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Quem acompanha o dia-a-dia da cidade de Natal, pelo que dizem e publicam programas de rádio e blogues, deve achar que os maiores problemas da capital do Rio Grande do Norte se resumem ao desejo urgente do prefeito Paulinho Freire de construir, a qualquer custo, um parque para chamar de seu e à campanha da primeira-dama e poderosa secretária de Assistência Social, Nina Souza, a deputada federal.
O que em verdade deseja o casal 20 da prefeitura de Natal com essa guerra pelo parquinho e pelos votinhos para deputada?... Simples. Desviar o foco de um outro problema infinitamente mais grave que esses. E para enxergar a gravidade desse desafio é preciso recuar no tempo, pelo menos uns 40 anos.
Corria o ano da graça de 1983... O economista Marcos César Formiga assumia a prefeitura da capital, por indicação de José Agripino Maia, primeiro governador do Rio Grande do Norte eleito do período da redemocratização do país.
Formiga vinha de uma experiência como diretor de um programa do Ministério dos Transportes em que se investiam vultosos investimentos em estudos e planos para a modernização da gestão do transporte coletivo e aplicou-a na prefeitura. E assim nasceu o modelo de transporte coletivo que Natal tem até hoje.
Após uma série de pesquisas e projetos, instituiu-se um sistema de transporte que dividiu a cidade em quatro partes e traçou linhas de ônibus que interligavam o centro da cidade aos bairros, modelo que persiste em sua essência até hoje. Naquela época, Natal tinha quase 500 mil habitantes, muitas áreas vazias e alguns donos de ônibus.
Graças ao trabalho pioneiro do engenheiro Carlos Batinga, que veio do Ministério dos Transportes, primeiro para estudar, depois para implantar seus projetos e modernizar a gestão do transporte público em Natal. Com habilidade política e o apoio do prefeito, ele mudou a mentalidade de autoridades, dos empresários e da população para uma nova realidade.
Natal acabou se tornando referência de transporte moderno e de qualidade. Passados quarenta anos, a realidade é outra e o sistema de transporte por ônibus que se tem hoje em dia é um festival de puxadinhos construindo por sobre a estrutura daquele pleno criado quatro décadas atrás. Que se mostra ineficaz para quem utiliza, custa caro para quem paga e não dá lucro que quem o opera espera.
Em suma, o transporte público de Natal precisa com urgência de um enorme freio de arrumação, para não dizer de uma nova revolução, assemelhada à que ocorreu nos anos 1980. Não de mais concessões, permissividades e acordos de gabinete que só atendem aos interesse de uns poucos e afastam cada vez mais o povo que paga a conta e precisa, desse serviço essencial à cidade.
É urgente redesenhar o percurso das linhas de ônibus e interligar bairros vizinhos, sem que haja mais a necessidade de se dar uma volta ao mundo para se passar pelas paradas esvaziadas da Rodoviária Velha e da Metropolitana como se fazia antigamente.
Talvez falte às autoridades responsáveis pela gestão do transporte em Natal fazer uma, entre tantas perguntas: Por que gastar horas preciosas para trocar de ônibus e passar boa parte do dia fazendo uma viagem que demoraria minutos se o transporte da cidade fosse tratado com inteligência.
Até porque do jeito que está, ele não funciona. Nem como serviço, nem como negócio. E não será concedendo mais subsídios de forma aleatória e benevolente aos empresários, como quer o prefeito Paulinho, que essa realidade vai mudar.
Precisamos enfrentar esse problema de frente, corajosamente, de forma criativa e racional, com inteligência e gestão republicana. A prioridade do prefeito deve ser fazer esse serviço público essencial funcionar de verdade. Não construir parquinhos ou contrair empréstimos em dólar para financiar campanhas eleitorais.