A frase, segundo a escritora inglesa Virgínia Woolf, desperta “toda a sorte de preconceitos e paixões”. O motivo é que, quando se fala no tema, estruturas profundas de poder e representação são questionadas.
Por séculos, a literatura foi dominada por vozes masculinas, que definiram o que é a chamada “Grande arte”, quais temas mereciam destaque e como a mulher deveria ser ficcionada. Nas obras de muitos homens, elas aparecem como objeto de representação, não como sujeito.
Quando a própria mulher escreve sobre si mesma, rompe com essa imagem caricata e mostra sua realidade subjetiva. A verdade é que elas escrevem a partir dos sonhos que as encontram enquanto dormem (foi assim com Nivaldete Ferreira, quando a história de Bárbara Cabarrús chegou), e um desavisado jamais entenderia o que é a produção de uma artista da palavra.
Um dos meus sonhos em relação ao que é produzido aqui no estado é que as escritoras sejam tratadas com o respeito que merecem. O que se percebe ainda hoje é que os ventos litorâneos sopram, derrubam os enfeites da escrivaninha e ainda assim, permanecemos venerando um passado idílico.
Eu poderia fingir não me importar que pessoas do quilate de Nivaldete morram sem que seu talento seja conhecido e reconhecido, ao menos pelos que se afirmam versados na nossa produção literária. Fosse esse um mundo justo e “Psilinha Cosmo de Caramelo” teria chegado às escolas brasileiras, para as crianças lerem versos como esses:
Olho o retrato
do casamento dos meus pais…
Eu onde estava?…
Mas… como é que eu podia estar,
se eu não era eu, ainda?…
(acho que já fui
nenhuma-coisa…
mas agora eu converso com você,
daí que eu existo…)
Há quem nem se importe com a qualidade do que se publica nas terras de Clara Camarão. E faz nascer uma agremiação aqui, outra acolá; e organiza coletâneas (menos pelo sagrado da arte e mais pelo orgulho de produzir algo que a sociedade admira). Não influencia, nem contribui com nada, mas participa e publica para se sentir importante.
Por outro lado, há quem trate a escrita profissional como algo sério. Pouco antes de partir, a autora de Sertania e Trapézio e outros movimentos, foi lida, comentada e aplaudida na reunião do mês de agosto do Clube de Leitura Mulheres lendo mulheres. O clube faz parte do grupo Mulherio das Letras Zila Mamede, criado por Carla Alves e Jeanne Araújo, a primeira, professora e produtora cultural, a segunda, um dos grandes nomes da poesia potiguar. O grupo é um dos braços no Rio Grande do Norte, do coletivo Mulherio das Letras.
O coletivo por sua vez, foi criado, segundo conta em uma de suas cartas abertas, para “combater toda as formas de violência e exclusão, para conectar, apoiar e promover escritoras, editoras, ilustradoras, pesquisadoras e livreiras, entre outras, ligadas à cadeia criativa e produtiva do livro, no Brasil e no exterior; a fim de dar visibilidade e ampliar a participação de mulheres no cenário literário. O movimento também cria e divulga oportunidades de publicação dentro de sua filosofia maior: colocar o feminino no centro de sua própria história”. No que depender desses grupos, mulheres talentosas não serão subestimadas, ou esquecidas.
Entendo quem prefira não se envolver com questões espinhosas como essa e viva apenas com a cabeça enfiada na sua própria produção. Mas, me pergunto se o fazer literário não comporta uma contundente crítica da realidade, por parte de quem se torna uma espécie de farol, quando reescreve a vida. Porque é isso o que o escritor simbolicamente é: um farol iluminando pontos obscuros, invisíveis aos navegantes.
Não faltará quem queira desmerecer as lamparinas que ousam questionar. Por isso, coloco em prática o que Lygia Fagundes Telles muito bem aconselhou em “Ciranda de Pedra”: Já que é preciso aceitar a vida, que seja então corajosamente…