A arte inquieta e provocadora de Falves Silva
Francisco Alves da Silva nasceu numa família simples em Cacimba de Dentro, na Paraíba, mas acabou fixando morada em Natal. Trabalhando desde criança para ajudar a mãe, foi preciso um certo tempo para maturar e fazer nascer o artista gráfico Falves Silva, um dos expoentes do Poema/ Processo, ao lado de nomes como Moacyr Cirne, Wlademir Dias Pino, Álvaro de Sá e Neide Sá, tendo participado do manifesto que inaugurou o movimento em 1967, em Natal.
Falves, que vive quase no anonimato em Natal, participou da XVI Bienal de São Paulo, em 1981, além de exposições individuais e coletivas, tanto no Brasil, quanto no exterior. Expôs em São Paulo, Curitiba, no International Mail Art Exhibition, em Tóquio (1984), e na II Bienal de Arte Correio, na Espanha (1999). O artista possui obras que integram acervos importantes, como o do Museo Reina Sofía (Madrid), do Centro Cultural São Paulo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, da Universidade de São Paulo e do Instituto Itaú Cultural.
Homem de visão, suas linhas, cores, pontos e traços delineiam uma imaginação inquieta, que foge ao óbvio em busca de sentidos estéticos, nem sempre compreendidos.
Numa nem tão rápida conversa no Mercado de Petrópolis, Falves Silva, que está com 82 anos, conversou com a Agência SAIBA MAIS sobre o início da vida em Natal, a paixão pela arte, os caminhos até o Poema/Processo e o atual estado das coisas no mundo. Vai perder?
Falves Silva: Você já trouxe as perguntas prontas?
Saiba Mais: Não, pesquisei sobre sua vida, mas não fiz perguntas para não ficar aquela coisa engessada, a gente vai conversando. Ao telefone você me disse que estava lendo um livro sobre as revoluções em Mossoró. O que está lendo?
Não é minha leitura mais adequada, mas é sobre o início do comunismo em Mossoró. São dois livros: um se chama ‘O Sindicato do Garrancho’ e o outro é sobre Luiz Alves, que é outro cara de esquerda de Mossoró, que está sendo lançado agora, também pela Fundação José Augusto. Teve um momento que as cidades de Mossoró, Açu, Areia Branca, antes de se separarem, foram particularmente importantes para a política do Rio Grande do Norte isso na década de 1930. Foi uma contribuição aguerrida de indivíduos comuns, operários, fizeram muitas manifestações.
Você tem um caminho anarquista…
Eu não tomo partido político, apesar de meu trabalho ter muita relação com as questões sociais. Eu critico o sistema político e social existente.
Como começou seu interesse pela arte gráfica?
A arte veio antes de eu começar a trabalhar em gráfica. O primeiro contato que tive com a arte foi com histórias em quadrinhos, que eu continuo lendo, sou um colecionador, gosto da técnica e acho que é uma maneira muito boa de se educar, no sentido mesmo pedagógico. Se todas as crianças lessem histórias em quadrinhos, e isso é uma utopia também, elas aprenderiam bem mais facilmente. Eu colecionava na década de 1950 e ia para as portas dos cinemas vender, trocar… era um hábito das crianças daquele período. Foi assim que fui desenvolvendo meu conhecimento, juntamente com o cinema, sou fundador do Cineclube Tirol, na década de 1960. Comecei a trabalhar como operário em gráfica em 1957 e a partir daí comecei a compreender como se faz livros…



