Uma jornada pelos sebos da Grande Natal
Natal, RN 7 de jul 2026

Uma jornada pelos sebos da Grande Natal

3 de agosto de 2025
7min
Uma jornada pelos sebos da Grande Natal

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Em tempos em que a leitura se traduz em pixels e os livros chegam por cliques, os sebos resistem, não apenas como comércios de exemplares usados, mas como refúgios vivos de memória, afeto e encontro. Em Natal e na região metropolitana, eles se espalham pelo centro velho, por feiras culturais e até por vitrines digitais, formando redutos onde o livro físico segue sendo um gesto de desejo, carregado de histórias que vão muito além do que está impresso nas páginas.

O crescimento recente do setor revela que a nostalgia não é o único combustível que move esse mercado. Dados do Sebrae-SP apontam que o comércio de produtos usados, incluindo livros, cresceu 127% no estado entre 2020 e 2022. Em todo o país, o avanço foi de 48,6% apenas entre os primeiros semestres de 2020 e 2021, segundo a Agência Brasil. Já a Estante Virtual, principal plataforma do ramo, ultrapassou 30 milhões de exemplares vendidos até 2023, reunindo mais de 5,5 mil sebos cadastrados. Esse impulso revela algo maior que uma retomada econômica: a confirmação de que o livro usado é, mais do que nunca, um bastião de cultura e sociabilidade.

Simbiose: o sebo virtual

No Sebo Simbiose, comandado por Franz Dmitri e seu irmão, cada exemplar carrega mais que palavras impressas, carrega vestígios de outras mãos, de outros tempos. “Um sebo é muito diferente de uma livraria”, diz Franz. “É muito diferente você ler um livro que já passou pela estante de alguém. Muitas vezes ele tem uma marquinha de café, um grifo, uma dedicatória. São marcas da história de alguém.”

Apesar de virtual, o Simbiose aposta no contato próximo com a comunidade leitora. “A presença virtual é uma porta de entrada para algo que, no futuro, possa ser também um espaço físico”, afirma Franz. Ele explica que a atuação nas redes sociais permite alcançar leitores de outros estados e facilitar a busca por títulos específicos. “As pessoas, mesmo dentro de casa, podem conhecer nosso trabalho. A divulgação, seja no Instagram, WhatsApp ou no boca-a-boca, é fundamental.”

O sebo também participa de eventos presenciais em Natal. “Já estivemos em feiras universitárias, feiras culturais e ocupações literárias”, conta. “Sempre tivemos uma resposta comercial muito boa, além das trocas maravilhosas com o público, tanto os que já nos conheciam quanto aqueles que nos viam pela primeira vez.”

Mesmo com o alcance digital, Franz reforça a importância da experiência tátil. “Existe algo que só a fisicalidade tem, que seria essa aproximação mais direta com as pessoas. A gente considera importante ter um espaço onde o público possa pegar nos livros, folhear, ver as marcas que contam histórias.”

Além da venda, o Simbiose também promove conteúdos sobre literatura e autores, incentivando o diálogo com o universo literário. “Nós somos um sebo, mas também somos um espaço de divulgação de expressões artísticas ligadas ao meio literário”, diz. A proposta curatorial busca fugir do óbvio, resgatando títulos esquecidos, edições fora de catálogo e autores que nem sempre estão no cânone. “Para nós, o que importa é a qualidade do texto.”

Mais do que comércio, o Simbiose se entende como um elo entre pessoas e livros que carregam memórias. “A leitura não precisa ser uma experiência apenas individual”, conclui Franz. “Ela pode, e deve, ser coletiva.”

Sebo Vermelho: 40 anos de história

Foto: Lucas Aguiar

Na Cidade Alta, uma casa térrea abriga há quatro décadas o Sebo Vermelho, símbolo de resistência cultural e amor obstinado aos livros. Criado por Abimael Silva, que trocou uma carreira bancária por uma vida entre páginas, o espaço é mais do que uma livraria: é também editora, centro de memória potiguar e trincheira contra o esquecimento.

Ali, entre exemplares raros e publicações que só existem porque ele decidiu imprimi-las, Abimael construiu uma verdadeira instituição da cultura local. Publicou autores invisibilizados, resgatou obras desaparecidas do mapa editorial e formou um acervo inestimável da história literária e política do Rio Grande do Norte. Quem entra no Sebo Vermelho não apenas compra livros, vivencia um capítulo da história viva da cidade. Saiba mais:

Vídeo por: Gil Araújo e Lucas Aguiar

Sebo do Irmãozinho: o afeto como acervo

Em Parnamirim, o Sebo do Irmãozinho se ergue como um templo da simplicidade e da generosidade. Há 25 anos no mesmo endereço, o espaço surgiu do sonho de um homem que começou vendendo hortaliças numa bicicleta, encantou-se pelos livros ao visitar um sebo no Alecrim e decidiu dedicar a vida a esse encantamento.

Com prateleiras abarrotadas, música nordestina ao fundo e clientes que chegam como quem volta pra casa, o Sebo do Irmãozinho é também um ponto de encontro, sobretudo para jovens estudantes que frequentam o local como extensão da escola. Seu fundador acredita na leitura como força transformadora e na humildade como forma de convivência: “Irmãozinho é todo mundo que acredita no outro”, costuma dizer.

Ali, os livros não são apenas vendidos ou trocados. São celebrados. Cada página folheada é uma travessia, e cada história contada sobre o balcão é parte da construção desse lugar onde o saber é transmitido com afeto.

Cata Livros: legado de papel e humanidade

No Mercado de Petrópolis e na avenida Prudente de Morais, dois endereços mantêm vivo o legado do Sebo Cata Livros, fundado por Jácio Medeiros Torres. A história do sebo é, também, a história de uma família inteira dedicada à literatura, e de uma cidade que se reconhece nesse compromisso com o livro.

Criado nos anos 1970, o Cata Livros enfrentou incêndios, arrombamentos e mudanças de endereço, mas jamais perdeu sua essência. Jácio, ao lado da esposa Verônica e do filho Ramon, transformou o sebo num ponto de referência cultural em Natal. Mais do que livreiro, era considerado por clientes e amigos um verdadeiro curador, com sensibilidade para indicar obras, acolher leitores e formar acervos pessoais e institucionais.

O espaço é mantido por uma família, que carrega consigo não apenas o nome do sebo, mas o compromisso de continuar abrindo caminhos para a leitura na cidade.

Em cada um desses sebos, há mais do que estantes. Há histórias vivas. Há livros que sobrevivem ao tempo, às chamas, aos algoritmos e às estatísticas. E há gente que acredita que a literatura ainda pode ser um gesto de encontro, de memória e de afeto.

Natal, assim como tantas outras cidades, ainda abriga leitores que preferem o toque à tela, o cheiro de livro à frieza do código digital. E é nesses lugares, onde cada volume tem sua história e cada cliente vira personagem, que o livro usado reafirma seu valor social, cultural e existencial. Afinal, como disse o Irmãozinho: “O livro é imortal”.

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