Veterinário provoca parada respiratória em cachorro em aula na UnP
Um vídeo gravado em um minicurso da graduação de Medicina Veterinária da Universidade Potiguar (UnP), em Mossoró, mostra um professor convidado induzindo uma parada respiratória em um cachorro. O intuito era que os alunos treinassem técnicas de reanimação. Movimentos de defesa dos animais condenaram a prática, enquanto a UnP e o Conselho de Medicina Veterinária informaram que já iniciaram a apuração dos fatos.
O caso aconteceu na última sexta-feira (25). No vídeo divulgado nas redes sociais, o professor afirma: “Eu apliquei uma medicação, eu provoquei uma parada respiratória nele só para poder mostrar para vocês”. O profissional não é docente dos quadros da UnP; estava apenas como convidado para a atividade acadêmica.
O veterinário é Saul Dias Cortez, dono de um hospital veterinário e pet shop em Mossoró. Neste domingo (27), a página do hospital no Instagram fechou o perfil para não seguidores e retirou a imagem de perfil. Já a conta do profissional foi excluída da rede social. A Agência SAIBA MAIS entrou em contato com o local em busca de um posicionamento do médico veterinário. Por meio do Whatsapp, a unidade afirmou que repassaria a informação para Saul; não obtivemos retorno desde então. Não identificamos o estado de saúde do animal.
Em nota, a Universidade Potiguar (UnP) informou que repudia veementemente qualquer prática que configure maus-tratos aos animais.
“A Instituição reforça que já iniciou a apuração rigorosa dos fatos relacionados ao procedimento realizado por um especialista convidado que, registre-se, não integra o quadro docente da Instituição, durante um evento do curso de Medicina Veterinária, no dia 25/4. Ao término da análise, a Universidade adotará todas as medidas cabíveis”, disse a instituição, informando também que permanece à disposição das autoridades competentes e reforça seu compromisso com a ética, o respeito à vida animal e a formação responsável dos seus alunos.
Já o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado do Rio Grande do Norte (CRMV-RN) manifestou atenção e comprometimento diante do caso envolvendo o médico-veterinário em ambiente acadêmico, informando que está ciente e já iniciou a apuração dos fatos dentro do que lhe cabe legalmente.
“O Conselho reitera seu compromisso com a ética profissional, com a responsabilidade no exercício da medicina veterinária e, sobretudo, com a defesa do bem-estar animal em todas as esferas de atuação. Providências serão tomadas com responsabilidade, seguindo os trâmites legais, sempre garantindo o devido processo legal, a ampla defesa e o contraditório. Seguimos atentos e atuantes para assegurar que práticas compatíveis com os princípios e regras da profissão sejam sempre priorizadas”, disse, em nota, a entidade.
O assunto chegou à Câmara Municipal de Mossoró. Na manhã desta segunda (28), a Comissão de Meio Ambiente, Mudança do Clima e Proteção Animal se reuniu com o objetivo de encaminhar um pedido de esclarecimentos aos órgãos responsáveis como o CRMV e iniciar o acompanhamento dos fatos.
“A reunião é importante e necessária para acompanhar a apuração dos fatos e assegurar que todas as providências legais sejam devidamente adotadas”, destacou o presidente da Câmara Municipal de Mossoró, Genilson Alves (UNIÃO).
Movimentos de defesa dos animais também reagiram. O Abrigo Mossoró e o Instituto Ampara, que atuam na cidade do Oeste potiguar, disseram que a ação é uma “flagrante violação às normas éticas e legais vigentes”.
Segundo os grupos, toda experimentação ou uso de animais em atividades científicas no Brasil deve, obrigatoriamente, ser previamente submetida e aprovada pela Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA), conforme determina a Lei nº 11.794/2008.
“Não houve qualquer aprovação para este procedimento, o que agrava ainda mais a conduta do médico veterinário envolvido, caracterizando desrespeito às normas de proteção animal”, afirmam, também citando o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais para falar sobre a prática de abuso, maus-tratos, ferimentos ou mutilações em animais.
“Ressaltamos que, embora a responsabilidade principal recaia sobre o veterinário que levou e submeteu o animal a tamanhos maus-tratos, a universidade, ao permitir a realização da prática em suas dependências e perante seus alunos, também possui responsabilidade subsidiária, pois tem o dever de fiscalizar toda atividade didática que envolva seres vivos, garantindo que sejam respeitadas as normas ético-legais e priorizados métodos alternativos, como determina o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (CONCEA), em consonância com o princípio dos 3Rs (Replacement, Reduction, Refinement)”, continuam os movimentos.
O Abrigo Mossoró e o Instituto Ampara completam que “a crueldade e o sofrimento impostos a um ser senciente, jovem e indefeso são injustificáveis, ainda mais em um ambiente acadêmico que deveria formar profissionais comprometidos com o respeito e o bem-estar animal.”