Na Ribeira, as memórias de um consertador de máquinas de escrever
Natal, RN 26 de jul 2026

Na Ribeira, as memórias de um consertador de máquinas de escrever

6 de julho de 2025
4min
Na Ribeira, as memórias de um consertador de máquinas de escrever
Fotos: Mirella Lopes

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Um nome comum para uma atividade em extinção. Raimundo Antunes de Souza conserta máquinas de escrever em uma oficina simples, localizada no bairro da Ribeira. Ele exerce a mesma atividade desde os 13 anos, quando deixou a cidade de Macau.

Minha irmã trabalhava na Rua Dr Barata e arranjou um emprego para mim. Trabalhei uns seis meses lá a aprendi muita coisa com Nóbrega, que era o mecânico”, lembra.

Essa primeira oficina foi só o início de uma saga. Além de diferentes estabelecimentos na Ribeira, Raimundo também trabalhou no Alecrim e passou um ano em São Paulo, antes de voltar a Natal.

Eu sou muito família. Passei um ano fora fazendo um curso. Meu filho, que hoje tem 50 anos, tinha um ano de idade quando fui para São Paulo. A saudade apertando, aí comecei de noite a pensar ‘tô morando aqui com minha família, mas vou ter que viajar para os interiores, não vou poder ficar com eles… esse negócio não vai dar certo’”, recorda Raimundo, que recebeu convite para ficar pela Paulicéia desvairada e chegou até a ver apartamento.

Por incrível que pareça, muita gente ainda utiliza a máquina de escrever, o que garante a Raimundo clientela fixa, mesmo depois da aposentadoria. Para fazer os consertos, sem a fabricação de novas unidades, a reposição vem de peças de máquinas antigas que foram para a sucata. Pelas mãos dele já passaram tudo que é marca, como Olivetti, Remington e Underwood.

Raimundo é uma pessoa simples e, apesar de consertar as máquinas com paixão pelo que faz até hoje, nunca se arriscou a escrever em uma delas.

Meu negócio é o conserto mesmo. Só escrevi pra testar“.

Apesar de já estar aposentado, ele continua trabalhando até hoje e vez por outra nem cobra pelo serviço que presta… se notar que o cliente está interessado pelo universo das máquinas de escrever.

É de mim ser assim“, conta.

Raimundo tem uma coleção de máquinas em uma estante e estava com três desmontadas na mesa para reparo quando cheguei.

“Tem um cliente que quando vai consertar a máquina manda uma pessoa junto pra ficar esperando, ele não passa um dia sem ela”, revela.

De jeito manso e fala forte, Raimundo nos lembra de um tempo imaginário onde os dias eram mais lentos. Enquanto conversávamos, na oficina na Ribeira, perdi as contas de quantas vezes ele parou com a voz embargada e os olhos cheios de lágrimas a cada vez que falava da família.

Raimundo tem dois filhos e uma filha que geraram dez netos e um bisneto, além de uma bisneta que está por nascer. Apesar da paixão pela profissão, nenhum dos descendentes herdou o mesmo interesse pelas máquinas.

Nunca trouxe eles para oficina, era um ambiente pesado“, justifica.

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