Os 50 anos da UERN Pau dos Ferros e a história de um sonho coletivo
Por Fátima Bezerra, professora e governadora do Rio Grande do Norte
Há instituições que carregam em sua história muito mais do que datas, prédios ou números. Carregam sonhos. Carregam a esperança de gerações inteiras. Carregam as marcas de quem acreditou, lutou e resistiu para que elas existissem e permanecessem fortes.
A Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) é uma dessas instituições.
Celebrar os 50 anos do Campus da UERN em Pau dos Ferros é celebrar uma história de amor pela educação pública. É celebrar a trajetória de uma universidade que nasceu da necessidade e do sonho do povo do interior, que se consolidou pela força da sua comunidade acadêmica e que transformou o Alto Oeste Potiguar em um território de conhecimento, oportunidades e desenvolvimento.
Tenho a alegria de dizer que também faço parte dessa história. Não porque a história da UERN pertença a uma pessoa ou a um governo, ela pertence ao povo potiguar. Mas porque tive o privilégio de caminhar, durante toda a minha vida pública, ao lado de mulheres e homens que nunca desistiram de defender esta universidade.
Antes de ser governadora, antes dos mandatos parlamentares, sou professora. E foi como professora que aprendi uma das maiores lições da minha vida: a educação muda destinos. Foi na sala de aula, no movimento sindical e nas lutas coletivas que compreendi que nenhum direito nasce por acaso. Todo direito é fruto da organização, da persistência e da coragem de quem acredita que um futuro melhor pode ser construído.
Passa um filme pela minha memória quando penso na UERN. Lembro dos tempos em que, ainda no Sindicato dos Trabalhadores em Educação, organizávamos a luta em defesa da escola pública e da própria universidade. Lembro das mobilizações, dos debates, das assembleias, das viagens pelo interior e da convicção de que defender a UERN era o direito do povo do Rio Grande do Norte de ter uma instituição de ensino superior forte, presente no interior e capaz de produzir conhecimento para transformar nossa realidade.
Muitos daqueles que participaram dessa caminhada sabiam que a luta não era apenas por uma universidade. Era pela possibilidade de uma filha ou de um filho de trabalhador estudar sem precisar abandonar sua terra. Era pela oportunidade de um jovem do Alto Oeste realizar o sonho da graduação, do mestrado, do doutorado. Era pelo direito de o interior produzir ciência, formar professoras e professores, pesquisadoras e pesquisadores, profissionais da saúde, das ciências humanas, das ciências aplicadas, das letras, das artes e de tantas outras áreas fundamentais para a vida da nossa sociedade.
A UERN nasceu e cresceu pela força de uma comunidade que nunca desistiu dela.
Quando penso no Campus de Pau dos Ferros, penso exatamente nisso, na força de um sonho coletivo que atravessou gerações. Um campus que chegou ao Alto Oeste para afirmar que a universidade pública também precisava estar onde o povo está. Ao longo desses cinquenta anos, quantas vidas passaram por suas salas de aula? Quantos sonhos ganharam novos horizontes? Quantas famílias tiveram sua história transformada pela oportunidade de acesso ao ensino superior público e gratuito?
Cada diploma entregue pela UERN representa muito mais do que uma formação profissional. Representa a vitória da educação sobre a desigualdade. Representa a esperança vencendo as barreiras impostas pela distância dos grandes centros. Representa a certeza de que investir na interiorização do ensino superior é investir na transformação de uma região inteira. É investir no desenvolvimento ambiental, social e econômico de todo o Estado com a certeza de que o retorno é garantido.
A minha caminhada sempre esteve ligada a essa compreensão. Como dirigente sindical, como deputada estadual, deputada federal e senadora, levei para todos os espaços em que atuei a defesa intransigente da educação pública, da ciência, da valorização dos profissionais da educação e do fortalecimento das universidades públicas como instrumentos estratégicos para reduzir desigualdades e promover o desenvolvimento.
Hoje, como governadora e chanceler da UERN, tenho a alegria e a responsabilidade de contribuir para uma das etapas mais importantes da história da instituição. Mas seria injusto falar apenas das conquistas recentes sem reconhecer que elas foram preparadas por muitas mãos ao longo de décadas.
A história da UERN é, antes de tudo, uma história de resistência.
