Gestora do Parque das Dunas expõe preocupação com Parque Linear em Natal
Natal, RN 13 de jul 2026

Gestora do Parque das Dunas expõe preocupação com Parque Linear em Natal

23 de agosto de 2025
5min
Gestora do Parque das Dunas expõe preocupação com Parque Linear em Natal
Mari Soragi classificou a proposta como incompatível com o zoneamento da unidade de conservação

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A proposta da Prefeitura de Natal de implementar o Parque Linear ao lado da avenida Engenheiro Roberto Freire, na Zona Sul de Natal, tem enfrentado resistência de ambientalistas e órgãos da área. Em audiência pública realizada pela Câmara Municipal nesta sexta-feira (22), a gestora do Parque das Dunas, Mari Soragi, classificou a proposta como incompatível com o zoneamento da unidade de conservação.

Hoje, o local em que deve funcionar o Parque Linear é área de reserva de Mata Atlântica protegida por lei. O projeto prevê a utilização de uma área de aproximadamente 10 hectares dentro dos limites do Parque das Dunas — o maior parque urbano em área contínua sobre dunas do Brasil. A cessão do terreno, sob responsabilidade do Exército Brasileiro, foi formalizada por meio de um termo de concessão assinado recentemente pela Prefeitura do Natal e pelo Exército.

“A proposta é desmatar 10 hectares de Mata Atlântica para implantar um Parque Linear. Ou seja, desmatar um dos biomas mais impactados, mais degradados e mais ameaçados de extinção”, disse Mari Soragi na audiência pública.

A gestora ainda afirmou que o processo foi conduzido até o momento sem nenhum diálogo, nem com o Conselho Gestor do Parque das Dunas, do qual é presidente, nem com o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (Idema), responsável pelo Parque das Dunas. 

“E pasmem que a Prefeitura de Natal e o Exército Brasileiro são conselheiros do Conselho Gestor do Parque das Dunas”, continuou.

Mari Soragi ainda explicou a diferença do que seria um parque urbano, um Parque Linear e o Parque das Dunas.

Um parque urbano é um espaço verde, público, com áreas urbanizadas, destinadas a um lazer, áreas abertas, ou até pode ter delimitações, mas não tem muitas restrições de uso. A gente pode pensar na Cidade da Criança, Bosque das Mangueiras”, disse, antes de completar:

“Quando a gente fala de um parque linear, estamos falando de um corredor verde, urbano, estreito e alongado, geralmente ao longo de rios, faixas ou rodovias. O Parque Linear, conceitualmente, é implantado para renaturalizar áreas, ou seja, recuperar áreas degradadas. E não a gente querer desmatar a Mata Atlântica para implantar um parque linear“, explicou.

Já o Parque das Dunas é uma Unidade de Conservação de Proteção Integral, com o objetivo de preservar os seus recursos o máximo que puder. Segundo Mari Soragi, a proposta do Parque Linear traz uma “incompatibilidade total com o zoneamento” do Parque das Dunas. Ela afirmou que o modelo não se enquadra em alguns parâmetros do zoneamento e viola diretrizes legais e técnicas. 

“Essa proposta do Parque Linear traz um risco gigante que não pode nem deve ser desconsiderado por essa Casa e nem por nenhum de nós, moradores de Natal. Risco de fragmentação ecológica, aumento da pressão antrópica, um precedente extremamente negativo para a descaracterização daquela área”, afirmou.

Sem diálogo

Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e coordenadora do Fórum pelo Direito à Cidade, a urbanista Ruth Ataíde demonstrou surpresa ao saber que o assunto não havia sido discutido no âmbito do Conselho Gestor do Parque das Dunas, mesmo a Prefeitura tendo assento.

Nós deveríamos estar discutindo no sistema de gestão estabelecido pelo Plano Diretor com a sociedade civil. Não estou negando a importância desse momento, mas a gente já está na Casa legislativa, que é o passo posterior, digamos assim, e essa discussão não está aberta no Executivo. É como se o Executivo não reconhecesse o sistema de gestão que está lá, que tem dez secretarias articuladas em torno do Conselho da Cidade, e esse sistema deveria estar discutindo amplamente um projeto de tamanha envergadura”, apontou.

Procurador da República faz alerta sobre falta de dados

Representando o Ministério Público Federal, o procurador da República Victor Mariz informou que ainda faltam dados como o levantamento florestal e estudos morfológicos, e fez um alerta: 

“Antecipem-se aos problemas. É fundamental avaliar se esse tipo de intervenção é mesmo compatível com uma unidade de conservação integral”, ponderou Mariz.

O que diz a Prefeitura de Natal

O secretário municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb), Thiago Mesquita, detalhou o plano e defendeu sua viabilidade:

“Essa área representa menos de 1% do total. Vamos transformar 100 mil metros quadrados, atualmente sem uso, em um parque linear com foco em educação e percepção ambiental, atividades esportivas, lazer e espaço para eventos”, explicou Mesquita, afirmando que o projeto também conta com um trabalho de reflorestamento da área.

De acordo com o titular da Semurb, o processo de licenciamento será feito pela pasta, contará com a participação social e respeitará todas as normas ambientais aplicáveis, inclusive o Plano de Manejo da área. Além disso, serão executadas medidas compensatórias como o reflorestamento, compensações ambientais, programas de monitoramento ambiental, além de medidas de mitigação de impacto ambiental.

Procurador do município de Natal, Fernando Benevides rebateu a informação da gestora do Parque das Dunas, Mari Soragi, de que seria feito um desmatamento no local.

“Eu queria dizer à senhora que vai haver Parque Linear, mas vai haver dentro da juridicidade, dentro da legalidade, com respeito”, disse.

“Tudo vai ser observado pelo município. Eu acho que a gente não pode punir a iniciativa. O município teve a iniciativa de trazer um equipamento, o Exército teve a sensibilidade, e eu entendo que isso é um presente para toda a cidade do Natal”, afirmou o procurador.

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