Trançar memórias, afirmar identidades: o trabalho das trancistas do RN
Natal, RN 14 de jun 2026

Trançar memórias, afirmar identidades: o trabalho das trancistas do RN

31 de agosto de 2025
7min
Trançar memórias, afirmar identidades: o trabalho das trancistas do RN
Dia Estadual da Pessoa Trancista, o ofício que une estética, cultura e resistência ganha legitimidade legal e projeta novas possibilidades para mulheres negras e pessoas trans que vivem das tranças.

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Por muito tempo, o som das mãos entrelaçando fios, conversas embaladas pelo barulho das ruas e risadas que ecoam em salões improvisados permaneceram invisíveis aos olhos do Estado. O trabalho das trancistas, ofício que atravessa séculos de história e resistência do povo negro, sempre foi essencial para a autoestima, a sobrevivência econômica e a preservação da cultura afro-brasileira, mas quase nunca foi legitimado como profissão.

Agora, essa história começa a ganhar novos contornos. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) oficializou a inclusão das trancistas na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sob o código 5161-65, um gesto que reconhece, pela primeira vez, a força econômica, social e cultural desse ofício que, há séculos, pulsa nas mãos de mulheres negras. A regulamentação nasce a partir do Projeto de Lei nº 2831/2024, que propõe a alteração da Lei nº 12.592/2012 (Lei dos Salões-Parceiros) para dar às trancistas o direito de exercer sua arte com dignidade e amparo legal.

Mais do que garantir jornada regulamentada e benefícios trabalhistas, a medida reafirma a importância de um patrimônio vivo da ancestralidade afro-brasileira.

Ato de memória e cuidado

As tranças atravessaram oceanos, vieram nos navios negreiros como códigos de resistência, mapas de fuga e símbolos de pertencimento. No Brasil, tornaram-se também uma forma de gerar renda, criar redes de solidariedade e reafirmar a identidade negra diante de um país estruturado pelo racismo.

Com o novo enquadramento da CBO, a descrição da profissão passa a contemplar não apenas o cuidado estético, mas também a promoção da saúde capilar e a função social da prática. A categoria agora engloba também os termos “trançadeira capilar” e “artesã capilar”, reconhecendo a diversidade de saberes e técnicas que compõem esse ofício ancestral.

No RN, o reconhecimento da profissão encontrou eco em outra conquista simbólica: a sanção da lei nº 185/2024, de autoria da deputada estadual Divaneide Basílio (PT), que institui o Dia Estadual da Pessoa Trancista, celebrado anualmente em 6 de junho.

A lei homenageia a trancista baiana Idalice Moreira Bastos, a Dai, pioneira na valorização da estética negra no Brasil, e orienta que, na data, sejam realizadas ações como feiras, formações, campanhas educativas e homenagens, em consonância com o Estatuto da Igualdade Racial (Lei nº 12.288/2010).

“A arte de trançar é ancestral, é identidade, é resistência. Ao instituirmos o Dia da Pessoa Trancista, celebramos não apenas um ofício, mas a força de um legado histórico que atravessa gerações, especialmente entre as mulheres negras”, destacou Divaneide. “Reconhecer o Dia da Pessoa Trancista é reconhecer também a presença do povo negro no mercado de trabalho e na cultura do nosso estado”, reintera.

Se as leis e portarias abrem caminhos, são as mãos das trancistas que dão vida e significado a esse reconhecimento.

As mãos que trançam o cuidado e a possibilidade

Para Aisha Lemos, idealizadora do Estúdio TransCistas, as tranças representaram uma chance de reescrever a própria história. Travesti, Aisha encontrou nesse ofício uma alternativa à prostituição, que por muito tempo foi a única possibilidade de sustento colocada para corpos trans no Brasil.

“Dentro das tranças eu vi a possibilidade de criar um novo rumo, de mudar minha vida e a de outras pessoas. É sobre resgatar ancestralidade e cuidar da autoestima das pessoas, em um espaço de acolhimento e troca de energia”, afirma.

