que visa ao resgate da cultura do café no RN e oferece assistência técnica aos produtores.
“Em maio de 2023 construímos o viveiro das mudas, e em junho de 2023 foi feito o plantio de 6200 variedades – araras, Catuaí vermelho, siriema e acauã. Em fevereiro de 2024, transportamos as mudas para o solo e, atualmente, estamos com 800 pés”, explica.

Apesar de encarar a possibilidade de um projeto de plantio como um desafio no início, hoje ela comemora o plantio dos 800 pés. Ainda não há produção no sítio, apenas plantio.
“Estou muito feliz por poder retomar, junto com meus irmãos, o cultivo do café que começou com nossos pais, e manter viva essa memória e tradição, respeitando as raízes e ao mesmo tempo abraçando as possibilidades do futuro”.
Para ela, ser uma mulher à frente da produção também é um ato de resistência e oportunidade de renovar e fortalecer a cafeicultura potiguar. “Apesar de ser bastante desafiador, visto que o clima está mudando constantemente e há escassez de mão-de-obra, é muito gratificante ver cada etapa sendo executada, ver a plantação progredindo e poder planejar os próximos passos”, conclui.
“Desinteresse do café”
Sobre o cenário de desprestígio que a produção de café enfrentou no estado, Diogo lembra que antes era mais difícil ter o café industrializado em supermercados, e por isso muitas famílias rurais se tornaram produtoras.
“Na época de 80 até 90, teve famílias que trabalharam com café, outros produtores, mas, da mesma forma que a gente deu uma parada, esses outros também pararam. A gente não deixou morrer todos os pés”, afirma.
A partir de levantamento do Sebrae, foi possível ter uma melhor noção de onde estavam os outros produtores de café do estado, adiciona.
“Em alguns locais, como Martins e Portalegre, também foram grandes produtores de café na época, mas, do mesmo jeito que aconteceu aqui, também aconteceu lá: o desinteresse do café. O café ficou muito barato, não tinha nem condições de estar trabalhando esse café, porque não compensava. Hoje não, com esses cafés especiais, esses cafés aprimorados, esse negócio tem uma outra conotação”, diz.
O potiguar afirma que novas famílias e produtores estão se interessando pela cafeicultura no RN, estado que tem “condições de ter uma conotação de cafés de qualidade. Isso a gente já vem provando através dos cafés que a gente está produzindo, e eu acredito que, daqui a poucos anos, a gente já consegue ter uma outra visão da cafeicultura no Rio Grande do Norte”.

Para ele, o ecossistema do café é único. O café daqui tem um gosto diferente de outras regiões e estados do país. “Não adianta eu querer ir lá fora, copiar um ecossistema de uma outra região e querer que seja feito aqui em nossa região”. Ele acredita que podem haver adaptações, e frisa:
“Estamos no sertão, no meio de uma região em que era improvável, por mais que a gente já sabia que lá atrás já foi produtor de café, mas que hoje tem todo um clima que não é mais o mesmo que antigamente. Menos chuvas, as águas mais escassas. Era um caso improvável ter café no Rio Grande do Norte, no sertão, no seminário, mas temos café. Mas, existem os desafios”.
Elton Alves, gestor de cafeicultura, pondera: “Falar de uma produção volumosa ainda não é mensurável no RN, tendo em vista que a característica destas lavouras é de que levam de dois a três anos para amadurecerem sua produtividade. Até o momento, produtores da agricultura familiar têm se interessado em investir na cafeicultura, o que torna o resultado mais demorado em relação à capacidade de investimento”.
O profissional avalia que ainda não há empresas âncoras e arranjos produtivos com as prefeituras que despertaram para a capacidade de produzir café.
Ainda assim, o Brasil parece dar sinais de que enxerga o potencial do café potiguar. Nesse sentido, em 2024, Parnamirim, na Grande Natal, sediou a 1ª Olimpíada Brasileira do Café.
A retomada do café abrange diversos municípios potiguares, como Jaçanã, Martins, Portalegre, Serrinha dos Pintos, São José de Mipibu e Santana do Matos.
“E esses produtores, em pequenas colheitas, têm obtido cafés com sensoriais florais, frutados e com chocolate bem presente. Esses produtores de café no RN enfrentam desafios como condições climáticas adversas, acesso limitado a tecnologias avançadas e a necessidade de capacitação em técnicas modernas de cultivo, além da competição com grandes produtores de outras regiões do país”, Elton acrescenta.
Brasileiro continua a tomar café
Em 2024, o preço mundial do café subiu quase 40% em relação a 2023, de acordo com um relatório publicado nesta sexta-feira (14) pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação. A alta é puxada, segundo especialistas, por problemas climáticos e aumentos nos custos de produção.
Por outro lado, no Brasil, o consumo de café teve um aumento de 1,11% entre novembro de 2023 e outubro de 2024. Os brasileiros consumiram 21,916 milhões de sacas de café no ano passado, aponta a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).
Além disso, na sexta (14), o governo federal zerou a alíquota de importação de uma série de alimentos, entre eles o café.
Como alguém inserido nas dinâmicas da produção do café, Diogo Castro ressalta os desafios, as instabilidades e as variáveis que o item enfrenta, como as condições climáticas. Por isso, para ele, o café está sendo valorizado e tem um valor justo.
“Se a pessoa for analisar todo o trabalho que está sendo feito até chegar na mesa do consumidor, porque você sabe que os valores vão aumentando no decorrer. Nisso aí, tem as fases que vão encarecendo o café também. O café está chegando dentro da normalidade do que ele é trabalhado”, opina ele.
Já Elton Alves argumenta que “o aumento dos preços do café no mercado nacional tem gerado preocupações tanto para consumidores quanto para produtores”.
“Embora preços mais altos possam beneficiar os produtores em termos de receita, eles também podem refletir custos de produção elevados e desafios na cadeia de suprimentos. O Sebrae tem acompanhado essas dinâmicas e oferece suporte aos produtores locais para que possam se adaptar às variações do mercado e manter a competitividade”, pontua Elton.
No próximo dia 25, o Sebrae vai realizar um seminário técnico em Martins e um workshop para baristas.