De quadrinhos o que você continua lendo?
Guido Crepax é um dos principais, mas tem outros, como Alex Raymond, José Ortiz, que faz quadrinhos de faroeste. Eu leio mais pela qualidade dos desenhos, geralmente um bom quadrinista tem um bom companheiro que faz a história.
E como o cinema entrou na sua história?
Eu começo a ver os primeiros filmes já com dez anos, vou aprendendo aos poucos. Naquele tempo não tinha preocupação estética, era mais a diversão, menino né… Depois, com o tempo, fomos agregando amigos que também gostavam de cinema e criamos o cineclube para estudar o que é o cinema.
Com o cineclube vocês acabaram formando um grupo interessante de onde saíram grandes intelectuais…
Vários artistas e intelectuais nasceram naquele momento, como Moacy Cirne, Franklin Capistrano, Francisco Sobreira, Bené Chaves, Alderico Leão. Até então havia apenas um cineclube na cidade que ficava dentro do Marista e não era aberto ao público. Fomos estudando o propósito estético do cinema, passamos super 8, curta metragem. Nos reuníamos ao lado da Igreja Santa Terezinha, no salão paroquial, o pároco na época era Padre Barbosa, estávamos perto da ditadura, por volta de 1961, era um padre progressista, mas nosso propósito era estudar o cinema. Inicialmente assistíamos um bocado de tipos de filmes para discutir, não tinha ninguém formado para saber quais os melhores diretores e à medida que fomos seguindo, fomos descobrindo os filmes mais interessantes, os movimentos cinematográficos, depois surgiu a Nouvelle Vague na França, o Cinema Novo no Brasil, o contexto passou a ser político e estético.
E como foi a passagem do cinema para a arte gráfica?
Foi do cinema para a gráfica, ainda não era arte. Eu comecei trabalhando como um operário comum, varrendo na Tipografia Galhardo. Foi dentro da gráfica onde aprendi a fazer meus livros, sempre gostei de ler. Foram mais de 60 anos de atividades e a gente vai aprimorando o conhecimento, mudando de estilo. A gráfica foi minha subsistência e lá eu aproveitei e incuti a minha pretensão em me tornar escritor e tal. Sempre gostei muito de experimentar, inclusive na leitura, sou bem radical, tem certos autores consagrados que não leio, como Jorge Amado, ele tem muita facilidade de se comunicar com as pessoas, mas eu acho muito repetitivo. Acho que a arte é o seguinte, esse é um conceito meu e de muitas outras pessoas, quando alguém lê determinado livro e compreende com facilidade, o best seller, por exemplo, é feito com a intenção de vender, não de educar. Quando você termina aquele livro e compreende imediatamente, você esquece aquilo e vai ler outro e assim vai… isso é uma literatura de produção em massa que não interessa a conhecimento humano. É como novela, é tudo igual. As características humanas são comuns em qualquer lugar do mundo, todo mundo come, dorme, sonha, briga… a própria Bíblia, que é um livro secular, já conta essas desavenças. É um livro sangrento, mas a Igreja Católica leva para o lado divino. No passado, no princípio dos tempos primitivos, Deus estava ligado à terra. A mulher, que é o componente mais importante de toda essa história, era considerada deusa em determinadas regiões do mundo. Deus é terra, você nasce, vive e morre na terra. Mas quando chegam os teóricos católicos, transformam o deus da terra que é ligado à mulher num deus inexistente, no céu, que ficam muito distante e você não sabe onde é nem como. Antes você estava perto: deus-mulher-na terra/ deus-homem-no-céu. Não pode sob o ponto de vista material. Aí cria o poder masculino, de propósito, que é para escantear a mulher. E hoje essa história continua em toda parte do mundo. Há lugares no mundo onde a mulher não pode conversar como estamos fazendo agora.
Me conte mais sobre sua leitura de mundo…
Eu acho o seguinte, quando somos jovens, batalhamos por um mundo mais acessível, maleável, menos cheios de mazelas, mas observo que isso foi piorando conforme o tempo foi passando. Mas, se olharmos a história do passado, ela foi muito mais violenta do que o que contam, hoje fazem isso em massa, veja o que estão fazendo em Gaza, a na Ucrânia… e agora os Estados Unidos, é uma confusão tão grande que acho que estou quase desistindo da humanidade, é terrível assistir a isso tudo. Nem vejo televisão direito porque me angústia e na idade que estou… penso ‘puxa vida, o que foi que eu fiz? Tanto que batalhei para melhorar o mundo… mas o ser humanos não deve desistir de suas esperanças. Às vezes a pessoa só leva pancada, veja a quantidade de pessoas vivendo nas ruas numa cidade como São Paulo, a cidade é linda, a mais rica da América Latina e, também, a mais miserável. São contradições de uma sociedade que está se modernizando, mas em qual sentido? A humanidade caminha pra onde? Os poderosos estão querendo fazer piquenique em Marte, na Lua…. e aqui a coisa degringolando.