Ela enfrentou momentos difíceis. Viveu períodos de incerteza, de escassez de recursos e de questionamentos sobre seu próprio futuro. Em diferentes momentos, sua identidade como universidade estadual foi colocada à prova. Houve quem defendesse caminhos que significariam abrir mão do projeto construído pelo povo potiguar. Houve quem subestimasse sua capacidade de crescer, de produzir ciência e de transformar vidas. Mais recentemente, voltou a enfrentar discursos que ameaçam sua identidade e seu papel como patrimônio público do Rio Grande do Norte.
Mas a UERN resistiu. Resistiu porque nunca esteve sozinha. Resistiu porque professoras e professores permaneceram firmes. Porque estudantes ocuparam seu lugar na defesa da universidade. Porque servidoras e servidores técnicos compreenderam que defender a UERN era defender um patrimônio do povo potiguar. Resistiu porque a sociedade norte-rio-grandense nunca deixou de reconhecer sua importância para o presente e para o futuro do nosso Estado.
Ao longo dessa caminhada, muitas pessoas deixaram marcas profundas na construção da universidade. Entre elas, guardo uma lembrança muito especial do Padre Sátiro Cavalcante, pau-ferrense que fez história na Educação de todo o Estado. Um educador visionário, um dos grandes construtores da presença da UERN no Alto Oeste e um defensor incansável da universidade pública. Padre Sátiro sonhava com uma UERN cada vez mais forte, interiorizada, respeitada e capaz de conduzir seu próprio destino. O sonho da autonomia financeira, que por tantos anos mobilizou a comunidade universitária, também era o sonho dele. E uma das maiores alegrias da minha vida pública foi saber que ele pôde testemunhar essa conquista antes de partir.
É por isso que, ao celebrar os 50 anos do Campus de Pau dos Ferros, não celebramos apenas uma data. Celebramos a persistência de uma comunidade acadêmica que nunca desistiu da universidade. Celebramos professoras e professores que fizeram da sala de aula um espaço de transformação. Celebramos servidoras e servidores técnicos que atuaram para sustentar a instituição nos momentos mais difíceis. Celebramos estudantes que compreenderam que defender a universidade também era defender o próprio futuro.
Celebramos, sobretudo, a convicção de que a educação pública é um dos mais poderosos instrumentos de justiça social que uma sociedade pode construir. É essa convicção que acompanhou toda a minha trajetória. E é ela que continua orientando cada decisão que tomo na condição de governadora do Rio Grande do Norte.
Mas é importante lembrar: as conquistas que celebramos hoje não nasceram de um único momento. Elas são fruto de uma longa caminhada. Foram construídas por gerações de professoras e professores, servidoras e servidores técnico-administrativos, estudantes, reitores, vice-reitores, gestores acadêmicos e equipes gestoras que nunca desistiram da UERN. Faço aqui um reconhecimento especial à professora Cecília Maia e ao professor Francisco Dantas de Medeiros Neto (Chico Dantas) que, ao lado de toda a comunidade universitária, conduziram com diálogo, responsabilidade e compromisso um dos momentos mais importantes da história recente da instituição.
A autonomia financeira e patrimonial da UERN não nasceu em 2021. Ela nasceu muito antes, como um sonho acalentado por gerações e defendido por uma comunidade universitária que compreendia que uma universidade estadual só alcançaria sua plena maturidade quando pudesse planejar seu futuro com estabilidade, autonomia e segurança institucional.
Foi por compreender o significado histórico dessa reivindicação que o nosso governo tomou uma decisão política da qual muito me orgulho. Encaminhamos à Assembleia Legislativa o projeto de lei da autonomia financeira e patrimonial da UERN, construído de forma coletiva, aprovado por unanimidade e sancionado em dezembro de 2021. Mais do que uma nova legislação, consolidávamos uma conquista histórica que garantiu à universidade estabilidade institucional, capacidade de planejamento e liberdade para construir seu próprio futuro.
Como professora, poucas decisões tomadas por mim na condição de governadora tocam tão profundamente o meu coração quanto essa. Ao longo da minha vida participei de inúmeras lutas em defesa da educação pública. Mas contribuir para transformar em realidade um sonho que mobilizou tantas gerações da comunidade universitária é um legado que levarei comigo para sempre. Porque compreendo a força transformadora da educação e sei o significado histórico dessa conquista para quem ajudou a construir a UERN e para aqueles que ainda escreverão seus próximos capítulos.
