O horror da imigração forçada e a síndrome da apatia
Natal, RN 3 de jun 2026

O horror da imigração forçada e a síndrome da apatia

12 de julho de 2025
5min
O horror da imigração forçada e a síndrome da apatia

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O Brasil não tem dimensão do tamanho da crise humanitária contemporânea provocada pela migração forçada por guerras, conflitos, fome e falta de oportunidades de trabalho, especialmente na Europa, África e Oriente Médio. Tive essa sensação ao visitar, em fevereiro, Portugal e Espanha.

Centenas de árabes, africanos de vários países e etnias, indianos, paquistaneses, iranianos, sírios e cidadãos de outras nacionalidades estão nas ruas, nas calçadas, nos ônibus, nos metrôs. Vivem juntos, formando guetos em praças, em bairros pobres ou perambulam sozinhos. Procuram trabalho, bicos ou uma forma menos usual para sobreviver. Estão aos olhos desconfiados de todos e, ao mesmo tempo, invisíveis a qualquer um. A imigração forçada carrega uma colcha enorme de problemas. E o menor deles, talvez, seja a redução dos empregos para os nativos nos países em que os imigrantes se estabelecem.

Pesquisadores, jornalistas, historiadores, analistas políticos, econômicos e escritores têm se dedicado ao tema. Vários cineastas também, a partir de ângulos diferentes. Um deles é o grego Alexandros Avranas, 47 anos, diretor de “Síndrome da Apatia”, lançado em janeiro na Europa e EUA, e nos cinemas brasileiros desde 12 de junho.

Avranas escolheu um recorte bem específico para tratar do problema da imigração: o efeito dela sobre as crianças. O filme expõe, num drama silencioso, a falta de empatia e a violência humanitária do sistema migratório e de saúde da Suécia que, de uma hora para outra, se viu diante de uma doença que afeta o sistema neurológico de crianças submetidas aos traumas desse tipo de brutalidade. São ao menos 700 casos semelhantes no país que o mundo desconhece.

No filme baseado em histórias reais, uma família de imigrantes russos, perseguida no país de origem, luta para manter o visto permanente na Suécia. Por falta de provas que confirmem a perseguição e as agressões sofridas pelo patriarca, um ex-professor do ensino médio, o documento é negado a toda a família, cujo núcleo é formado por pai, mãe e duas filhas. A decisão do conselho de imigração é clara: se no prazo de 12 dias a família não apresentar um recurso com provas e testemunhas das perseguições a que foram submetidos, todos serão deportados.

As meninas começam a rememorar os traumas recentes na Rússia e a mais nova simplesmente apaga, paralisa e entra num coma profundo. A ciência não explica, a não ser tratando a doença pelo nome de síndrome da resignação ou da apatia. As funções do cérebro simplesmente param e não há tratamento eficaz.

A partir daí o filme aborda, entre muitos aspectos, a incapacidade do Estado sueco de acolher uma família de refugiados, o que inclui a burocracia do sistema migratório e também o de saúde. Sem amparo legal, os pais são impedidos de levar a criança para casa e se submetem às regras do hospital para visitação. Os dois, claro, entram em colapso emocional correndo contra o tempo para tentar o recurso afim de permanecer no país. Para tanto, obrigam a filha mais velha a servir de testemunha, o que inclui decorar passo a passo, não sem violência, como se deu um dos episódios de agressão contra a família. O detalhe é que quem presenciou o fato foi a irmã que entrou em coma e não pode falar.

Nesse abismo emocional e afetivo, o diretor alterna planos sequência e planos fechados, diálogos concisos, quase silenciosos e, na maior parte do filme, dispensa a troca de afeto e calor humano entre as personagens. E tudo o que uma mãe e um pai naquela situação precisam é do calor de um abraço e acolhimento. Mas até isso é negado pelo diretor em nome do Estado. É tudo muito frio, quase gélido, incluindo as cores da fotografia do filme.

Como em histórias dramáticas e tragédias sociais que vemos aos montes na TV e nos jornais, a solidariedade aparece de forma espontânea, quando e de onde menos se espera. Uma enfermeira do hospital, também imigrante, que passou pela mesma experiência com um filho, é quem estende a mão. Um naco de humanidade num mar de sofrimento.

Ao abordar também a difícil reconstrução das relações de afeto entre pais e filhos em um contexto completamente inóspito e novo, o filme nos revela mais uma vez que a imigração forçada vai muito além de um exílio físico de corpos, o que já não é pouco. Os traumas dessa tragédia humanitária avançam sobre as fronteiras, desorientam nosso juízo e afetam, de um modo ou de outro, toda a sociedade.

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