Mas os desafios persistem. Aisha relata a transfobia estrutural como uma barreira que limita o acesso a espaços e desvaloriza seu trabalho. “As pessoas querem ditar quanto cobrar, como fazer, como se não houvesse anos de estudo e dedicação como os de profissionais cisgênero. Isso nos atravessa muito. Mas ao mesmo tempo, ser trancista me dá autonomia: posso escolher meu cliente, posso ter liberdade criativa e financeira. É um filtro poderoso de afeto e respeito", conclui.

Já para Dona Laura, agente cultural e trancista em Natal, o ofício começou com um gesto íntimo: cuidar do próprio cabelo no processo de transição capilar. A experiência pessoal virou profissão e, desde 2021, ela se dedica integralmente à prática.

“Compreendi que as tranças são mais que estética: são uma ferramenta de empoderamento, resistência e expressão cultural. No RN, ainda faltam políticas públicas e espaços adequados de valorização, mas cada trança é um símbolo de identidade, autoestima e pertencimento. É arte, ancestralidade e transformação social”, diz.


Em 2016, por meio do Coletivo Negras de Periferia, ela deu os primeiros atendimentos, promovendo o autocuidado entre mulheres negras da periferia. Com o tempo, entendeu que trançar não era apenas estética, mas também empoderamento, resistência e expressão cultural. Desde 2021, dedica-se integralmente ao ofício, unindo arte e ancestralidade ao fortalecimento da autonomia feminina. Para ela, o reconhecimento da profissão pela lei representa um marco histórico: legitima práticas ancestrais, abre caminhos para formação e direitos, e ajuda a combater a marginalização que sempre rondou as práticas culturais negras.

Mas a realidade no Rio Grande do Norte ainda é desafiadora: faltam políticas públicas, oportunidades de formação e espaços de comercialização. “É um trabalho que une arte, ancestralidade e transformação social”, resume.

Economia e afeto

Reconhecer o trabalho das trancistas significa também valorizar sua contribuição econômica. A população negra representa 53,6% da sociedade brasileira e movimenta cerca de R$ 800 bilhões por ano. Inseridas nesse contexto, as trancistas não apenas oferecem um serviço estético, mas criam uma rede de consumo e produção cultural que fortalece o afroempreendedorismo.

Cada trança exige tempo, paciência e troca, são horas em que cliente e profissional compartilham histórias, dores e alegrias. É nesse encontro que a prática se torna também um ato político de cuidado.

O reconhecimento pela CBO e a criação do Dia Estadual da Pessoa Trancista são avanços significativos, mas ainda é cedo para medir seus impactos práticos. O que se sabe é que esses passos simbolizam o início de uma nova era para um ofício que sempre resistiu, mesmo quando invisibilizado.

Apesar da relevância cultural e econômica das trancistas no Brasil, ainda são escassos os levantamentos oficiais sobre a profissão. Dados da plataforma Trançando Ideias apontam que existem mais de 300 mil trancistas em atividade no país, número que reflete a força do setor, mesmo sem regulamentação formal.

O mercado de beleza voltado à estética negra movimenta bilhões de reais por ano, segundo estudos do Instituto Locomotiva, mas a ausência de estatísticas específicas sobre trancistas evidencia a invisibilidade enfrentada por essas profissionais, que atuam tanto na preservação de saberes ancestrais quanto na geração de renda e fortalecimento do afroempreendedorismo.

O 1º Encontro de Trancistas do RN aconteceu em novembro do último ano promovendo discussões sobre profissionais na classe.

Entre fios que se entrelaçam e mãos que trabalham, o que se borda é uma história coletiva: a das mulheres negras, das pessoas trans e de todas as mãos que, ao trançar, criam muito mais que beleza, criam memória, dignidade e futuro.

“Trabalhar com tranças é reafirmar a identidade negra, é promover autoestima e pertencimento”, conclui Dona Laura. “É sobre cuidar e ser cuidada. E isso não tem preço.”

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