Para quem me conhece, sabe o quanto eu sou desorientada espacialmente. Aliás, acho que essa é uma das informações mais comuns que as pessoas sabem a meu respeito. Em algum momento vou dizer: “Tenho o GPS do quebrado.”
E não é exagero. Eu consigo me perder em lugares onde já estive vinte vezes. Saio de uma loja e não faço a menor ideia de onde está o carro em que vim. Entro por uma porta e, cinco minutos depois, já não sei por qual corredor passei. Se me perguntarem onde fica o norte, eu respondo com sinceridade: “Depende… norte de quem?”.
Já aceitei que meu senso de direção veio com defeito de fábrica. Enquanto algumas pessoas parecem carregar uma bússola interna, eu carrego uma roleta. Qualquer decisão de virar à direita ou à esquerda depende mais da sorte do que da geografia.
Por isso, quando alguém me pede informação na rua, eu desenvolvi uma técnica infalível: faço cara de quem está muito atrasada e continuo andando. Não é falta de educação; é responsabilidade social. A última coisa de que o mundo precisa é de alguém seguindo as minhas orientações. Mas eis que aconteceu.
Outro dia eu estava em um lugar relativamente grande, desses que parecem feitos para confundir quem já nasceu sem orientação espacial. Caminhei por corredores, entrei em salas, saí, voltei, atravessei um pátio e, de repente, tive uma sensação inédita.
Eu sabia exatamente onde estava e não era um palpite, não era uma esperança, era uma certeza. Olhei ao redor e pensei: “Então é isso que as pessoas normais sentem?” (HAHAHAHAHAHA!!!)
Ai, como aquilo me deu uma felicidade. Foi emocionante.
Naquele instante, meu cérebro abriu uma janela que permaneceu fechada durante décadas. As ruas, os corredores e as referências começaram a fazer sentido. Tudo parecia conectado por fios invisíveis que, misteriosamente, eu conseguia enxergar.
E o universo, que adora testar nossa humildade, resolveu aumentar o nível da prova. Uma pessoa se aproximou.
– Com licença, sabe onde fica…
Meu coração acelerou.Era a oportunidade de ouro… ou a chance de destruir a vida de um desconhecido. Respirei fundo. Pensei alguns segundos, visualizei mentalmente o caminho e, pela primeira vez na existência, a resposta apareceu inteira dentro da minha cabeça.
Expliquei com segurança. Usei expressões como “segue reto”, “vira à esquerda” e “depois da escada”. Palavras que, até então, pertenciam exclusivamente ao vocabulário das pessoas funcionalmente localizadas.
A pessoa agradeceu e foi embora, enquanto eu fiquei observando de longe.
Confesso que esperei vê-la retornar alguns minutos depois, completamente perdida, perguntando onde tinha errado. Era o desfecho mais coerente com a minha biografia. Mas não. Ela desapareceu na direção indicada, o que me levou a crer que ela acertou o caminho.
Naquele momento, senti algo próximo ao que imagino que um cientista sinta ao comprovar uma teoria ou um jogador ao marcar um gol de bicicleta. Meu GPS cerebral, ainda que por alguns minutos, havia ligado.
Não sei explicar o fenômeno. Talvez tenha sido um alinhamento cósmico. Talvez Mercúrio tenha saído da retrogradação. Talvez algum satélite tenha confundido meu cérebro com um celular novo e resolvido atualizar o sistema.
Só sei que aconteceu e desde então, continuo me perdendo com uma frequência estatisticamente preocupante. Ainda entro em estacionamentos sem lembrar pra que lado devo ir e ainda preciso do aplicativo para encontrar lugares que ficam a três esquinas de casa.
Mas agora existe um precedente: Ninguém poderá dizer que eu nunca soube me localizar. Eu soube. Uma vez. E foi tão extraordinário que considero esse episódio um verdadeiro patrimônio das minhas memórias. Afinal, milagres existem. Alguns fazem água virar vinho. O meu fez uma pessoa chegar ao destino graças às minhas instruções.
Convenhamos: para quem vive dizendo que tem o GPS quebrado, isso já merece até placa comemorativa no local da ocorrência.