Catadores do RN contam histórias de luta e mudança
Natal, RN 14 de jun 2026

Catadores do RN contam histórias de luta e mudança

14 de junho de 2026
4min
Catadores do RN contam histórias de luta e mudança
Fotos: Daísa Alves e Luana Tayze

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Quando Paulo Francisco da Silva começou a trabalhar com materiais recicláveis, há quase três décadas, a profissão passava despercebida aos olhos de muita gente. Em Arez, onde vive, ele viu o preconceito de perto. O terreno de casa acumulava papelão, plástico e outros resíduos coletados ao longo dos dias. Para muitos, aquilo era motivo de crítica. Hoje, segundo ele, o cenário é diferente.

“Quando comecei, eu era invisível. Minha casa era cercada por materiais recicláveis, com papelão e plástico empilhados até o teto. Mas as coisas mudaram e, agora, pessoas que antes criticavam meu trabalho, hoje fazem a mesma atividade”, conta.

Aos 27 anos de profissão, Paulo é uma das vozes que ajudam a contar a história de uma categoria fundamental para a reciclagem e a preservação ambiental no Rio Grande do Norte. Histórias como a dele ganharam espaço durante um encontro que reuniu centenas de catadores e catadoras do estado nesta semana, no Parque das Dunas, em Natal.

Se Paulo testemunhou a transformação do olhar da sociedade sobre a atividade, a trajetória de Mileide Carine revela como o trabalho com recicláveis também pode abrir novos caminhos profissionais. Moradora de Mossoró, ela começou como catadora autônoma e encontrou uma oportunidade de crescimento ao ingressar na Associação Comunitária Reciclando para a Vida (Acrevi).

Hoje, enquanto continua ligada à atividade que lhe garantiu sustento, Mileide se prepara para concluir a graduação em Tecnologia em Gestão Ambiental pelo IFRN de Mossoró. O diploma, prestes a chegar, simboliza uma mudança que ela atribui à persistência diante das dificuldades enfrentadas diariamente por quem vive da coleta seletiva.

“É uma profissão difícil e árdua, mas não podemos desistir. Enfrentamos muitas dificuldades, mas temos recebido orientações e apoio que mostram que podemos crescer cada vez mais”, afirma.

As histórias de Paulo e Mileide ajudam a ilustrar uma realidade compartilhada por milhares de trabalhadores responsáveis por recolher, separar e devolver ao ciclo produtivo materiais que seriam descartados em lixões ou aterros sanitários. Apesar da importância ambiental do trabalho, o reconhecimento ainda é uma reivindicação constante da categoria.

Para Paulo, a valorização dos catadores passa pelo reconhecimento do serviço prestado à sociedade. “Os catadores prestam um serviço essencial para o meio ambiente, e é necessário que o poder público reconheça essa contribuição. Afinal, prestamos um serviço importante para a sociedade e para a preservação ambiental”, defende.

A atividade desempenha um papel estratégico na chamada economia circular, permitindo que materiais retornem à cadeia produtiva e reduzindo o volume de resíduos descartados. No Rio Grande do Norte, associações e cooperativas espalhadas por diferentes municípios têm buscado fortalecer essa rede e ampliar as oportunidades de geração de renda para os trabalhadores.

Durante o Encontro Estadual dos Catadores e Catadoras do Rio Grande do Norte, realizado na manhã na última terça-feira (9, cerca de 300 profissionais de todas as regiões do estado participaram da programação, que também marcou o Dia Nacional de Luta das Catadoras e Catadores de Materiais Recicláveis no Brasil, celebrado em 7 de junho. Além de momentos de integração e serviços voltados ao bem-estar dos participantes, os catadores também compartilharam experiências sobre os desafios da profissão e as perspectivas para o setor. Entre as pautas debatidas estiveram a ampliação do reconhecimento profissional, o fortalecimento das cooperativas e a busca por melhores condições de comercialização dos materiais recicláveis.

Mais do que uma atividade econômica, a reciclagem representa, para muitos desses trabalhadores, uma ferramenta de transformação social. Seja na história de quem encontrou na coleta uma forma de sustentar a família, seja na de quem conseguiu chegar ao ensino superior, como Mileide, ou na de quem viu uma profissão antes invisível conquistar mais espaço e respeito, como Paulo, a trajetória dos catadores se confunde com a própria construção da cadeia da reciclagem no estado.

*Com informações da Agência Sebrae.

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