Todo mundo amando o Frankenstein do Guillermo Del Toro, né? Eu também! Conheço a história desde a adolescência, tenho, inclusive, uma linda edição de capa dura metalizada da Zahar Editora. E só pra constar, antes do burburinho em torno do novo filme, essa nerd que vos fala detestava as tragicômicas versões cinematográficas do livro.
Exatamente por ter me deparado com um texto elegante e profundo, não tolerava as visões superficiais e até mesmo estúpidas sobre essa incrível criatura que o “galvanismo” (principal inspiração cientifica de Mary Shelley), ressuscitou.
Aliás, vamos combinar… o que dizer de uma garota de 18 anos capaz de criar ficção dessa magnitude? Estava ela lá, passando uns dias na Suíça (pesquise Villa Diodatti, o casarão existe até hoje), com os amigos e o mais famoso deles, Lord Byron), tem a brilhante ideia de propor uma competição: escrever a melhor história de terror da temporada.
Não se sabe quem venceu e apenas dois dos contos escritos se tornariam conhecidos. O da nossa diva; e a história “O Vampiro”, do jovem John Polidori (considerada a primeira no gênero vampiresco). Na Suíça foi apresentada apenas a narrativa curta. A versão final, publicada dois anos depois, foi escrita na cidade de Bath, Inglaterra.
Agora vamos às diferenças: para vocês terem uma ideia, a criatura do livro possui extenso vocabulário e sua linguagem é sofisticada. Ela lê o poema épico Paraíso Perdido, de John Milton (há, inclusive uma epígrafe dele no início), filosofa sobre a existência e discute ética, ciência e abandono. O Frankenstein de Shelley tem profundidade emocional, sente solidão e deseja afeto. É descrito como fisicamente assustador, mas não é um ser irracional.
Já o dos filmes (até o genial Guillermo del Toro dar sua versão) é um homem com parafusos no pescoço, andar robótico, fala limitada ou inexistente. Um ser violento e infantilizado, um antagonista do seu criador ― o cientista incompreendido, quase herói. Essa inversão distorce a complexidade filosófica do enredo original.
No livro, a entidade é descrita como sendo um gigante de mais de 2 metros, com pele amarelada e translúcida; olhos aquosos e mortiços; cabelos longos e negros; dentes intensamente brancos; lábios escuros; músculos e articulações visíveis sob uma pele mal ajustada ao corpo. Tem agilidade e força muito superiores às humanas. O gigante consegue arrancar árvores pequenas ou galhos grossos com facilidade, carregar peso muito acima do possível para um humano, subir montanhas de gelo com velocidade incomum e vencer confrontos físicos com enorme vantagem.
Além da força, Shelley descreve maior resistência ao frio, sobrevivência com pouca comida e capacidade de percorrer grandes distâncias sem descanso. Ou seja, O indivíduo maryshelleyano está mais para um x-men, do que para uma múmia vitoriana, como o cinema popularizou.
Quanto ao causador da coisa toda, o cara retratado como cientista louco nas películas, Victor Frankenstein, é um homem profundamente atormentado, tomado por culpa e obsessão, na visão da sua criadora. Em alguns capítulos, ela o coloca para contar sua própria história, o que permite ver sua ambiguidade moral. A narrativa é introspectiva e crítica ao cientificismo irresponsável. Já no cinema, o drama ético e existencial do personagem é reduzido, ou eliminado. O foco é sempre na ação, no horror visual, não no conflito moral.
Sobre o processo da criação, Shelley não descreve detalhes técnicos, até porque ela vivia no começo do século XIX referenciada ao século XVIII. O processo criado por ela é vago e atmosférico. A ênfase está na obsessão de Victor, não na técnica. No cinema aparece o laboratório clássico com tubos, eletricidade, faíscas, raios, mesas que sobem e a célebre expressão “It’s alive!” Essa estética e dramaticidade não existem no romance.
Em duas coisas, Guillermo Del Toro superou Mary Shelley: na construção da personagem Elizabeth, que na obra é passiva, quase figurante e no filme, cientista e… uma mulher questionadora. O final também foi do meu gosto. Ao invés de morte e desaparecimento, acontece redenção e oportunidade de recomeço para o nosso amado Frankdivo.
Estou feliz que finalmente um diretor do nível do mexicano tenha se debruçado na leitura atenta desse clássico e feito jus à obra mais icônica do romance gótico. Frankenstein é um arquétipo cultural e devemos a ele a inauguração do gênero ficção científica. Resgatar sua profundidade foi o grande mérito da versão 2025.
Acaso, ó Criador,
pedi que do barro me moldasses homem?
Porventura pedi que das trevas me erguesses?
John Milton, in: Paraíso Perdido.Ana Cláudia Trigueiro