Pressão urbana sobre Via Costeira preocupa procurador do MPF
Natal, RN 17 de mai 2026

Pressão urbana sobre Via Costeira preocupa procurador do MPF

19 de abril de 2026
5min
Pressão urbana sobre Via Costeira preocupa procurador do MPF
Foto: Alex Régis/Secom Prefeitura do Natal

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A pressão urbana e o possível relaxamento de normas de construção na Via Costeira têm causado preocupação e levado à mobilização do Ministério Público Federal (MPF). O procurador da República Camões Boaventura é o responsável pela investigação recente instaurada para acompanhar as medidas de proteção à fauna marinha na área e diz que a flexibilização para ocupação na região pode gerar um grave problema ambiental.

A investigação recém aberta teve início após o recebimento de uma nota técnica elaborada com base em estudo realizado pelo Centro de Estudos e Monitoramento Ambiental (Cemam), que identificou o trecho entre a Praia de Ponta Negra e a Via Costeira como ecossistema essencial para a fauna marinha do litoral potiguar. A área funciona como zona de alimentação, repouso e, sobretudo, sítio reprodutivo de tartarugas-de-pente , além de servir como corredor ecológico vital para aves, golfinhos e baleias.

“É uma espécie da fauna marinha ameaçada de extinção, muito relevante para o equilíbrio ecossistêmico”, aponta Camões Boaventura.

O órgão encaminhou ofícios à Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) e ao Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema) do Rio Grande do Norte para levantar informações necessárias à apuração.

Saiba Mais: MPF apura medidas para proteger fauna marinha na Via Costeira de Natal (RN)

Dados do monitoramento realizado entre 2024 e 2025 revelam que, mesmo sendo uma área submetida a uma forte pressão urbana, a Via Costeira possui grande relevância ecológica: somente naquele período foram registrados 76 ninhos de tartarugas marinhas em apenas 7 km de extensão, chegando a ter mais de dez pontos de desova por quilômetro. 

Contudo, tem crescido o número de encalhes da chamada megafauna marinha, que inclui tartarugas, golfinhos e baleias. Foram 3 ocorrências em 2023, 17 em 2024 e 23 em 2025. Nos primeiros 45 dias de 2026, já foram contabilizados 13 casos.

Além disso, a fotopoluição (iluminação artificial excessiva de postes, hotéis e veículos) e o tráfego de automóveis na areia representam alguns dos riscos diretos à sobrevivência de filhotes e adultos.

De acordo com o procurador, os problemas podem estar relacionados às leis que flexibilizam a ocupação na Via Costeira. Dentre as normas, estão o Plano Diretor de Natal e a lei que amplia construções na região.

“Essas leis tendem a suprimir área de praia. A vegetação de restinga, as dunas, que são áreas em que as tartarugas colocam seus ovos e fazem seus ninhos. Com a supressão dessas áreas, essa espécie não terá mais onde se reproduzir, o que obviamente gerará um problema ambiental gravíssimo”, alerta.

Procurador defende mudança nas leis municipal e estadual

Em dezembro, o MPF entrou com uma ação civil pública para suspender a íntegra ou trechos de leis aprovadas nos últimos anos que podem enfraquecer a região. A ação foi movida contra o município de Natal, a Câmara Municipal de Natal, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema/RN) e questiona legislações de âmbito municipal e estadual que, segundo o MPF, contrariam a legislação federal (como o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica), além de licenças concedidas sem o devido respaldo ambiental e legal.

Saiba Mais: MPF pede suspensão de leis que flexibilizam ocupação na Via Costeira

“Essa ação tem pedidos de liminares de ordem urgente e estamos aguardando, preocupados com o fato de não ter sido ainda apreciada a liminar”, diz Boaventura. 

O procurador explica que algumas entidades, como Fecomércio e Coletivo Salve Natal, ingressaram na ação como amigos da Corte. O juiz anunciou a possibilidade do agendamento de uma audiência para esclarecimentos. No entanto, essa audiência ainda não foi designada e não houve a apreciação das liminares. 

“Nós não sabemos a quantas anda o caminhar da Semurb para a emissão de eventuais autorizações ou licenças, o que para a gente representa um sério dano, sobretudo do ponto de vista da segurança jurídica para o tratamento da área”, afirma o procurador.

Camões Boaventura critica a demora da Justiça em se pronunciar a respeito do pleito:

“Os empreendedores ficam sem saber qual vai ser o pronunciamento da Justiça. Nós, por parte do Ministério Público e a sociedade, que é quem o Ministério Público Federal representa, também ficamos sem saber. Então, se faz muito importante que haja um pronunciamento da Justiça sobre esse nosso pleito para, a um só tempo, garantir segurança jurídica e, sobretudo, adequar essa legislação ou afastar essa legislação e reconhecer a preponderância da legislação federal, notadamente o Código Florestal e a Lei de Gerenciamento Costeiro, que proíbem construções desse viés nesse tipo de área de zona de praia”, alerta.

Audiência pública ouviu sugestões da população para a área

Em junho do ano passado, o MP Federal e do Rio Grande do Norte realizaram uma audiência pública para ouvir a população sobre a Via Costeira e pensar o futuro do local. Foram ouvidas sugestões como utilização coletiva através de parques públicos, ampliação de transporte coletivo na área, reforço na segurança pública, necessidade de construção de acessos públicos à orla e potenciais de uso turístico e pelo natalense.

Também foram apresentadas ideias para o uso privado e coletivo da área, além de ações de proteção e conservação ambiental. De acordo com Camões Boaventura, há um descompasso “flagrante” entre o que é manifestado pela população e o que é feito pelo poder público.

Saiba Mais: Órgãos e ativistas apontam opções para áreas desocupadas da Via Costeira

“A rigor, é importante que compreendamos que a Via Costeira, do jeito que está, presta um grande serviço para o meio ambiente e para o equilíbrio ecológico. Se, eventualmente, houver iniciativas de alguma intervenção na área, essas intervenções precisam se adequar a requisitos da utilidade pública, interesse social e de baixo impacto. Então, por exemplo, parques, praças, arenas esportivas, a rigor, atendem o requisito da utilidade pública e do interesse social. No entanto, se faz necessário que se faça um estudo ambiental para aferir se essas intervenções são intervenções de baixo impacto”, explica.

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