1º prédio de 10 andares de Natal atrai nova geração para o Centro
Natal, RN 25 de jul 2026

1º prédio de 10 andares de Natal atrai nova geração para o Centro

25 de julho de 2026
7min
1º prédio de 10 andares de Natal atrai nova geração para o Centro

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O elevador ainda funciona, mas carrega o peso de quase seis décadas de história. Na subida até um dos apartamentos do Edifício 21 de Março, localizado na Cidade Alta, em Natal, ele cumpre seu percurso normalmente. Na descida, porém, já está parado. O síndico explica com naturalidade: é um equipamento antigo, como o próprio edifício. A cena, aparentemente banal, resume um momento vivido pelo prédio. Construído em 1964 e inaugurado em outubro de 1966, o primeiro edifício de dez andares em condomínio de Natal atravessa um processo de renovação que passa tanto por suas estruturas físicas quanto pelo perfil de seus moradores.

Uma placa de bronze instalada na entrada registra esse pioneirismo. Nela estão gravados os nomes dos engenheiros responsáveis pela construção, entre eles Luiz Noya Volfson, autor do projeto, além da informação que transformou o prédio em um marco da verticalização da capital potiguar. Durante décadas, entretanto, o edifício envelheceu junto com o Centro Histórico. Enquanto outras regiões da cidade concentravam novos empreendimentos imobiliários, a Cidade Alta perdia moradores, investimentos e parte de sua vitalidade residencial.

Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a apresentar sinais de mudança. Artistas, arquitetos, produtores culturais e profissionais ligados à economia criativa passaram a enxergar potencial em apartamentos antes ignorados pelo mercado. Entre eles está a arquiteta e pesquisadora Wire Lima, que comprou um imóvel no edifício depois de meses acompanhando anúncios publicados na internet. O interesse começou quase como brincadeira. Ao lado de um amigo, ela costumava pesquisar apartamentos na Cidade Alta e já conhecia praticamente todos os edifícios da região, seus preços e características:

“Era uma pesquisa meio obsessiva”, conta. “A gente sabia qual apartamento aparecia na OLX, quanto custava, quais tinham vista para o rio. Era uma brincadeira, mas no fundo existia um desejo real", revela em entrevista à Agência Saiba Mais.

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O encontro definitivo aconteceu de maneira espontânea. Sentada em um banco em frente ao prédio, ela imaginava como seria a vista dos apartamentos voltados para o Rio Potengi. Resolveu bater à porta e perguntar ao então síndico se existia alguma unidade disponível. Primeiro conheceu um apartamento voltado para o lado oposto. Insistiu que queria conhecer um com a vista para o rio. Voltou no dia seguinte e bastaram poucos minutos para decidir que aquele seria seu novo endereço.

A escolha não foi apenas imobiliária. Pesquisadora do grupo História da Cidade, do Território e do Urbanismo da UFRN, onde desenvolve um mestrado sobre a relação entre os cinemas de rua e a expansão urbana de Natal, Wire construiu sua trajetória acadêmica investigando patrimônio e memória da cidade. O interesse pelo Centro Histórico, no entanto, antecede a universidade. Filha de um trabalhador que atuava na região da Ribeira e criada no bairro Satélite, ela lembra que, ainda criança, associava a Cidade Alta a uma experiência de liberdade. “Eu vinha para cá e sentia que podia caminhar, entrar nas lojas, tomar um sorvete. Sempre me senti mais livre aqui do que no bairro onde morava", revela.

Essa relação foi se aprofundando à medida que passou a integrar projetos culturais realizados na região. Vieram as ocupações promovidas pela Meladinha, depois a Frisson, os eventos na Skol, as pesquisas sobre antigos cinemas de rua e, mais recentemente, a prática do remo no Rio Potengi. Para ela, conhecer Natal a partir do rio transformou completamente sua percepção da cidade:

“A gente cresceu aprendendo uma cidade que virou as costas para o Potengi. Quando você entra no rio e vê o pôr do sol dali, percebe outra Natal.”

Essa experiência ajuda a explicar por que a compra do apartamento ultrapassa uma decisão individual. Para ela, morar na Cidade Alta também significa participar de um movimento mais amplo de reocupação do Centro Histórico. Segundo ela, vários amigos ligados à produção cultural já vivem ou procuram imóveis no edifício, criando uma convivência entre moradores antigos e uma geração mais jovem interessada em permanecer na região.

Ela acredita que essa renovação pode fortalecer o bairro justamente porque amplia seus usos.“A Cidade Alta não pode ser apenas um lugar onde as pessoas vêm para sair à noite. Ela também precisa voltar a ser um lugar de moradia", conta.

A própria dinâmica do condomínio ilustra essa transformação. Após décadas sob a administração do mesmo síndico, os moradores iniciaram um processo de modernização da gestão e da infraestrutura. Entre as prioridades estão melhorias na manutenção, atualização da portaria e organização do acervo técnico do edifício. Recém-eleita conselheira, Wire passou a colaborar diretamente nesse trabalho. Um dos projetos consiste em digitalizar as plantas originais do prédio, ainda guardadas em antigos rolos de papel, preservando uma documentação praticamente inédita sobre um dos edifícios mais importantes da arquitetura moderna natalense.

Quem acompanha de perto essa oscilação é o porteiro do condomínio, que trabalha no local desde 2011. Ele relata que, já naquela época, era possível notar uma mudança gradual na vocação do edifício. Embora o 21 de Março seja um prédio misto, com salas e apartamentos, o movimento comercial foi encolhendo ao longo dos anos, dando espaço a uma ocupação cada vez mais predominantemente residencial.

Para a arquiteta, esse processo acompanha um fenômeno observado em outros centros históricos brasileiros. Ela cita Recife como exemplo. O tombamento do centro histórico da capital pernambucana ocorreu cerca de dez anos antes do de Natal e, segundo ela, muitas das transformações urbanas vividas hoje na Cidade Alta seguem um percurso semelhante. Ao mesmo tempo em que reconhece o potencial econômico dessa valorização, defende que ela aconteça de maneira responsável, evitando processos de especulação imobiliária e substituição das populações que historicamente ocupam esses espaços.

Enquanto o elevador envelhece e as reformas avançam lentamente pelos corredores do edifício, o 21 de Março parece atravessar uma nova fase. O prédio que um dia simbolizou a modernidade de Natal volta a despertar interesse justamente por aquilo que o tornou singular. A sua localização, sua história e a possibilidade de imaginar um futuro para o Centro Histórico a partir da permanência, e não do abandono.

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