A Mizael Plínio
Sempre desconfiei de que as melhores histórias não acontecem conosco. Elas acontecem ao lado, enquanto esperamos.
Naquele dia, eu havia ido visitar um amigo arquiteto sem avisar que passaria por lá. Como acontece com quem trabalha projetando sonhos alheios, ele estava em reunião e, embora tenha pedido desculpas por me fazer esperar, acomodou-me numa pequena sala de onde eu não via absolutamente nada, mas de onde, graças à porta que permanecera apenas encostada, era possível ouvir quase tudo.
Não que eu tivesse a intenção de escutar a conversa dos outros. A conversa é que resolveu chegar até mim.
Tratava-se de um casal que desenhava a futura casa. A planta parecia nascer sem grandes dificuldades, porque ambos concordavam sobre a integração entre sala e cozinha, sobre a necessidade de uma varanda espaçosa, sobre a luminosidade dos ambientes e até sobre a quantidade de tomadas.
Tudo caminhava com a tranquilidade daqueles que acreditam que amar é concordar. Até que chegaram ao banheiro da suíte.
Foi então que ela disse, com uma animação que atravessou a porta antes mesmo das palavras:
– Ah, eu quero duas cubas.
Seguiu-se um silêncio breve, desses que antecedem uma pergunta capaz de desmontar uma certeza.
– Pra quê?
É curioso como existem perguntas que parecem inocentes, mas carregam uma questão arrogante atrelada à ideia de que toda vontade precisa apresentar utilidade para justificar sua existência.
Ela explicou que gostaria de ter um espaço só seu, onde pudesse organizar seus cremes, perfumes, maquiagens e todas aquelas pequenas coisas que, quando desaparecem misteriosamente da bancada, costumam reaparecer exatamente onde não deveriam estar.
Ele respondeu que a cuba era grande o suficiente para os dois.
Ela retrucou que não era uma questão de tamanho. Era de organização.
Como quem acredita ter encontrado um argumento irrefutável, ele lembrou que ambos raramente utilizavam o banheiro ao mesmo tempo, de modo que duas cubas serviriam apenas para ocupar espaço e aumentar o custo da obra.
Ela respondeu que nem sempre as pessoas dividem um banheiro porque precisam. Às vezes, dividem porque gostam de conversar enquanto escovam os dentes. Às vezes, porque um insiste em procurar alguma coisa justamente quando o outro está diante do espelho. Às vezes, porque a vida conjugal, embora seja feita de grandes decisões, também acontece nesses minutos desimportantes que se perdem na memória.
A discussão prosseguia, embora já não tivesse qualquer relação com louças sanitárias.
Enquanto ele falava sobre economia, ela falava sobre conforto.
Enquanto ele enxergava duas pias, ela via duas possibilidades de convivência sem atropelos. Enquanto ele calculava metros quadrados, ela parecia medir outra coisa, cuja unidade nenhum arquiteto aprendera na universidade.
Meu amigo, imagino, devia estar diante da planta tentando descobrir onde passariam os canos, embora provavelmente já tivesse percebido que as conexões mais difíceis nunca são os hidráulicos.
Fiquei pensando que projetar uma casa seja uma das poucas situações em que duas pessoas são obrigadas a negociar até aquilo que ainda nem existe. Discute-se a posição de uma janela pela luz que entrará daqui a alguns anos. Escolhe-se uma árvore cuja sombra só aparecerá muito tempo depois. Decide-se onde ficará uma tomada para um aparelho que talvez ainda nem tenha sido inventado.
Constrói-se, antes da casa, uma hipótese de futuro.
E, no meio desse futuro imaginado, havia duas cubas.
Depois de um tempo, os argumentos começaram a rarear, não porque alguém tivesse convencido o outro por meio da lógica, mas porque existe um momento em toda conversa de casal no qual a razão percebe que já fez tudo o que podia e resolve entregar o trabalho ao afeto.
Foi quando ouvi meu amigo dizer, com a serenidade diplomática que talvez só os arquitetos desenvolvam depois de tantos projetos conjugais:
– Então faremos com duas cubas.
Parece que ouvi uma discreta comemoração. Um pequeno grito. Imagino que acompanhado de um sorriso feminino e uma cara de derrotado de um homem.
Quando ele apareceu para me buscar, perguntei apenas se o projeto havia ficado bonito. Ele sorriu daquele jeito cansado de quem acabara de mediar um conflito internacional financiado em parcelas.
Respondeu que sim. Bonito…
– E com duas cubas na suíte?
Meu amigo respondeu que sim, caindo na gargalhada.
Enquanto voltava para casa, continuei pensando naquelas duas cubas, porque me ocorreu que provavelmente elas jamais fossem usadas ao mesmo tempo, que talvez uma delas passasse o dia inteiro seca ou que, depois de alguns anos, ambos acabassem escovando os dentes diante da mesma pia por pura falta de disposição para caminhar alguns centímetros.
Mas isso já não importava. Certas escolhas nunca dizem respeito ao objeto escolhido. Dizem respeito ao que desejamos preservar quando decidimos morar com alguém.
E, se há casamentos que se desfazem pela ausência de espaço, talvez existam outros que sobrevivam justamente porque alguém, um dia, insistiu em colocar duas cubas onde parecia bastar apenas uma.