Jennify C.: 10 anos de batidas que carregam corpo, memória e futuro
“Quando você encontra esse tesouro e mantém ele reluzente… a recompensa é muito gratificante”, reflete Jennify C. em entrevista à agência SAIBA MAIS. Essa frase, vinda depois de mais de uma década de caminhada independente, encarna muito do que sua trajetória representa: resistência, autoconstrução e pertencimento.
Nascida em Macaíba (RN), Jennify C. descobriu desde cedo o poder da música eletrônica. Ela lembra das tardes com a tia, ouvindo fitas cassete com Tecnotronic, e de como isso a despertou para uma curiosidade profunda: “como essas músicas eram feitas?”. Foi a partir daí que ela começou a explorar softwares de produção, como o FL Studio, de forma autodidata, em blogs, fóruns e tutoriais na internet.
A decisão de transformar essa curiosidade em profissão só viria anos depois, quando ela veio trabalhar em telemarketing, em Natal. Insatisfeita com o emprego, ela optou por voltar para a música e investir no que verdadeiramente a movia.
O salto para a independência
Enquanto trabalhava CLT, Jennify produziu trilhas sonoras para jogos, lançando um EP na Unity Asset Store, plataforma onde compositores podem vender trilhas para desenvolvedores de games. No primeiro mês, ela faturou cerca de US$ 100 que, convertidos, superaram o que ganharia por seu trabalho formal em alguns períodos. Esse foi o estopim: pediu demissão da Teleperformance e mergulhou de cabeça na música. Esse foi o ponto de inflexão, a partir dali, sua arte começou a pagar as contas.
Jennify lançou, em 2022, o EP Reborn pelo selo potiguar Rizomarte Records. O trabalho, feito em parceria com o beatmaker baiano The Williver, é um manifesto pessoal: aborda renascimento, vulnerabilidade, força e a vivência de uma pessoa trans preta periférica. Em suas próprias palavras:
“Rap, trap, experimental… eu trago todo esse sentimento de potência, mas também de vulnerabilidade … porque eu sei que eu consigo atingir outras pessoas que também sentem isso.”
A estética do Reborn dialoga com universos cyberpunk, sci-fi e videogames, mostrando já nos primeiros passos que Jennify não seguiria uma rota convencional no rap potiguar. Confira:
Após anos de construção, veio Atmosfera, seu primeiro álbum autoral completo, lançado em 2024 pelo selo DoSol. Com 11 faixas, o disco é uma espécie de diário em batidas minimalistas e letras confessionais, navegando entre rap, pop alternativo e trap. A produção, ela mesma conta, foi totalmente feita por ela, compôs, produziu e masterizou.
Para Jennify, Atmosfera representa mais do que música: é autoafirmação. “É a minha vivência”, diz, sobre temas como resistência, autoconhecimento, erros, acertos e identidade.
No álbum, há participações como de Killaleua, Ruiz Victor e Emanuismo, o que reforça a colaboração como parte essencial de sua construção sonora. Além disso, ela mergulhou em uma incubadora da DoSol para finalizar o projeto, um processo de imersão que, segundo ela, foi transformador.
A carreira de Jennify já rendeu reconhecimentos importantes. Em 2024, ela conquistou o Prêmio Hangar de Música na categoria “Revelação do Ano”. Mais tarde, em outra edição do Hangar, seu álbum Atmosfera foi indicado para Álbum do Ano. Esses prêmios consolidam não só sua relevância na cena potiguar, mas também o poder da sua voz em narrar realidade.
Saiba Mais: Prêmio Hangar de Música celebra talentos e ancestralidade no TAM
Além disso, ela sonha com um trabalho que reconecte suas raízes familiares: seu pai é do quilombo de Capoeiras, em Bom Jesus (RN), e Jennify planeja incorporar essa herança em uma nova fase musical. Ela quer trazer instrumentos, banda, trocas e sensações mais densas nos shows, algo “mais sensorial”, como ela definiu.
Conexão regional e nacional
Um dos pontos altos da trajetória de Jennify é sua participação no projeto Tudo Nosso, idealizado pela cervejaria Devassa. A iniciativa reuniu 10 artistas pretos do Norte e Nordeste para oficinas, curadoria e colaborações. Por meio desse projeto, ela se conectou com Núbia, artista do Maranhão, e juntas se apresentaram no Festival do Sol e no Circo Voador (Rio de Janeiro), espaço simbólico e histórico para muitos artistas brasileiros. Jennify descreve a experiência como “emocionante” e transformadora.
Jennify vinha acompanhando o MADA Festival há anos. Quando finalmente subiu ao palco no “Baile da Amada” de 2025, a sensação era de realização e pertencimento:
“Quando você finalmente cai a ficha de que você está compondo aquela grade de atrações… o que mais exala é o pertencimento. Eu pertenço a isso.”
Ela relembra a ansiedade e a emoção de estar. Para ela, foi uma confirmação de que o trabalho que ela vem fazendo, com suor, independência, noites de produção, está alcançando o público, e que sua arte ressoa.
Jennify C. não trilha sozinha. Parte fundamental de seu percurso é a Casixtranha, coletivo de artistas e performers com quem ela às vezes compartilha palco, vida e sonhos. Em sua estreia no MADA Festival 2025, ela levou esse coletivo ao palco, o que tornou o momento ainda mais simbólico.
Gerenciar uma carreira independente não é fácil. Jennify produz, distribui, discoteca, performa, compõe, administra redes, tudo por conta própria. Em suas palavras, isso às vezes é “cansativo” e “desgastante”. Mas é também profundo, recompensador e, acima de tudo, fundamental para manter a integridade de sua visão.
Ela compara sua trajetória a uma busca por um tesouro sem mapa, uma busca solitária, instável, mas que, quando acha, tem luz própria.
“É difícil de compreender isso… se auto-reconhecer, se auto-afirmar que tudo isso tá acontecendo porque eu não desisti.”
Para o futuro, Jennify C. já planeja conquistar novos traquejos. Ela anunciou o relançamento de Atmosfera em versão de remixes, com colaborações, para dar nova vida ao disco. Paralelamente, desenvolve um novo álbum mais dançante, voltado para pista, com banda, mais instrumentos e performances mais sensoriais.
Mas não é só isso: há também o projeto de resgatar e traduzir sonoramente sua herança quilombola. Transformar a saudade do pai e a memória ancestral em música é, para ela, um desafio, mas também uma missão poética.
Mais do que entretenimento, para Jennify, a música é um jeito de existir, de confrontar estigmas, de afirmar sua identidade em cada verso, batida e show. Como artista trans e negra, ela usa sua voz para gritar para si, para sua comunidade, para aqueles que a escutam.
Sua carreira, construída com autonomia e ousadia, revela a força de quem se recusa a ser apenas mais um nome. Jennify C. representa, hoje, um dos polos mais vibrantes da cena potiguar, mas é, antes de tudo, uma artista que carrega um universo inteiro dentro de si, e que convida o público de diferentes formas a entrar nessa atmosfera.