Nanquim e colagem sobre papel 31,5 × 22 cm Políptico de 6 – 1/6 I Em exposição na Galeria Superfície, em São Paulo
Qual foi o papel do cineclube nesse processo intelectual?
Lá a gente se intelectualizou, cada um chegando com suas ideias, indicava uma leitura e a partir daí foi crescendo, inclusive, o movimento do Poema/Processo que surge a partir do cinema.
Quais leituras mudaram sua visão de mundo?
Meus autores prediletos são Edgar Allan Poe, James Joyce, Sartre, Kafka, Clarice Lispector, João Guimarães, Rosa, João Cabral de Melo Neto, Wlademir Dias Pino, Álvarez de Sá, Moacy Cirne, Anchieta Fernandes, que são daqui do Rio Grande do Norte, e o poeta José Bezerra Gomes e Jorge Fernandes. Não citei alguns autores de propósito, como Câmara Cascudo, porque não sou leitor dele. Gosto de autores enigmáticos, assim como na literatura, no cinema, nas histórias em quadrinhos, na poesia e no poema visual…
É bem enigmático o poema visual…
Sim, trata de semiótica, puxa pelo raciocínio do indivíduo. Para que você entenda a provocação, é preciso ter repertório, conhecimento para poder chegar lá.
Como se formou o grupo do Poema/Processo?
Moacyr Cirne era a pessoa com mais condições econômicas e quando ele trazia uma novidade, mostrava aos amigos. Ele foi ao Rio e trouxe a história da poesia concreta. Pensamos ‘legal’ e logo nos integramos. É uma modalidade de poesia totalmente diferente daquilo que vinha sendo feita até então, aquela poesia linear, redundante e o tempo foi passando e chegamos ao Poema/Processo, que é uma dissidência da Poesia Concreta. Um grupo se incorporou a isso, eu fui de imediato, Anchieta Fernandes, Dailor Varela… sempre gostei de uma arte mais enigmática, até intuitivamente. Nós estamos falando nos anos 1960, mas em 1927 já havia um poeta chamado Jorge Fernandes que já tinha poemas que preconizavam a poesia concreta. Também tem o Movimento Futurista, que foi divulgado pelos jornais aqui em 1914, Natal tinha essa tendência para a modernidade. Manoel Dantas tem um livro chamado ‘Natal daqui a 50 anos’ que é percussor dessa modernidade não só literária, mas arquitetônica.

E o que aconteceu com a cidade, que tinha esse ímpeto modernista?
Esse ímpeto foi abafado pelos setores conservadores. Jorge Fernandes só veio a ser descoberto em 1970 e pouco. Ele lançou o livro em 1927. Essa horda de conservadores, inclusive na universidade, abafa. Recentemente foi lançado um livro sobre a literatura do Rio Grande do Norte, no entanto, não de fala sobre o Poema/ Processo que já tem 60 anos. Moacy Cirne, que foi professor da Universidade Federal Fluminense, nunca foi chamado para dar uma palestra numa universidade daqui. Tem um conservadorismo arraigado. Anchieta Fernandes é outro intelectual de peso. Na história da literatura do Rio Grande do Norte você não pode ignorar o papel dessas pessoas e do Poema/ Processo. A cidade é o resultado das pessoas que vivem nela. Natal é uma cidade muito bonita e desenvolvimentista, veja que a arquitetura da cidade está se tornando vertical, antes ela era horizontal.

Por que o Poema/ Processo ficou tão conhecido em Natal?
O problema é que o Poema/Processo não é estudado aqui, mas é fora. Na França, Suécia, Estados Unidos, nos jornais, artigos científicos. Eu já tive um jornal alternativo com Franklin Capistrano que era para divulgar esse tipo de arte, ‘A Margem’. Em 1974 tive conhecimento de uma arte que não conhecia até então a ‘Arte Correio’. Por se tratar de correio, o artista tem o direito de fazer seu próprio selo, sem valor comercial, mas com valor artístico. Esse foi meu primeiro Poema/ Processo [mostra a obra AMO, 1968], é o símbolo masculino, de penetração, eu tenho ele em casa maior. Ele é circular, minha ideia é que fosse como um relógio, sempre rodando, as cores são vermelhas, azul e roxa, é porque na impressão saiu preta, a junção do azul com o vermelho é o roxo. Isso significa Eros e o círculo é o princípio da vida e da morte, porque não sabemos onde a vida começa e termina. Mas a Arte Correio é muito mais dinâmica que isso.

Como está esse Movimento hoje?
O Poema/ Processo está sendo estudado n Brasil de uma maneira geral, inclusive nas universidades. Aqui no Rio Grande do Norte tem dissertação de mestrado, no Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Belo Horizonte, Natal é que é menos interessada, mas há colecionadores que compram. Recebi um livro recentemente da Universidade de San Diego, Califórnia [Estados Unidos] sobre Arte Correio, que é uma das modalidades e tem trabalho meu e texto de Alexandre Alves, que é meu filho. Recebi também um livro de estudantes de São Paulo que pesquisam a obra de Moacy Cirne e outro livro sobre a trajetória dele. Acho que Moacy e Anchieta Fernandes foram os intelectuais mais importantes da minha geração. Moacy era o teórico, mas todo movimento precisa de quem o execute, foi o que fiz com outros integrantes. Continuo produzindo, mas falta reconhecimento, principalmente local.