Em entrevista recente a CBN Natal, o senador Rogério Marinho (PL) se apresentou como único representante da direita no Rio Grande do Norte:
“No RN, a direita sou eu”, disse.
Para além da arrogância do personagem, Marinho não é um político que deva ser subestimado. A frase não saiu de graça e tinha endereço certo: o Palácio da Resistência, em Mossoró.
Assim como em 2022, a eleição do próximo ano será uma disputa entre dois lados. A esquerda e o bolsonarismo vão polarizar a corrida eleitoral, especialmente com a iminente prisão do ex-presidente, acusado de tentativa de golpe de Estado após perder a eleição para Lula. Nessa balança, quem não está de um lado, está do outro.
Ao calibrar seu discurso como único entre os eleitores da direita potiguar, mesmo sabendo que não é, Marinho tenta empurrar Allyson Bezerra (União) para o colo de Lula. Assim como Rafael Motta dividiu os votos da esquerda com Carlos Eduardo na eleição para o Senado em 2022, Allyson se finge de morto para convencer uma fatia do eleitorado lulista. A questão, nesse caso, é que Lula já tem candidato: Cadu Xavier.
Nas últimas semanas, para que não reste dúvidas, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e a ministra da secretaria de Relações Institucionais do Governo, Gleisi Hoffman, participaram em Natal de eventos da legenda, com grande participação da militância. Nas duas ocasiões, Edinho e Gleisi confirmaram o apoio do PT a Cadu e voltaram para casa surpresos com o empenho dos petistas na defesa da candidatura do atual secretário estadual de Fazenda.
Nas pesquisas de opinião divulgadas até o momento, quando Cadu é identificado como candidato de Fátima e Lula, o percentual dele sobe. A menos que Walter Alves mude de ideia e decida ser o candidato ao Governo, o que não parece o caso, a maioria dos partidos de centro-esquerda devem marchar ao lado de Cadu (Governo), Fátima (Senado) e Lula (Presidência).
Fator Zenaide
Mesmo ciente de tudo isso, Marinho mantém a estratégia de confundir o eleitor porque conta com uma ajuda de peso: Zenaide Maia. A parceria com a senadora que já foi próxima do PT – e de quem hoje mantém distância – confere a Allyson uma identidade menos bolsonarista do que realmente é.
Acontece que Zenaide é pragmática, mudou de lado e já avisou que está com Allyson para o que der e vier. E após o rompimento do União Brasil com o governo Lula, nem o argumento da aliança político-partidária se justificaria.
A costura da candidatura do prefeito de Mossoró ao Governo do Estado vem sendo alinhavada pelo ex-senador José Agripino, um conservador antipetista há muito mais tempo que Marinho.
Agripino Maia não esconde suas divergências com Rogério. Já disse, em entrevistas, que o senador bolsonarista não é um político confiável, o que não significa que os dois não possam subir no mesmo palanque daqui a alguns meses.
Agripino tenta repetir com Allyson a campanha avassaladora que levou Rosalba Ciarlini a subir a rampa da governadoria em 2011, quando a prefeita de Mossoró liderou a corrida eleitoral de ponta a ponta. Naquela ocasião, no entanto, não havia candidato de esquerda. E os nomes de centro estavam divididos entre Iberê Ferreira de Souza, governador que herdou a cadeira de Wilma de Faria e contava com o apoio do PT, e Carlos Eduardo, que vinha de duas gestões bem avaliadas na prefeitura, mas estava sem mandato.
A preço de hoje, quem está dividida é a direita: uma orgulhosa, liderada por Rogério Marinho com o suporte do senador Styvenson Valentim e do ex-prefeito de Natal, Álvaro Dias; e outra envergonhada, com Allyson Bezerra e Zenaide Maia sem coragem de assumir o lado, com os pés em duas canoas e de olho nos votos dos eleitores de Lula.
Caso não surja um segundo nome competitivo para o Senado no campo progressista, é provável que Zenaide mantenha esse personagem até o final, sabendo que o eleitor em 2026 votará duas vezes para senador. Para se reeleger, a aposta dela é no segundo voto.
Já o caso de Allyson é mais delicado. A partir do momento que o eleitor de direita identificar que Rogério Marinho é o candidato que tem orgulho de ser quem é e perceber, por outro lado, que o prefeito de Mossoró é um candidato com vergonha de assumir quem sempre foi e o que representa, teremos uma eleição mais clara e o jogo totalmente aberto.