Outra conquista histórica foi o fim da lista tríplice para escolha de Reitores(as), Vice-Reitores(as), Diretoras, Diretores e Vices dos Campi Avançados e demais Unidades Acadêmicas
A democracia sempre foi um valor inegociável na minha trajetória. Não fazia sentido defender a democracia para o país e negar esse mesmo princípio dentro de uma universidade pública. Por isso, sancionamos a lei que garantiu à comunidade universitária o direito soberano de escolher diretamente seus dirigentes máximos e seus diretores das unidades acadêmico-administrativas, respeitando a vontade expressa nas urnas.
Essa decisão também carrega um profundo significado histórico. A comunidade universitária jamais esqueceu um dos momentos mais dolorosos de sua trajetória, quando a vontade democrática expressa na consulta para Direção e Vice-Direção do Campus da UERN em Pau dos Ferros não foi respeitada e a candidata mais votada pela comunidade acadêmica deixou de ser nomeada. Aquela decisão provocou indignação, rupturas que atravessaram décadas e marcou profundamente a memória da universidade. Acabar com a lista tríplice significou reparar essa ferida histórica e assegurar que nunca mais a vontade da comunidade universitária pudesse ser desconsiderada.
Também avançamos na valorização das pessoas que fazem a universidade acontecer todos os dias.
Depois de décadas de reivindicação, asseguramos o Plano de Cargos, Carreiras e Remuneração para os servidores e servidoras da UERN, reconhecendo que nenhuma instituição alcança excelência sem valorizar aqueles e aquelas que dedicam suas vidas ao ensino, à pesquisa, à extensão, à inovação e à gestão universitária.
Nosso compromisso com a universidade também se expressa no fortalecimento da ciência, da tecnologia e da inovação.
O credenciamento da FUNCITERN como fundação de apoio da UERN e da EMPARN representa um passo estratégico para ampliar a capacidade de execução de projetos, fortalecer a pesquisa científica, estimular a inovação tecnológica, captar recursos e construir novas parcerias em benefício do desenvolvimento do Rio Grande do Norte.
A UERN sempre foi muito maior do que seus prédios.
Ela está presente nas escolas que recebem professoras e professores formados em seus cursos. Nos hospitais e unidades de saúde que contam com profissionais qualificados. Nas pesquisas que ajudam a compreender nossa realidade. Na cultura, na comunicação, na ciência, no desenvolvimento regional e na vida cotidiana de milhares de famílias.
O Campus de Pau dos Ferros simboliza tudo isso.
Ao longo desses cinquenta anos, tornou-se referência acadêmica para o Alto Oeste Potiguar e também para municípios da Paraíba e do Ceará. Consolidou-se como um polo de formação de graduação e pós-graduação, responsável por transformar vidas, fortalecer economias locais e ampliar horizontes para milhares de jovens. Na pós-graduação tornou-se referência nacional e internacional por se apresentar como um dos menores municípios do Brasil e do mundo a formar mestres e doutores (e já titulou mais de 1000 mestres e doutores)
Em tempos em que a ciência e a educação pública ainda enfrentam ataques e tentativas de deslegitimação, celebrar os cinquenta anos do Campus da UERN em Pau dos Ferros também é reafirmar.
É reafirmar que a educação pública é um patrimônio do povo brasileiro. É reafirmar que investir em universidades é investir em democracia, em desenvolvimento, em soberania e em justiça social. É reafirmar que o conhecimento continuará sendo sempre a resposta mais poderosa contra o autoritarismo, contra a intolerância e contra todas as formas de exclusão.
Celebrar os 50 anos do Campus de Pau dos Ferros é celebrar essa grande obra coletiva. É homenagear aqueles que vieram antes de nós e abrir caminhos para aqueles que ainda virão.
A UERN é presente e futuro. É conhecimento. É cidadania. É desenvolvimento. É dignidade. E é uma das maiores demonstrações de que, quando um Estado escolhe investir na educação pública, escolhe investir naquilo que nenhuma crise é capaz de destruir: a capacidade do seu povo de sonhar, aprender e transformar a própria realidade.
Vida longa ao Campus da UERN em Pau dos Ferros. Vida longa à Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
Que ela continue, por muitas gerações, sendo um dos mais belos patrimônios do povo potiguar e um farol de esperança para todos aqueles que acreditam que a educação é, e sempre será, o caminho mais seguro para construir um futuro mais justo, mais democrático e mais humano.