O sofrer
Natal, RN 15 de jun 2026

O sofrer

1 de novembro de 2025
3min
O sofrer
Imagem gerada por IA

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Tenho visto gente sofrer.

Gente sofrida…

Gente sofrendo.

Por amor, ou pela falta dele.

Uso o verbo sofrer no infinitivo, no particípio e no gerúndio, porque é preciso dar-lhe forma. É preciso fazê-lo nome. Torná-lo coisa. Substantivo concreto para além da abstração do sofrimento.

Hoje brinco com palavras. Faz dias que brincar é uma saída para as dores. Para as perdas, para as saudades. Para as ausências.

O sofrer, presente. Todos nós em maior ou menor medida. Um dia, uma vida, quase nunca. Alguns têm mais sorte, já outros… Esta ainda não se materializou. Não coisificou. Ficou no campo das abstrações.

Tenho visto o sofrer. Sofrido, sofrendo numa concretude de navalha.

Dói em mim, porque eu sou o outro. Leminski nos lembra disso.

Sofre-se por fome, por morte, por paixão, por perdas, por dívidas, por não se entender, por erros cometidos, por não ser amado/a/e.

Sofre-se!

Tenho visto. Há espelhos por onde passo. Sou uma delas, das que sofrem. Das que guardam dores, tão profundas que são invisíveis aos olhos alheios.

Há pessoas que sofrem pelos pecados que cometeram, e pelos que gostariam de cometer. Falta coragem. Até pra sofrer, algumas vezes.

Não queria isso. Preferia a indiferença. Mas minha humanidade grita e eu sofro. Vou continuar a sofrer  sofrendo de algo tão sofrido que não sei bem o que é. Perspectiva muito clariciana, muito nolliana de ser.

Se uma paixão não correspondida, se um amor impossível, se um desejo contido demais, se uma lembrança de vontades contidas ou profundamente liberta(da)a. Epifanias, gozos, delícias, separações, impedimentos e dores. Sofre-se.

Não sei como medir a minha, nem sou capaz de compartilhá-la, descrevê-la. Ela existe. Há! É e está.

Tenho visto gente sofrer.

Gente sofrida…

Sofrendo…

Inclusive eu.

De tanto, de tão pouco, se quase nada. Valores nossos, só nossos. Imensuráveis sofreres.

Prefiro ver alegrias.

Sorrisos e gargalhadas.

Olhos brilhantes.

Abraços sinceros e quentes e apertados.

Liberdades.

Mas hoje falo da concretude dolorosa de um verbo.

Ação de dor. De angústia, de desespero, de falta, de vontades aprisionadas. O sofrer. Substantivo para poder existir. Para se consolidar enquanto objetivo.

E como coisa, como sujeito e objetivo, como sintagmas feitores de nominalizações, pedaços de coisas concretamente abstratas, abstratamente concretas, manuseio-a, descarto-a, afasto-a, escondo-a, desprezo-a, quebro-a, queimo-a, enterro-a…

Quero dormir e acordar amanhã desconhecendo este verbo, sem reconhecer este nome. Esperando que as alegrias me inundem. “Clara manhã, o essencial é viver.”

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